sábado, janeiro 31, 2009

O caso sócrates ou o fim do Estado de Direito?

Um amigo, há cerca de um ano, garantiu-me meio a brincar, que o ódio pessoal de alguns do PP pelo Primeiro Ministro era de tal forma que haveriam de programar alguma coisa mais concertada antes das eleições.
Ao ver a lama com que tentam eliminar José Sócrates lembrei-me dessa conversa.
Ao ler este post também.
Frost e Nixon ( excelente filme com uma magistral interpretação de Frank Langella)mostra o princípio de uma nova era, em que as instituições jurídicas e o Direito Penal são substituídas pelo linchamento popular do circo mediático.

Nazismo católico

Há muito tempo que se sabe que o tradicionalismo católico na sua vertente nais radical, embora minoritária está impregnado de movimentos fascistas e neonazis, ao franquismo espanhol e a grupos de extrema direita na américa do sul e estados unidos.
Que o Papa tenha tentado por todos os meios integrar esses grupos minoritários revela que essas organizações têm alguma influência económica e se movem bem no submundo da diplomacia do vaticano.
Não há muito tempo que a matriz neonazi dos tradicionalistas católicos foi denunciada na blogosfera portuguesa a propósito de um blogue português e seus apoiantes. Denúncia esta que teve apaixonadas negações, embora pouco fundamentadas.
A face agora publicamente revelada dos principais mentores do Tradicionalismo Católico não deixa margens para dúvidas: são antisionistas, misóginos, antidemocráticos e bebem o conservadorismo ideológico nos grandes paradigmas do nazismo.

O que leva pois o vaticano a tentar reintegrar estes extremistas?
Só há uma resposta possível - para os dividir e fragmentar.
Para os ter sob rigoroso controlo.

O levantamento das excomunhões marca em definitivo o princípio do fim dos extremistas lefebvrianos.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

""Existe o pecado pelo qual merecem não só serem separados da Igreja pela excomunhão, mas também serem retirados do mundo pela morte. Com efeito, é questão muito mais séria corromper a fé, pela qual vem a vida da alma, do que fabricar dinheiro falso, com o qual é sustentada a vida corporal. Por conseguinte, se os fabricantes de dinheiro falso e outros malfeitores são justamente castigados com a morte pelos príncipes seculares, com muito maior justiça podem os hereges ser castigados com a morte imediatamente após o veredicto, e não somente excomungados." (São Tomás de Aquino. Summa Theologica. II.Q.XI)

Olha se tivessem mantido a vera tradição .... não estávamos agora a falar da senilidade do cura nazi.

Ou talvez Deus o castigue com uma morte lenta. A Tradição Católica já não é o que era...

Um momento de verdadeiro riso

O tarado do nazi, acha que as mulheres não devem usar calças porque isso lhes retira a feminilidade. Logo, usar calças é contra a vontade divina.
De igual forma condena o filme Música no coração porque, adivinhem, nesse filme os nazis são maus, e além disso os protagonistas casam-se porque se amam, quando o amor nada tem a ver com o casamento.
Ah a as mulherzinhas não devem ir para a universidade, basicamente porque as suas mentes limitadas não foram desenhadas para o esforço intelectual .

O tipo é tão execrável ( o cura nazi, como lhe chamam) que vai ser expulso da FSPX

Fellay afirma aceitar o Concílio Vaticano II

Card. Castrillón: Full communion will come. In our discussions, Bishop Fellay recognized the Second Vatican Council, he recognized it theologically. Only a few difficulties remain..."

Bento XVI não dorme em serviço.

Bispo NAZI pede perdão

O Bispo Nazi Willianson , não só teve de rastejar desculpas face ao Vaticano como foi imediatamente afastado das suas funções à frente do seminário que dirigia. Além desta sanção, o Nazi lefebvriano foi formalmente proibido de falar sobre questões históricas ou políticas.
Parece,claramente ,que a propaganda nazi não é muito apreciada por Bento XVI, que já fez saber aos Rad TRads quem manda .

Gentes

"Os insuficientes mentais da rádio-televisão, a quadrilha dos bancos, as seitas evangélicas, os poetas, os de Braga, os actores, os engenheiros, os anais e os menstruais, os cancerosos, os que alugam barcos, os à esquerda da direita e os do avesso da esquerda, os solícitos solicitadores, os abstémios, os não-fumadores, os de Setúbal, os filhos-da-puta em geral e as mães deles em particular, os sindicalistas que não fazem boi e os bois que vão para sindicalistas, os bulímicos, os químicos, os de Abrantes, os que usam cachecol, os que usam o Estado, o estado do uso, o estudo do abuso, os coimbrinhas, os que só dão o cu mas aparecem de piça à lapela, os tónico-capilares, os bic-laranjas, os rosa-cristal, os ciganos e os cigmeses e os cigsemanas e os cigdias e os cigminuto-a-minuto, os lopes, os palopes, os motores, os promotores, os disto e os daquilo, os reformados, os reformistas, os reformadores, os formadores, os dores, os de Beja, os taxistas, os utentes, os entes, os doentes, os hirsutos, os mansos e os brutos, os anémicos, os da Pampilhosa, os que tossem, os que rumorejam, os do cinema de produção nacional, os nacionais de produção teatral, os que cortam árvores, os que rotundam, os que se arredondam, os que vendem a salvação em brasilês, os que dizem é-assim de cinco-em-5 segundos, os que dão aulas e os que faltam às aulas, os que superbockam, os que acham bem tant’auto’strada entre nenhures e sítio algum, os que amocham com o andor nas procissões, os que mesmo não sendo mulheres não têm colhões, os que tendo mulheres as deixam ir a pé a Fátima ou sabe-se lá aonde, os de Leiria, os cabeleireiros mais fêmeos do que o elástico dos soutiens, os que já redigem sutiãs, os que se pudessem não deixariam ninguém poder, os suinicultores, os que mexem nas partes dos netinhos, os netinhos, os de Tavira, os que mordem a haste dos óculos, os que bebem o vermute com o mínimo esticadinho até à unhaca de tirar cerume dos pavilhões capiloso-auditivos, os dentistas, os aut(omobil)istas, os que têm o cu virado para África, os que nos venderam a Bruxelas, os que estão em Bruxelas a vender-nos ao resto da Bélgica, os que estão em Bruxelas mas voltam, os que rogam por-obséquio, os que pedem tenhamos-a-fineza, os que nunca leram o Nuno Bragança, os que lêem o Torga, os que vomitam, os que crocitam, os que caganitam, os que gritam, os que se vêm mas não se vêem, os que compram nos chineses camisolas para levar à manifestação contra o desemprego, os secredromedários de Estado, (...)os que põem as filhas no ballet ao dispor dos pedófilos que dão Religião & Moral, os que põem os filhos na heroa, os que dolcegabanam e os que só abanam, os que confundem os canhões de Navarone com a ponte do rio Kwai, os que são mágicos, os trágicos, os que são marítimos, os histamínicos, os cómicos, os noz-vómicos, os da Covilhã, os que trocam a rata da mãe por duas embalagens de bacalhau pré-demolhado, os que são trocados pelas mães, os de Bragança, os de Silves, os do Funchal, os do Pico, os de Cantanhede, os de Viseu, os de Peniche, os de Évora, os de Aveiro, os de Pinhel, os de Newark, os de Portalegre, os de Goa, os da Trofa, os de Sacavém, os de Berna, os só-de-taberna, os de S. Paulo, os de S. Paulo de Frades, os de Oliveira de Azeméis do Hospital de Frades do Bairro, os que paulocoelham, os que siddhartam, os que se peidam que nunca se fartam, os que dizem ámen e os que amenizam, os que vertem e os que entornam, os que tornam, os que se encornam, os que se autorretratam e os que nunca se retractam, os que vêem o telejornal, os que já viram ovnis chamados ufos, os bufos, os tartufos, os alecrínicos e os manjerónicos, os que blogueiam, os que bloqueiam, os que manoeldoliveiram no pátio das cantigas, os que nunca se movem, os que se comovem, os que bradam, os que ladram, os que votaram neste cabrão mas agora juram que não, os não foram eles, os que são outros em vez deles por não ter sido o pai deles a foder a mãe deles, os que mandam nas urgências, os médicos, os que têm tétano por profissão, os que fazem do tédio negócio e os do ódio ócio, os ósseos, os seminais, os seminaristas, os sacerdotais e os chupistas, os que foram às urgências para morrer em casa, os que nascem em ambulâncias, os que nem casa têm onde cair mortos, os de Alenquer, os sibaritas, os hermafroditas, os foditas, os jesuítas, os juristas, os naturistas, os que chupam cabeças, os da bandadalém e os que ficam sempre aquém, os de Sintra, os da Madragoa, os porteiros, os parteiros, os excêntricos, os teocêntricos, os dos amanhãs-que-cantam-quando-a-galinha-tiver-cáries, os de Pombal, os que anoitecem de manhã, os que tonycarreiram, os que encarreiram, os que encarneiram, os do poder local, os do foder boçal, os que vendem meias a paraplégicos, os que ladram Deus ao domingo, os que arrolam testemunhas na esquadra de Jeová, os holocáusticos de David, os do tremoço e os da pevide, os que não comem carne de porco sabe Deus porquê, os que dão sangue mas só o do fim da borbulha, os do Estoril e eu também – tudo merda." assim escreveu o Daniel.

Lugares escuros

É estranho, mas se passarmos algm tempo em sites, blogues ou foruns da beatagem fica-se com uma certa sensação de conspurcação interior.

São sítios bastante sujos. E vem-se de lá com vontade de lavar a alma.

o OUTRO LADO

A velha que vive no corredor nunca ouviu falar das discussões sobre o sexo dos anjos. Está até convencida que os anjos têm pequenos pénis rosados que usam para fazer maroteiras em corropios celestiais.
A velha tem uma vida aguadamente lenta entre as quatro paredes do corredor estreito onde se entreabrem duas portas. A solidão espessa, os estalidos da madeira, já não a assustam.
À noite dorme pouco. Tem medo que os ratos lhe subam na cama e lhe mordam os olhos.
- Já viu, menina, se fico cega?
A velha quer estar deitada na cama do corredor de olhos bem abertos. De vez em quando há uma luz que amarelece a portada e a faz sonhar com anjos. Se não visse os desvarios da luz a dedilhar a portada como sabia dos dias e das noites, das madrugadas que se adivinham muito antes de se anunciar, dos ciclos das chuvas? Gosta do Malato e acha que a menina júlia, à tarde , fala directamente para ela.
- Já viu, menina, se fico cega?
O mundo chega-lhe de assomo, directamente do canto do corredor onde a televisão a espreita - um quadrado muito pequeno de todas as cores, a pingar a humanidade inteira nos estalidos do soalho.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Nazismo católico

Circula em muitos lados. Mas ao ler o que publicam certos paroquianos iletrados em foruns catolaicos..

A homofobia

A homofobia não é apenas típica de certos meios catolaicos.
Diria que é transversal.
O que é comum em todas estas expressões homofóbicas, além do ódio, é o risível desplante com que se afirmam disparates.

Vão obedecer ao papa ou nem por isso?

At the end of his general audience today, the Pope mentioned his recent decision to revoke the excommunication on "the four bishops ordained without pontifical mandate by Archbishop Marcel Lefebvre in 1988".
"
I have undertaken this act of paternal benevolence because those same bishops have repeatedly expressed to me their profound suffering at the situation in which they found themselves. "I hope that this gesture of mine will be followed by a prompt commitment on their part to take the further steps necessary to achieve full communion with the Church, thus showing true faithfulness to, and true recognition of, the Magisterium and authority of the Pope and of Vatican Council II".

Da verdade

Benedicto XVI adoptó el pasado sábado una decisión que revela el signo que quiere imprimir a su papado y que puede acarrear graves consecuencias para la Iglesia. Deseoso de reconducir el cisma con los católicos ultratradicionalistas, levantó la excomunión que pesaba sobre cuatro obispos consagrados por Marcel Lefebvre en 1988. La voluntad de atraerse a este sector extremista de la Iglesia, opuesto a cualquier renovación litúrgica o entendimiento ecuménico con otros credos, ha pesado más en el ánimo del Papa que el consejo de los cardenales de todo el mundo, reunidos en Roma en 2006 para debatir, precisamente, sobre la reconciliación con los lefebvrianos.(....)

El Papa ha enviado una preocupante señal acerca de la actitud de la jerarquía católica, y es que lo que exige a los demás no rige para ella. No existe mayor relativismo moral que, con el solo propósito de cerrar el cisma, transigir con la extrema derecha y la negación del Holocausto.

Estado de necessidade ou Revisionismo histórico

Factos:
Em novembro-dezembro de 1987 o Cardeal Eduardo Gagnon efetuou uma Visita Apostólica ao Seminário de Ecône, à qual se seguiu um intercâmbio de cartas e documentos entre D. Lefebvre e a Santa Sé.
O ponto alto foi o Protocolo assinado aos 05/05/88 pelo Sr. Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e D. Marcel Lefebvre, abrindo perspectivas de próxima reconciliação. Com efeito; o arcebispo declarou então, entre outras coisas:
1) fidelidade à Igreja Católica e ao Pontífice Romano; 2) aceitar a doutrina da Igreja relativa ao magistério eclesiástico e à adesão que lhe é devida; 3) reconhecer a validade da Missa e dos sacramentos celebrados com a intenção requerida e segundo os textos oficiais da renovação litúrgica pós-conciliar; 4) prometer respeitar a disciplina comum da Igreja, especialmente as leis contidas no Código de Direito Canônico de 1983, salvaguardando a disciplina especial concedida à Fraternidade São Pio X por lei particular; 5) empenhar-se numa atitude de estudo com a Sé Apostólica, evitando toda polêmica, a propósito dos pontos da renovação conciliar que lhe pareciam dificilmente conciliáveis com a Tradição.
Mais: o mesmo protocolo previa, além da reconciliação canônica, os seguintes tópicos:
1) A Fraternidade São Pio X eria Sociedade de Vida Apostólica de direito pontifício com estatutos apropriados e dotada de certa isenção relativa ao culto público, à cura das almas e às atividades apostólicas;
2) a concessão, à Fraternidade, de servir-se dos livros litúrgicos em uso até a reforma pós-conciliar;
3) a nomeação de uma Comissão, integrada por dois membros da Fraternidade, destinada a resolver eventuais problemas no relacionamento entre a Fraternidade e a Santa Sé;
4) a eventual nomeação de um Bispo escolhido entre os membros da Fraternidade. A oferta era mais que generosa e a conciliação aprecia inevitável.
Não havia portanto nenhum estado de necessidade, visto que o Vaticano estava aberto à conciliação e as conversações estavam a decorrer normalmente, tendo-se mesmo chegado a um acordo entre partes.
Eis, porém, que logo no dia seguinte (06/05/88) D. Lefebvre escrevia ao Cardeal Ratzinger uma carta-retratação, na qual insistia em ordenar um Bispo aos 30/06, com ou sem a autorização da Santa Sé. Tal atitude do arcebispo, contrária ao protocolo assinado na véspera, não foi aceite pela Santa Sé. Em conseqüência, D. Marcel Lefebvre, aos 02/06/88, escreveu uma carta ao S. Padre declarando sua decisão incondicional de desobedecer à Santa Sé ou de romper com a autoridade da Igreja Católica.
Trata-se portanto de uma atitude cismática consciente e não um impulso ditado por qualquer estado de necessidade subjectiva. D. Lefebvre ordenou quatro Bispos aos 30/06/88 sem a permissão de Roma. Este delito, conforme o Direito Canônico, acarreta imediatamente (sem necessidade de processo e sentença especial) a excomunhão tanto para o bispo ordenante como para os bispos ordenados.
Excomunhão esta que foi plenamente válida e produziu todos os efeitos que lhe estão inerentes.
E, se no caso dos últimos a excomunhão foi levantada pela atitude misericordiosa de bento XVI
para Lefebvre ela foi definitiva e foi na situação de validamente excomungado e definitivamente cismático que morreu.
Claro que para certos grupos, o revisionismo histórico e o negacionaismo é moda...

Cismáticos

São cismáticos.
Querem manter -se fora da comunhão com roma.
De nada lhe valem os tercinhos.

Nazismo católico

Willianson nega o Holocausto. Sempre com um já observado sorriso debochado nos lábios afirma que nunca existiram câmaras de gás nos campos de concentração nazistas. Para rematar, sustenta, pelos estudos que diz ter feito, que não houve o extermínio de 6 milhões de hebreus nos campos nazistas. Ainda, que nunca existiu o Holocausto-Shoá.
Aqui pode-se aceder à entrevista do nazi Willianson. Na Alemanha, os neonazis consideram Williamson como um herói e os blogs nazis como o Deutshe Wehrmacht, entoaram loas ao nazi lefebvriano.Durante a jornada do dia internacional da Memória, o papa Bento XVI foi duramente criticado, depois do caso Williamson ter sido notícia no The New York Times. Muitos historiadores afirmam que a misericórdia precisa ser aceita e isto não ocorre com Willianson, que não abdica das suas infamantes afirmações.
Os vaticanistas falam hoje que o ambiente continua muito pesado dentro da Igreja e fora do Vaticano. Internamente, porque os lefebvrianos continuam a não aceitar o estabelecido pelo Concílio Vaticano II. Externamente porque, sem uma declaração do arcebispo Willianson a reconsiderar as suas afirmações, a ofensa permanece.
(:::) Os jornais europeus de hoje destacam a mensagem que a diplomacia vaticana fez circular, no curso do dia da Memória, para tentar apagar a mancha que tingiu essa data internacional. Trata-se da mensagem de Bernard Fellay, o superior da Fraternidade São Pio X que congrega os lefrebvrianos. Ele pede “perdão” ao papa Bento XVI pelas afirmações “negacionistas” do arcebispo Richad Williamson, feitas à televisão estatal sueca.

Entretanto parece que o nazi Willianson já rastejou a pedir desculpa ao Ratzinger.

Bento XVI não dorme em serviço.

A arte de viver no entretanto

Estamos de facto pouco habituados a esperar, é algo que normalmente nos custa: o tempo “parado” é vivido como tempo “perdido”, que podia aproveitar-se para fazermos outras coisas. E nessa dificuldade acabamos por perder realidades essenciais da vida, pois há frutos que só o tempo gratuitamente vivido e partilhado pode dar: não há amizades profundas quando os tempos de estar juntos são todos medidos, nem amadurecimento sem o tempo necessário para “pensar nas coisas”; não há “desfrutar” sem a capacidade de criar dentro de nós tempo e espaço para a beleza de cada detalhe, e mesmo a obra de arte só pode surgir depois de lhe ter sido dado tempo gratuito, até que o “parto criativo” aconteça. Este é afinal mais um dos paradoxos da existência: toda a espera de algo futuro, se for bem vivida, é para o presente que nos remete. E é exactamente esta dificuldade de viver na atitude presente que uma “espera activa” implica, que acaba tantas vezes por nos condicionar a vida. Estamos constantemente à procura da “leitura absoluta” de tudo o que nos acontece, questionando sem parar as razões passadas e querendo garantir – às vezes até à angústia – todas as certezas futuras. E esquecemos que no fundo o tempo trabalha a nosso favor: só no final da vida teremos essa leitura global, e perceberemos o que cada acontecimento, positivo ou negativo, nos trouxe, como nos marcou, e a justeza e as consequências de cada uma das nossas respostas. No entretanto, o desafio é o de ir vivendo na confiança, e optando pelo caminho que em cada momento nos parece o certo, que nos dá paz e “sintonia interior” com a Presença que mesmo no Advento já intuímos. E esta “arte de viver no entretanto” (como lhe chama um companheiro jesuíta) é a que nos faz capaz de viver com verdadeira alegria o tempo presente. Porque, se for a ver bem, o que é que verdadeiramente ainda me falta, aqui e agora, para já ser feliz? "

Filipe Martins

Bento XVI deixa claro o que pretende

"O Papa Bento XVI afirmou hoje a sua «solidariedade» com os judeus e condenou a negação do Holocausto, após as declarações de um bispo fundamentalista a negar a existência das câmaras de gás. O Papa Bento XVI afirmou hoje a sua «solidariedade» com os judeus e condenou a negação do Holocausto, após as declarações de um bispo fundamentalista a negar a existência das câmaras de gás. Bento XVI também pediu aos quatro bispos fundamentalistas, aos quais anulou a excomunhão, para reconhecerem «a autoridade do Papa e do Concílio do Vaticano II». Aqui

Mais claro que isto.....

Weber dixit

O livro é velhinho, mas está lá tudo. É bom reler Max WEBER - The sociology of religion.

O que diz o vaticano

"O levantamento da excomunhão que suscitou tantos alarmes não conclui um doloroso caminho como o do cisma lefebvrista. Com este acto o Papa limpa o campo de possíveis pretextos para polêmicas infinitas, entrando assim ao verdadeiro problema: a aceitação plena do magistério, compreendido nele obviamente o Concílio Vaticano II. ".
"... é um exercício retórico, se é que não ofensivo, pensar que Bento XVI pode vender com perda, inclusive em parte, o Concílio a qualquer um. Como é retórico também o recorrente pedido de alguns com respeito a que o Papa está verdadeiramente convencido do caminho ecumênico e do diálogo com os judeus. Os esforços estratégicos de seu pontificado estão sob os olhos de todos e seus atos pastorais individuais e de magistério procedem claramente na aplicação da estratégia anunciada ao momento de sua eleição"... "o levantamento das excomunhões não é ainda a plena comunhão. O caminho de reconciliação com os tradicionalistas é uma opção colegial da Igreja de Roma e não um gesto repentino e improvisado de Bento XV...."da aceitação do Concílio se segue necessariamente uma limpa posição sobre o negacionismo. A declaração Nostra aetate, que marca a mais autorizada inflexão católica em suas relações com o judaísmo, deplora os ódios, as perseguições e todas as manifestações do anti-semitismo, dirigidas contra os judeus em qualquer tempo e por qualquer pessoa'. Trata-se de um ensinamento não opinável para um católico". "Os últimos Papas, incluído Bento XVI, explicitaram este ensinamento em dezenas de documentos, gestos e discursos".

"As recentes declarações negacionistas contradizem este ensinamento e são portanto graves e lamentáveis. Dadas a conhecer antes do documento do levantamento da excomunhão, são então –como já escrevemos– inaceitáveis". Aqui.

Bento XVI dixit

"Também eu vivi os tempos do Concílio, estando na Basílica de São Pedro com grande entusiasmo e vendo como se abrem novas portas e parecia realmente o novo Pentecostes, onde a Igreja podia de novo convencer a humanidade, depois do afastamento do mundo da Igreja nos séculos XIX e XX, parecia que se voltavam a encontrar Igreja e mundo e que voltassem a nascer um mundo cristão e uma Igreja do mundo e verdadeiramente aberta ao mundo. Esperámos tanto, mas as coisas na realidade revelaram-se mais difíceis. Contudo permanece a grande herança do Concílio, que abriu um novo caminho, é sempre uma magna charta do caminho da Igreja, muito essencial e fundamental. Mas por que aconteceu assim? Primeiro gostaria de começar talvez com uma observação histórica. Os tempos de um pós-Concílio são quase sempre muito difíceis. Depois do grande Concílio de Niceia que é realmente o fundamento da nossa fé, de facto nós confessamos a fé formulada em Niceia não surgiu uma situação de reconciliação e de unidade como tinha esperado Constantino, promotor desse grande Concílio, mas uma situação realmente caótica de litígios de todos contra todos. (...). Portanto, não é agora, em retrospectiva, uma surpresa tão grande como era no primeiro momento para todos nós digerir o Concílio, esta grande mensagem. Inseri-lo na vida da Igreja, recebê-lo, de modo que se torne vida da Igreja, assimilá-lo nas diversas realidades da Igreja, é um sofrimento, e só no sofrimento se realiza também o crescimento. Crescer é sempre também sofrer, porque é sair de um estado e passar para outro. E no concreto do pós-Concílio devemos constatar que existem duas grandes suspensões históricas. No pós-Concílio, a suspensão de 1968, o início ou a explosão ousaria dizer da grande crise cultural do Ocidente. Tinha terminado a geração do pós-guerra, uma geração que depois de todas as destruições e vendo o horror da guerra, do combater-se e verificando o drama destas grandes ideologias tinham realmente levado as pessoas à voragem da guerra, tinham redescoberto as raízes cristãs da Europa e começado a reconstruir a Europa com estas grandes inspirações. Mas tendo terminado esta geração viram-se também todas as falências, as lacunas desta reconstrução, a grande miséria do mundo e começa assim, explode, a crise da cultura ocidental que pretende mudar radicalmente. (...)

No papel os textos ainda são um pouco antiquados, mas por detrás das palavras escritas está este espírito, esta é a vontade do Concílio, assim devemos fazer. E por outro lado, naturalmente, a reacção: destruir assim a Igreja. A reacção digamos absoluta contra o Concílio, o anti-Concílio e digamos a tímida, humilde busca de realizar o verdadeiro espírito do Concílio. (...). Eis: nestes contextos de duas rupturas culturais, a primeira, a revolução cultural de 1968, a segunda, a queda, poderíamos dizer, no niilismo depois de 1989, a Igreja com humildade, entre as paixões do mundo e a glória do Senhor, empreende o seu caminho. Neste caminho devemos crescer com paciência e agora devemos aprender de modo novo o que significa renunciar ao triunfalismo.

(,,,)Parece-me muito importante o facto de agora podermos ver com olhos abertos o que também cresceu de positivo no pós-Concílio: na renovação da liturgia, nos Sínodos, Sínodos romanos, Sínodos universais, Sínodos diocesanos, nas estruturas paroquiais, na colaboração, na nova responsabilidade dos leigos, na grande co-responsabilidade intercultural e inter-continental, numa nova experiência da catolicidade da Igreja, da unanimidade que cresce em humildade e contudo é a verdadeira esperança do mundo.

E assim devemos, parece-me, redescobrir a grande herança do Concílio que não é um espírito reconstruído por detrás de textos, mas são precisamente os grandes textos conciliares relidos agora com as experiências que fizemos e que deram fruto em tantos movimentos, tantas novas comunidades religiosas. .Cresce também hoje a presença do Crucificado ressuscitado, que tem e conserva as suas feridas; é ferido, mas precisamente assim renova o mundo, dá o seu sopro que renova também a Igreja apesar de toda a nossa pobreza. E diria, neste conjunto de humildade da Cruz e de alegria do Senhor ressuscitado, que no Concílio nos deu uma grande indicação de caminho, podemos ir em frente jubilosamente e cheios de esperança.” (Encontro do Papa Bento XVI com o clero das Dioceses de Belluno-Feltre e Treviso, Igreja Santa Justina Mártir Auronzo di Cadore, 24 de Julho de 2007)

Sinais

Sua Santidade Bento XVI - paternamente sensível ao desconforto espiritual manifestado por pelos interessados por causa da sanção de excomunhão, e confiando no compromisso expresso por eles na citada carta de não poupar esforço algum para aprofundar as questões ainda abertas em necessárias conversações com as Autoridades da Santa Sé, e poder assim chegar rapidamente a uma plena e satisfatória solução do problema existente em princípio, decidiu reconsiderar a situação canônica dos Bispos Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta, relativa a sua sagração episcopal.
[...]
Conforme as faculdades que me foram expressamente concedidas pelo Santo Padre, Bento XVI, em virtude do presente Decreto, revogo dos Bispos Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfons de Galarreta a censura de excomunhão latae sententiae declarada por esta Congregação em 1 de julho de 1988 e declaro privado de efeitos jurídicos a partir do dia de hoje o Decreto então publicado. "

Conclusões;
1- Lefevbvre foi validamente excomungado e assim morreu.
2 - Não se trata da declaração de nulidade de uma sentença de excomunhão , se assim fosse não teria efeitos ex-nunc.
3 - A SSPX ainda não tem a aprovação do Papa ou de um bispo diocesano. É ainda um grupo separado da Igreja.

sábado, janeiro 24, 2009

Morrer de olhos abertos


È outro livro de Hennezel com que acabei o dia.
É mais um livro absolutamente extraordinário e comovedor sobre a arte de morrer.
Quando se fala tanto da questão da eutanásia e do direito de nos apropriarmos da nossa própria morte, há vozes que pensam que isso é plenamente possível sem o suicídio assistido.
Para morrer de olhos abtertos, há que viver de olhos abertos.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Análise política

Gosto do irmão lúcia.

Os catolaicos

Há um ambiente subliminar de guerrilha religiosa contra tudo o que é laico, democrático, transparente e livre. Há uma guerrilha latente contra a Ciência e o conhecimnto, contra a arte, contra a inovação tecnológica, contra o saber.
Não é o Islão que me assusta. São os seguidores do Rabi, que, se tivessem novamente poder ( que perderam felizmente para a humanidade, mas perderam muito a contragosto e à custa do sangue dos outros), voltavam a abrir os cárceres da inquisição ou mesmo os modernos campos de concentração onde enfiavam os relapsos, os homossexuais, os ateus, os recasados, os cientistas, as mulheres em geral...

Puta que os pariu a todos.
( Prometo não me intoxicar mais com gente dessa.)

quinta-feira, janeiro 22, 2009

A educação é perigosa

Enquanto alguns Trads discutem a proibição da educação das mulheres, parece que o bispo católico de Lancaster, Patrick O'Donoghue, atribui à educação superior grande parte dos males de que a sua igreja padece: as pessoas que frequentaram o ensino superior andam por aí a «espalhar o cepticismo» em vez de seguir à risca os mandamentos católicos- são pessoas egoístas, hedonistas e egocêntricas. que valorizam o hedonismo.
A educação, acrescenta, tem um «lado negro»: semeia a dúvida.
Pensei que era esse o objectivo da educação. Levar as pessoas a pensar e a reflectir:
No fundo trata-se de mais uma manifestação de um fenómeno recente - a religião contra a ciência e o conhecimento científico.
Uma espécie de fruto proibido, a origem do mal e do pecado.

Esperança

- Vem sentar-te aqui rapaz. Hoje tens de ver televisão. É um dia tão histórico como quando fomos à lua.
Foi assim que os pais falaram aos filhos. Em muitas casas de todas as cores.

Rad Trad

Alguns tradicio nalistas religiosos acham que as mulheres não devem estudar.
E agem em função desse valor.

domingo, janeiro 18, 2009

Puta na cama, senhora no salão

É estranho (ou não..) que numa altura em que a emancipação feminina parece um dado adquirido os discursos e estereótipos dominantes sobre a condição feminina se vão repetindo numa espécie de deja vu.
Começa a ser considerado "natural" que a sexualidade feminina ao serviço do macho inclua práticas sexuais consideradas obrigatórias, como a utilização de acessórios mecânicos, gels estimulantes, manobras várias, uma mecanização do sexo reduzido ao utilitarismo biológico no seu extremo. Os livros de sexualidade-para-o-povo e mesmo as revistas femininas com as suas indicações explícitas de práticas de técnicas sexuais mais ou menos exóticas alinham no mesmo diapasão.
Assentam menos na busca do prazer a sexualidade feminina, ou da aflição pelo big O, mas pela ideia subliminar de que uma mulher tudo deve fazer para seduzir ( e manter seduzido) o seu homem, e isso inclui submeter-se a todas as fantasias mais ou menos pornográficas que habitam nasmentes obscuras de todos os machos, mesmo os mais pietistas.
Até as recatadas mães de bragança, fazem workshops sobre dildos ,vibradores e sexo anal, com a mesma devoção com que organizam excursões a fátima e fizeram abaixo-assinados contra putas profissionais. "Ao que tudo indica e segundo o relatos das assessoras que promovem as reuniões na região, a esposas e companheiras dos homens que em tempos procuravam os bares de alterne para desfrutarem da companhia de brasileiras, optaram por fazerem uma auto-avaliação e renovarem a forma de pensar e estar na intimidade com os parceiros". Ou seja, mal por mal preferem ser elas a prostituir-se alegremente e agarrar os seus homens, pelo pénis, já que pelo estômago é uma ideia antiga.
Os preços variam entre os três e os 54 euros. Dos acessórios, não das actividades das mulheres.
Fico na dúvida se as criaturas conseguem bons orgasmos. Ou se seentem verdaeiramente amadas pelos seus homens.
Rezemos para que sim. Ao menos isso.

sábado, janeiro 17, 2009

Pro-choice sempre!

Leio na capa de uma revista enquanto pago na caixa do supermercado que Fernanda Serrano está grávida. È uma notícia muito triste, porque no caso dela, uma gravidez nestas circunstâncias é quase uma condenação à morte.
Mas se ela decidir ter este filho, merece todo o apoio.
Afinal eu defendo que qualquer mulher deve ter a liberdade absoluta para escolher a evolução da gravidez e para dispor sobre o seu corpo e a sua vida (ou a sua morte, quando uma gravidez é sinónimo dela.)
Desde que escolha livremente.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Post à maneira antiga

Face a deus e de cu para o povo, assim gostam os rad trads.

Tanta fixação com a visão dos traseiro dos outros deve ter uma explicação.

Não serão um bocadinho pederastas nem nada??

Fia-te na virgem....

"Outra notícia do dia tem a ver com a recomendação emanada do Vaticano sobre a proliferação de aparições da Virgem Maria em países como a Roménia, a Itália, o Equador, Chile, México e Espanha.Um voto de silêncio é pedido a todos quanto julgam ter assistido a essas ocorrências até que equipas de« psicólogos, teólogos, padres e exorcistas» possam fazer o seu trabalho junto dos videntes. Evidentemente que essa disposição não tem efeitos retroactivos." Aqui

De facto, segundo indicações precisas de Bento XVI ( que não é propriamente um aficcionado de aparições ),

" o autor da denúncia da hipotética aparição também deverá submeter-se a visitas de psiquiatras e psicólogos ateus e católicos. O objectivo é atestar a saúde mental e descartar a ocorrência de delírios ou doenças de carácter histérico. "

Parece-me bem.

Isto sim é um milagre

"Captain Chesley B. "Sully" Sullenberger, III is a former U.S. Air Force fighter pilot with over 40 years of flying experience. His site says he's also served as an instructor and Air Line Pilots Association safety chairman, accident investigator and national technical committee member. Sullenberger and his crew made a successful emergency water-landing Thursday mere minutes into a U.S. Airways flight from New York to Charlotte when, according to the Associated Press, the plane's engines were apparently disabled after colliding with a flock of birds. All 155 people on board survived"
Em algumas áreas de expertise há duas qualidades fundamentais:
- um know -how quase automático, fruto de algo fundamental chamado experiência repetida e acumulada fruto de treino e de um saber fazer que se torna epidérmico ( no sentido de quase não pensado), típica de peritos em áreas especializadas ou artesãos:
- uma capacidade em manter a serenidade em situações extremas.
Tanto num caso como noutro, os mais velhos aprecem ganhar aos mais jovens.

Seitas abjectas

Policarpo tem toda a razão.

quinta-feira, janeiro 15, 2009




dos dias

comi cerejas ao pequeno almoço como um pecadilho depois de uma noite de plácidos luares, acabei o dia a rir à gargalhada com uma BD do garfield, terminei mais dois artigos para publicar, dei aulas, sequei longuíssimos cabelos, passei parte da tarde entre velhos e adolescentes, andei uma higiénica hora num centro comercial a ver montras , quinquilharias e a escolher perfumes que não chego a comprar nunca, levei as miúdas ao volei, senti uma vaga nostalgia que é coisa que habita sempre todos os poetas ao entardecer, fui buscá-las ao treino, vesti um soutien novo vermelho lindíssimo que me deu ideias deliciosas, lavei a louça do almoço, sem luvas, falei de um novo projecto aprovado, dei e recebi muitos beijos e abraços, quando cheguei a casa ele tinha feito o jantar, a mesa posta, soube-me bem a sopa, tão vagarosa, deitei-me no quarto com o computador ao colo e agora acaba tudo que está na hora dos miminhos.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Políticas natalistas

Pela primeira vez, desde há cinco anos, a natalidade em Portugal aumentou significativamente
O que parece significar que:
1- As políticas económicas e sociais de incentivo à natalidade têm efeitos positivos, mesmo em período de escassez económica. De notar que estas políticas de apoio económico foram muitíssimo contestadas por associações e partidos pretensamente "próvida".
2 - A lei de despenalização da IVG até às 10 semanas ( uma lei justa e equilibrada ) não teve qualquer impacto negativo nas taxas de natalidade, ao contrário das previsões demagógicas e machistas de tantos.
3 - No rejuvenescimento da população e equilíbrio demográfico, em Portugal como nputros países europeus, as populações imigrantes têm um peso positivo que deve ser valorizado. Mais um factor de apoio à imigração.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Nada


O amor é relação

"Um facto salta à vista (pelo menos à minha): quem não tem filhos, mais facilmente culpabiliza os pais adoptivos, subestimando o valor afectivo que Esmeralda terá para eles e vice-versa. Já quem os tem, tende a opor-se às pretensões do pai biológico, que afinal renegou a miúda quando nasceu e só começou a lutar por ela um ou dois anos depois quando foi obrigado a reconhecê-la - e já num enquadramento mediático em que se torna difícil descortinar a verdade. A razão para uma ou outra escolha parece-me óbvia: quem tem filhos sabe que é depois de estes nascerem que os laços se aprofundam no sentido da natural devoção incondicional; antes disso, vive-se apenas uma espécie de ficção encantadora. É nas vigílias nocturnas, nos banhos, na primeira papa, no limpar dos ranhos, dos rabos, dos vomitados; é no levantar cedo para a escola, nas reuniões de pais e nas idas ao pediatra, que o amor se aprofunda e constrói, um bocadinho mais todos os dias. É por sabermos na primeira pessoa que o amor pelos nossos filhos - e o deles por nós, - cresce nos pequenos prazeres e sacrifícios que tendemos a simpatizar com o sargento e com a sua mulher e a termos a certeza de que a miúda é feliz com eles e de que será uma maldade muito grande separá-los. Objectivamente, é fácil perceber porque é que Esmeralda, que há poucas semanas teve de ser arrancada do carro aos gritos para ser entregue ao pai biológico, se mostra aparentemente satisfeita por estar com ele. Pensará porventura que está numa espécie de férias, num interregno divertido com um homem que a leva a comer gelados, à feira e ao cinema. Aposto que ninguém lhe disse ainda que não mais voltará para os pais que sempre conheceu nem que a sua vida mudou para sempre. Por agora a sua vida é festa, brinquedos novos e feira. Por outro lado, é fácil questionar as motivações do pai verdadeiro. O resto do post pode ser lido aqui e é a melhor síntese sobre o assunto que já li em toda a blogosfera.

domingo, janeiro 11, 2009





Cadáveres de crianças e propaganda de guerra

"Confirma-se que mais uma vez uma cadeia de televisão europeia, a France 2, transmitiu imagens falsas numa reportagem que dedicou ao ataque israelita a Gaza. Crianças mortas e uma casa destruída ilustravam os efeitos dramáticos entre os civis palestinianos dos bombardeamentos efectuados pelo exército de Israel.Poucas horas após a emissão da reportagem concluía-se que destas imagens apenas os cadáveres e o prédio destruído não foram ficcionados. Aquelas pessoas morreram mas não morreram a 5 de Janeiro de 2009, como afirma o jornalista da France 2, mas sim a 23 de Setembro de 2005. Também não morreram na sequência dum ataque israelita mas sim no resultado da explosão acidental dum camião que transportava rockets do Hamas dentro do campo de refugiados de Jabalya" Aqui.

Pobre esmeralda.

Se querem mesmo conhcer a verdadeira natureza do que se debate e a personalidade dos envolvidos ( tipo claque de futebol), passem por este blogue. Ah, e podem dar dinheiro e tudo.
Amor pela menina é que não se lê por lá.

Discussões

Entretanto a discussão continua:
"Não conheço o processo todo, mas dele conheço um primeiro acórdão e o sentido das decisões em geral. Ora então, deve, pois, prevalecer a verdade do sangue, que nem de sangue será porque a senhora que deu à luz a criança tem outra posição e ninguém quer nem quis saber qual é. A senhora que deu à luz a criança não é figura mediática, não tem dinheiro, nem está em posição de o obter como parece ser a posição do indivíduo com quem terá tido uma relação fortuita e que não assumiu nenhuma responsabilidade por isso.
Então é assim, uma mulher engravida e durante os nove meses de gravidez fica entregue à sua sorte, ela e o feto, porque é estrangeira e consentiu numa relação sexual fortuita. E qual é o papel do outro interveniente? O santo, o mártir? Se a mulher fica sozinha e entrega a criança a quem dela possa cuidar, o que há de repreensível nisso, seus moralistas de meia tijela? E as pessoas que aceitam essa criança, se afeiçoam a ela que mal é que fizeram? Digam lá seus moralistas. Se foram mal aconselhados juridicamente e mal assistidos pelos técnicos que deviam ter tomado conta do caso, a responsabilidade não foi deles. Ponham-se no lugar dessas pessoas, também. Tentem. Entregavam a criança assim a alguém que se dz pai e deixou aquela que a trazia na barriga, sem lhe dar qualquer apoio para a subsistência e sem a ajudar? Até há muito pouco tempo isso também era crime - abandonar mulher que se tinha engravidado sem lhe prestar assistência.
Todos passam a vilões, menos aquele que deu causa a toda esta confusão. Se não vejamos: se a mulher grávida lhe dá conhecimento disso, dá à criança o nome da mãe dele para que ele a apoie e ele aguarda que os testes de ADN lhe deem a certeza. Espera mais do que o tempo que teria sido necessário para uma criança passar fome e não ver satisfeitas as suas necessidades elementares, podendo morrer.
Ele não arrisca nada. A mulher grávida arriscou levar até ao fim a gravidez. O casal do sargento e da mulher arriscaram dar o seu afecto e entregar a sua vida a uma criança. E o homem que não arrisca, tem agora os defensores do sangue do seu lado. Qual sangue qual carapuça, se não tivessem tido os cuidados para com a criança e se tivessem decidido a tê-los, quando o dito pai biológico aguardava o resultado dos teste de ADN, ela tinha morrido. Não é por acaso que há mais de 12000 crianças institucionalizadas em Portugal. É o resultado das teorias da voz do sangue. O sangue que não quer saber delas e os outros que não podem arriscar entregar a sua vida e os seus afectos a uma criança que lhes será tirada quando o sangue se apresentar. Com que então o Dr. Vilas Boas já não a figura repeitável que sempre foi, porque vê as coisas doutra maneira?! Perdeu respeitabilidade quando? Quando criou o Refúgio Aboim Ascensão? Ou segundo os moralistas o Refúgio e as outras instituições servem só para depositar crianças até que o sangue as reclame? Era, segundo vós e o vosso moralismo devia ter acontecido àquela criança até que o santo, o mártir se decidisse, para não morrer de fome ou não ser deixada numa casa de banho pública como vem acontecendo. Já pensaram quantas das crianças que aparecem nas casas de banho e nos contentores do lixo são filhos dos "pais" mártires que esperaram pelos resultados do exame de ADN? São todos santos ou são tosdos parvos? de Jurista "
Comentários retirados aqui
10.Janeiro.2009
... : MB
Uma lamentável decisão de um órgão que devia, acima de tudo, defender a criança. "Refere-se na notícia que os responsáveis do Departamento de Pedo-Psiquiatria do Hospital de Santarém, se recusaram a avaliação de Baltazar Nunes. ... Julgo que esta recusa terá a ver com o facto de o sr em causa ter insultado os profissionais desse serviço público através de carta (pelo menos). A carta que estava transcrita no blog de apoio a esse sr, era de carácter insultuoso, sendo os insultos repetidamente referidos ao longo do blog. Ao que parece, os profissionais não tiveram medo desses insultos e mantiveram os relatórios clínicos que tinham feito sobre a criança. No exercício da sua actividade profissional o médico tem protocolos seguir e não pode ser o doente ou seu acompanhante a impôr o quê e como o médico deve perguntar, receitar e o que deve escrever no relatório. Se assim fosse, os médicos não eram precisos. Não deixa de ser estranho que uma equipa de pedopsiquiatras do melhor que há no país tenha feito relatórios a que o tribunal não ligou, tendo mudado de médicos. O segundo serviço público contratado elaborou relatórios no mesmo sentido e o tribunal continuou a não ligar e mudou de médicos. Agora entrará outra médica e assim sucessivamente até aparecer algum que faça o relatório que convém a uma das partes e, principalmente à juiza. Em último caso, terão de recorrer a um clínico privado... Entretanto esta criança vai engrossar a lista dos futuros "problemáticos" que darão trabalho a outros serviços públicos. "

Dura lex sed lex - o caso esmeralda ou a pena de morte aplicada a crianças

O aparente desfecho do caso esmeralda é uma das maiores vergonhas e fonte descredibilização do sistema jurídico em geral e da magistratura em particular em Portugal. Porquê?
Pela profunda injustiça cometida, pelo crime contra o bem-estar da criança, perpetrado em nome de valores estritamente legais e sem ter em conta o interesse objectivo da menor que esses preceitos legais visam, em última ratio, acautelar.
Independentemente do processo não ter sido conduzido da forma legalmemte mais correcta pelos pais adoptivos, retirar uma criança de sete anos, no natal, do seio da única família que conhece desde os três meses e entregá-la em definitivo a um "conhecido" com quem contactou meia dúzia de vezes, não é apenas uma crueldade inútil - é condenar esta criança à morte.
Privada de figuras parentais, privada da mãe, privada do nome, privada da escola e dos colegas ( o pai biológico já fez saber que a vai mudar de escola), privada dos avós e restante família, privada da sua identidade, privada da sua casa, dos seus brinquedos e do seu espaço vital, privada da oportunidade de um futuro - o que resta a esta criança?

A ciència dá respostas

Uma excelente notícia - o nascimento de uma criança sem uma mutação genética que conduziria a uma forma letal de cancro da mama através de um diagnáostico pré implantatório e um processo de selecção de embriões. A técnica levanta questões éticas delicadas.

No frio

Mulheres no polo. estão no alvo de uma interessante discussão de carácter machista.

Classicamente as missões de pesquisa científica em situações de isolamento tem sido feita por equipas masculinas - ou seja basicamente por homens.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Percursos

Quando estamos mais cansados, com vontade mesmo de desistir, recebemos mais um sinal.

A certeza de que os nossos passos não estão sós, que o que nos habita é luminoso, que tocamos tanta gente com o nosso amor. Não devia duvidar tanto. Sempre que duvido há um sopro.

Nada de extraordinário - vozes e presenças de pessoas concretas. Hoje, mais uma vez, numa reunião à tarde, na faculdade.

Teresa de Calcutá foi a minha revelação no ano que passou. Não por ser um ícone religioso fabricado, com ideias retrógradas, mas por ser uma mulher descrente e solitária, por duvidar profundamente e mesmo assim buscar. E, no meio da dúvida e até da descrença mais absoluta, continuar a fazer o bem, porque não há alternativa.

Que outra coisa podemos fazer a não ser o bem?

Que outra divindade nos resta se não amar a humanidade com toda a nossa paixão?

Migrações

"Le déclin démographique est un puissant facteur de prise de conscience pour les nations développées : elles ont à la fois besoin de remplacer leur population vieillissante et de développer des emplois répondant à ce vieillissement. D'où la concurrence à laquelle se livrent les pays développés pour attirer les migrants très qualifiés. Mais dans le même temps, ils persistent dans l'idée qu'il faut fermer les frontières aux autres, alors même que leurs besoins en main-d'oeuvre peu qualifiée sont aussi, si ce n'est plus, importants. Des pénuries de main-d'oeuvre existent partout dans le bâtiment, l'agriculture, les services à la personne. L'Europe illustre bien ces contradictions : elle cherche à la fois à maintenir ses frontières fermées aux uns et à les entrouvrir aux autres, le tout sous le contrôle d'une opinion publique utilisée comme arbitre du maintien de mesures répressives." Catherine Wihtol de Wenden em entrevista no Le Monde

Texto a saber a baunilha

"Faz-se manhã. A luz é de uma consistência e de uma doçura de baunilha. Um rosto bonito com mulher por baixo leva-se café à boca. Aqui dentro está-se bem. Da padaria chega ao salão o bafo dormente dos fornos a lenha. Surge uma criança encarnada com uma chave vermelha na mãozita. Lá fora, os cedros fumegam geada, esculpidos pelo sol de inverno. A formosura toca as coisas por dentro. A terça-feira ergue e estende a tenda colectiva: córregos, azinhagas, vertentes, pedreiras, taludes, eiras, jeiras, laranjeiras, capelas como dedadas de cal nos vidros que ladrilham os longes. Sinto a quietação dos prenúncios: toda a paciência e nenhum exorcismo. "

do Daniel

Reis Magos

"Já é sabido: em lugar algum nos diz a Palavra que os Magos eram Reis (muito menos nos dá nomes deles e quantos seriam). Eram astrónomos e estrangeiros de leste, duas condições que nunca abriram portas a ninguém.Herodes e toda a Jerusalém ficaram irritadíssimos por receberem lições sobre as suas profecias daqueles estranhos. Simularam interesse no assunto e pediram aos teo-cientistas (uma respeitável profissão que o Iluminismo destruiu) que assim que encontrassem o menino lhes viessem dar conta. Valeu que o Espírito Santo em sonhos lhes instruísse que tomassem outro caminho de regresso. Tivessem os Magos sido abandonados às suas boas intenções e teriam colocado o ouro (e o incenso e a mirra) nas mãos dos bandidos.O exemplo destes homens do Oriente persiste: muito estudo, muito trabalho e no fim adoração ao Deus verdadeiro." do Tiago Oliveira Cavaco

Guerra

Não há guerras santas, não há guerras boas, não há guerras cirúrgicas.
Mas, no saldo da crueldade da guerra, a responsabilidade do Hamas é infinitamente maior. Se há que escolher um lado, sejamos claros - quem ataca um exército convencional a partir de uma escola, usando como escudos humanos crianças e civis sabe que está aprovocar uma carnificina conscientemente.

terça-feira, janeiro 06, 2009

Estatuto jurídico da mulher no Estado Novo

A Constituição de 1933, ao afirmar a igualdade dos cidadãos perante a lei , no art.º 5º, abre uma excepção para as mulheres "pelas diferenças que resultam da sua natureza e do bem da família"
- As regras estabelecidas colocam a mulher na dependência do homem, pai ou marido.
- A mulher deve assegurar o futuro da raça no lar.
- A
instrução é um perigo e por isso suprime-se a coeducação, e a orientação do ensino primário, no concernente às raparigas, deve ter em conta a economia doméstica e os cursos de costura.
- O trabalho realizado pelo homem, mesmo que seja penoso, é sempre uma alegria, e existe a melhor harmonia entre dirigentes e dirigidos. A mulher só é feliz se estiver à guarda do homem.
- No interior do lar o homem detém a autoridade e a mulher deve receá-lo, servi-lo e obedecer-lhe.
O Código Civil de 1939:

- Concede ao marido o poder de obrigar a mulher a regressar ao domicílio conjugal.
- A mulher não pode ter passaporte nem viajar para o estrangeiro sem a autorização do marido, mesmo que estejam separados.
- Os casados pela Igreja não podem divorciar-se (Concordata com a Santa Sé, 1940).

Educação das mulheres

Em Portugal , o acesso à educação e aos direitos cívicos foi evoluindo a partir de fins do século XIX.


"Garantida a entrada na educação primária e em certas profissões médias, um grupo selecto de mulheres tinha conseguido cumprir as exigências prévias à entrada nas universidades. Permaneceriam estas fechadas?. Tomemos o caso paradigmático das relações de Concepción Arenal com a universidade espanhola. Esta que é, sem lugar a dúvidas, uma das nossas melhores juristas, solicitou a sua entrada no curso de direito avalada pelo seu talento excepcional e por uma família de académicos e reitores que confiava nela. Tais eram as disposições e pressões, que se decidiu admiti-la. No entanto as características que teve esta admissão dizem muito sobre as barreiras que se opunham à formação universitária das mulheres. Concepción Arenal foi admitida como ouvinte em leis desde que a sua presença nos claustros universitários não resultasse indecente. Na prática, isto traduziu-se na obrigação de ir às aulas vestida de homem. "

A educação das mulheres

Num primeiro momento algumas mulheres asseguraram o ensino primário regulado. A razão aduzida para obtê-lo foi conforme ao cânon doméstico: para cumprir adequadamente as funções de esposa e mãe, os conhecimentos de ler, escrever e contar pareciam necessários. Tal petição, tão conforme à submissão doméstica, não podia ser rejeitada, de maneira que, ao abrigo desta feminina disposição, foram criadas escolas primárias para as meninas. Um pouco mais tarde, alguns grupos de mulheres exigiram a sua entrada nos tramos médios do ensino. A razão aduzida também se protegeu com o respeito pelo modelo vigente: podia dar-se o caso de que algumas mulheres, conhecendo que sem dúvida o seu destino era o matrimónio e a maternidade, por circunstâncias adversas de fortuna não pudessem cumpri-lo.
Para garantir a sua virtude e a boa ordem, apresentou-se o pedido de escolas de preceptoras em primeiro lugar e de enfermeiras depois, e de novo teve que ser aceite. Foram as primeiras que se abriram e permitiram uma existência relativamente livre às mulheres das classes médias.

O direito das mulheres à educação

1848 foi um ano de agitação e manifestos. É Em 1848, setenta mulheres e trinta homens de diversos movimentos e associações políticas de talante liberal, reuniram-se no Hall de Seneca e assinaram o que designaram com o nome de "Declaração de Sentimentos".
O modelo de declaração de Seneca era a declaração de Independência. A declaração consta de doze decisões e inclui dois grandes artigos: de um lado as exigências para alcançar a cidadania civil para as mulheres e do outro os princípios que devem modificar os costumes e a moral. O grupo que se tinha reunido em Seneca provinha fundamentalmente dos círculos abolicionistas. Homens e mulheres que tinham empenhado as suas vidas na abolição da escravatura chegaram à conclusão de que entre esta e a situação das mulheres, aparentemente livres, havia mais de um paralelismo. Desde postulados iusnaturalistas e lockeanos, acompanhados pela ideia de que os seres humanos nascem livres e iguais, afirmam:
"decidimos que todas as leis que impeçam que a mulher ocupe na sociedade a posição que a sua consciência lhe dite, ou que a situem numa posição inferior à do homem, são contrárias ao grande preceito da natureza e, portanto, não têm força e autoridade".
O grande preceito da natureza que invocam é o resumo de igualdade, liberdade e perseguição da própria felicidade. Era o mesmo que se invocara contra a manutenção do tráfico, venda e posse de escravos. E. Cady e L. Mott que de facto comandaram a declaração de Seneca formavam a ponta de lança do que chegou a conhecer-se como movimento sufragista. As que mais tarde seriam editoras e compiladoras de um texto clássico do sufragismo, a Bíblia da Mulher, iniciaram as suas lides públicas nesta Declaração.
O sufragismo foi um movimento de agitação internacional, presente em todas as sociedades industriais, que assumiu dois objectivos concretos, o direito ao voto e os
os direitos educativos caminharam a par apoiando-se mutuamente.

Iluminismo RAD TRAD

"É interessante como no ridículo debate sobre a educação das mulheres, um tema tão caro ao pensamento iluminista, os misóginos neocons se aproximam inteiramente das ideias da modernidade:
"Devem parecer-se tão pouco um homem e uma mulher perfeitos no entendimento como no rosto. Um deve ser activo e forte, o outro passivo e débil. É indispensável que um queira e possa e é suficiente que o outro oponha pouca resistência. Estabelecido este princípio, deduz-se que o destino especial da mulher consiste em agradar ao homem. O mérito do homem consiste no seu poder, e só por ser forte agrada". Rousseau

"Por muitas razões que vêm da natureza da coisa, o pai deve mandar na família. Primeiramente, a autoridade não deve ser igual entre o pai e a mãe; é preciso que o governo resida num e que, nas divisões de opinião, haja uma voz preponderante que decida. Por ligeiras que se queiram supor as incomodidades particulares da mulher, como são para ela sempre um intervalo de inacção, são razão suficiente para excluí-la desta primazia: porque quando a balança é perfeitamente igual, uma palha basta para fazê-la oscilar. Além disso, o marido deve ter inspecção sobre a conduta da sua mulher porque lhe importa assegurar-se de que os filhos que está obrigado a reconhecer e alimentar não pertencem a outro. A mulher, que não tem nada parecido que temer, não tem o mesmo direito sobre o marido" . Rousseau

È justamente com a modernidade que se estrutura um certo tipo de conceito de feminino : um novo modelo de feminilidade também tem a sua origem em Rousseau. Na nova Eloísa e no Emílio forja-se um molde de mulher que traz consigo "sensibilidade e maternidade". E. Badinter investigou o fabrico deste modelo de mulher-mãe e a conseguinte ab-rogação das práticas anteriores: criação mercenária, amas de leite e hospícios. Cada indivíduo homem é concebido como um virtual pater famílias cuja alta finalidade é, em paridade com os outros, conformar a vontade geral que é o estado. Cada mulher deve existir e ser formada para esposa. A eles corresponde o âmbito público, a elas o privado. "Com independência dos dotes e capacidades particulares", como Hegel escreveria na sua Filosofia do Direito, cada género tem marcado um destino por nascimento. A complementaridade transforma-se na palavra chave e dela está excluída a justiça simétrica. Não é conveniente nem desejável que os sexos neutralizem as suas características, mas que as exagerem. Isso é garantia de ordem. Não são iguais, mas complementares.. "

Rousseau

Vivam as eleições

Gosto de eleições. De seguntas e até terceiras voltas. Do sabor doce da quase vitória ou da dupla derrota. De ter a certeza absoluta que um voto conta.

Humor católico no seu melhor

Depois de um dia duro, um momento de humor graças aos tolinhos do costume. Sim eu sei que não é politicamente correcto rirmos das ideias dos oligofrénicos, mas ninguém é perfeito. Realmente depois de dizerem disparates destes ou destes, os tontinhos dos católicos conservadores só podem passar os intervalos assim - a rir desalmadamente.Fiquei na dúvida se é esta também a propaganda dos quicos, da comunhão e libertação e do opus dei.

Aposto que nos intervalos de prédicas tão edificantes os "oradores" (LOL) fartaram-se de rir...

A santa evengelização católica das Américas às mãos da catolisíssima espanha

Bartolomé de Las Casas:
“«Entraban los españoles en los poblados y no dejaban niños ni viejos ni mujeres preñadas que no desbarrigaran e hicieran pedazos. Hacían apuestas sobre quién de una cuchillada abría un indio por medio o le cortaban la cabeza de un tajo. Arrancaban las criaturas del pecho de sus madres y las lanzaban contra las piedras. A los hombres les cortaban las manos. A otros los amarraban con paja seca y los quemaban vivos. Y les clavaban una estaca en la boca para que no se oyeran los gritos. Para mantener a los perros amaestrados en matar traían muchos indios en cadenas y los mordían y los destrozaban y tenían carnicería pública de carne humana...Yo soy testigo de todo esto y de otras maneras de crueldad nunca vistas ni oídas".»

Um chefe local Hatuei, que tinha conseguido resistir ao invasor, foi finalmente capturado e queimado vivo:
“"Atado fuertemente a un poste y cuando las llamas comenzaban a chamuscarlo, se le acercó un sacerdote español para hacerlo cristiano antes de morir. Hatuei preguntó si haciéndose cristiano iría al cielo de los cristianos, y como el sacerdote le contestó afirmativamente, le dijo que prefería ir a un infierno antes de volver a ver un cristiano".

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Genocídios católicos e o direito à salvação

"Era o dia 22 de julho de 1209, ou, como os escritores medievais preferiam dizer seguindo o costume do tempo, o dia da festa de Santa Maria Madalena. Um grandioso contingente de cavaleiros armados, vindos do Norte da atual França, da actual Bélgica, da actual Alemanha e da Inglaterra cercou a cidade de Béziers. Falava-se de vinte mil cavaleiros equipados e mais de duzentos .(…) O objectivo das tropas não deixava qualquer margem de dúvida: derrotar oshereges que pululavam nas cidades e fortalezas situadas no Viscondado de Béziers e Carcassonne e no condado de Toulouse. (…) A exigência dos “cavaleiros de Cristo” era uma só: que os moradores de Béziers - a primeira cidade a ser atacada - entregassem os hereges que ali encontravam guarida. O bispo local serviu de intermediário entre os recém-chegados e os habitantes, uma vez que o senhor feudal da localidade, Raimundo Rogério Trencavel, abandonara a localidade ebuscara refúgio na vizinha Carcassonne.
(….) A acção dos sitiantes foi rápida, eficaz e fulminante. Atacadas pelos mercenários que acompanhavam a expedição, e depois pelos próprios cavaleiros cruzados, as muralhas de Béziers não ofereceram protecção por muito tempo. Aos gritos de “ao assalto” e “às armas”, a comunidade foi ocupada. Abandonando suas posições de defesa, os sitiados deixaram as torres e muros, refugiando-se com mulheres e crianças no interior da igreja catedral de Madalena. Fora do recinto os fossos e paliçadas eram transpostos, casas e estabelecimentos eram pilhados e incendiados, toda a população encontrada era passada ao fio da espada. Em pouco tempo, nem mesmo o templo sagrado ofereceu protecção aos refugiados. Como diz um dos testemunhos contemporâneos:
Nada pôde salvá-los, nem cruz, nem altar, nem crucifixo.
Os mercenários mataram clérigos, mulheres e crianças; ninguém escapou.
Se Deus quiser, receberá suas almas no Paraíso!
Não creio ter havido tal massacre desde o tempo dos sarracenos.”
(….) Antes da invasão de Béziers, um dos guerreiros teria perguntado ao legado papal Arnaldo Amauri sobrr como, durante o ataque, distinguir quem era herege e quem não era, tendo recebido a seguinte resposta: “Matem todos, Deus escolherá os seus!”.
A frase calou fundo na memória dos participantes da guerra, tornou-se uma espécie de emblema da intolerância reinante na Idade Média.
"

Guerra

Na propaganda da guerra expoem-se os mortos aos olhares do público.

A popaganda é mais eficaz se os cadáveres forem criancinhas. Quanto mais pequeninas melhor o efeito.

Quem é mais assassino - os que atiraram sobre as crianças ou os que usam a população civil como escudo humano, sabendo que para os atingir terão que passar por cima de corpos de crianças?

Quem assistiu ao escrachado e engraçadíssmo Borat, de Sacha Baron, deve lembrar-se bem da cena em que o protagonista é agarrado por pastores e fiéis em êxtase para fazê-lo "aceitar Jesus", quase na marra. Mas quem pensou tratar-se de uma encenação satírica se enganou redondamente: era um caso de candid camera, o humorista filmou o que realmente acontecia ao seu redor.
O episódio é lembrado por Umberto Eco num artigo para o jornal espanhol El Periódico (29/11/2008). Ironiza o autor de O Nome da Rosa:
"Qualquer uma dessas cerimônias dos fundamentalistas norte-americanos faz com que o rito napolitano da liquefação do sangue de San Genaro pareça uma reunião de estudiosos da Ilustração."

domingo, janeiro 04, 2009

A origem do mundo

A última vez que estive em Paris, numa sala em penumbra deparei-me com a "Origem do Mundo" de Gustave Courbet.
Um quadro belíssimo que desperta veneração e alegria e suscitou clamores de controvérsia.
Belo e sagrado é o corpo das únicas mulheres que podem parir, as que amam, as que são plenamente mulheres.
Essas sim, são a origem do mundo.
O sítio donde todos viemos.
Àmen.


Automutilações religiosas

Regra geral, os comportamentos automutilatórios mais graves ( que incluem rituais bizarros ou mesmo castração) estão relacionados com quadros psicóticos, nomeadamente esquizofenia.
Outras patologias psiquiátricas explicam comportamentos de automutilação especialmente em adolescentes e adultos jovens.
Contextos de religiosidade distorcida ou ganhos secundários significativos com as automutilações podem explicar algumas práticas destas com finalidades religiosas .

São mais fequentes em seitas ou religiões que cultivam o culto do sacrifício físico, as autopunições de pecados e a ideia de que salvação divina tem de se pagar com sofrimento ou tortura.

Automutilação e estigmas

As automutilações religiosas são uma forma de auto-agressão em pessoas com pertubações mentais.
Podem apresentar diversas formas e ser acompanhadas de alterações do estado de consciência.
Outros casos de "estigmatizados" são apenas fraudes grosseiras.

De iuris

Café da manhã com uma colega de curso. Há que dizê-lo - a advocacia anda pelas ruas da amargura. A maior parte dos colegas do nosso curso sobrevive com salários médios e com difícil clientela. Não que o litígio e a conflitualidade social tenham diminuído nos últimos anos, pelo contrário. A crise económica está aí há muito tempo, assim como um global descrédito pela justiça. Por isso as pessoas só recorrem ao serviço dos advogados em última ratio.

Claro que não falo dos escritórios(empresas ) dos tubarões... Mas mesmo aí, dizem-me as fontes, os tempos já foram bem mais áureos...

Acho que fiz boas escolhas.

...

O suicídio sagrado

O suicídio por motivação religiosa foi objecto de análise sociológica sistemática por Durkheim.
Regra geral, todas as religiões totalitárias incentivaram certas formas de suicídio “altruísta” , sobretudo as religiões onde o conceito individualista do valor da vida humana tem pouca importância face à noção de bem comum ou de vida eterna.
É o caso das
correntes mais extremistas do islão ou do catolicismo, com os seus e as suas mártires suicidas.

Os beatinhos

Os beatinhos vomitam baba nas carpetes do hospício.
Deliram fábulas e faunas como quem engravida de um pássaro.
Convictamente para eles é assim a realidade mitológica.
Ficam agitados se alguém questiona delírios estruturados com que teimam em inventar paraísos onde cem virgens os aguardam - suicidários.
Alguns ostentam medalhinhas bentas de proselitismos baptismais, rezas em novelos, efusões marianas, sinais de autoflagelação penitencial depois de se masturbarem.
E as santidades invioláveis de longas novenas.
São de missas longas e discursos pobres.
Freud não lhes basta, preferem Paulo Coelho.
Os beatinhos, regra geral são bastante violentos e tenazmente mal educados.

sábado, janeiro 03, 2009

O fanatismo mata

Morreu o filho de John Travolta aparentemente num acidente trágico. Só que as coisas não são assim tão simples. O adolescente de 16 anos tinha uma doença grave que exigia medicação e acompanhamento médico.
Acontece que Tavolta é um fiel devoto da Cientologia, uma religião, que, entre outras coisas delirantes, afirma que em nenhuma circunstância se devem seguir tratamentos médicos ou psiquiáticos convencionais. ..

VERA TRADIÇÃO

Um dos mais misóginos dos doutores da Igeja Santo Agostinho, defende que uma mulher violada (ainda que virgem e beata) é sempre responsável pela violação, visto que :
Si une chasteté ferme et sûre d’elle-même en sort triomphante, la pudeur en souffre cependant, et on a lieu de craindre qu’un outrage qui ne peut être subi sans quelque plaisir de la chair ne se soit pas consommé sans quelque adhésion de la volonté.”
Ou, no caso duma mulher que se suicida após ser violada:
Mais peut-être n’est-elle pas là ; peut-être s’est elle tuée parce qu’elle se sentait coupable; peut-être (car qui sait, elle exceptée, ce qui se passait en son âme), touchée en secret par la volupté, a-t-elle consenti au crime, et puis, regrettant sa faute, s’est-elle tuée pour l’expier, mais, dans ce cas même, son devoir était, non de se tuer, mais d’offrir à ses faux jeux une pénitence salutaire.”
Ah e quando Deus permite que santas mulheres cristãs sejam violadas, não há problema - por um lado é a vontade divina insondável mas que deve ser aceite sem pensar; por outro, se as mulheres são violadas, a culpa é sempre delas, nem que seja do seu sentimento de orgulho de serem virgens e da sua mania altaneira de afastarem os homens. Portanto, a violação de mulheres piedosas que escolhem a virgindade é plenamente justificada - trata-se de uma provação e de um castigo:
"Vous avez une grande et solide consolation, si votre conscience vous rend ce témoignage que vous n’avez point consenti au péché qui a été permis contre vous. Demanderez-vous pourquoi il a été permis? qu’il vous suffise de savoir que la Providence, qui a créé le monde et qui le gouverne, est profonde en ses conseils; « impénétrables sont « ses jugements et insondables ses voies 1 ». Toutefois descendez au fond de votre conscience, et demandez-vous sincèrement si ces dons de pureté, de continence, de chasteté n’ont pas enflé votre orgueil, si, trop charmées par les louanges des hommes, vous n’avez point envié à quelques-unes de vos compagnes ces mêmes vertus. (....)Ames timides, soyez deux fois consolées; d’un côté, une épreuve, de l’autre, un châtiment; une épreuve qui vous justifie, un châtiment qui vous corrige.

E as poucas desgraçadas que nem sequer tinham um sentimento de orgulho da sua virgindade e mesmo assim são violadas? Bem lá no fundo também elas...

"Quant à celles d’entre vous dont la conscience ne leur reproche pas de s’être enorgueillies de posséder la pureté des vierges, la continence des veuves, la chasteté des épouses, qui, le coeur plein d’humilité 1, se sont réjouies avec crainte de posséder le don de Dieu , sans porter aucune envie à leurs émules en sainteté, qui dédaignant enfin l’estime des hommes, d’autant plus grande pour l’ordinaire que la vertu qui les obtient est plus rare, ont souhaité l’accroissement du nombre des saintes âmes plutôt que sa diminution qui les eût fait paraître davantage; quant à celles-là, qu’elles ne se plaignent pas d’avoir souffert la brutalité des barbares qu’elles n’accusent point Dieu de l’avoir permise, qu’elles ne doutent point de sa providence, qui laisse faire ce que nul ne commet impunément. Il est en effet certains penchants mauvais qui pèsent secrètement sur l’âme, et auxquels la justice de Dieu lâche les rênes à un certain jour pour en réserver la punition au dernier jugement. Or, qui sait si ces saintes femmes, dont la conscience est pure de tout orgueil et qui ont eu à subir dans leur corps la violence des barbares, qui sait si elles ne nourrissaient pas quelque secrète faiblesse, qui pouvait dégénérer en faste ou en superbe, au cas où, dans le désordre universel, cette humiliation leur eût été épargnée? " Santo Agostinho de Hipona - Cidade de Deus- On line em francês aqui

Comentário meu - Tarado de gajo - deveria ter sido alvo de sodomização forçada para testar as suas teorias teológicas sobre o corpo das mulheres.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Racismo

O racismo, tal como o machismo, pode ter várias faces ou manifestar-se com maior ou menor violência. Mas não é pelo facto de aparentar bons pincípios que o racismo se torna mais benévolo...

Como tornar-se doente mental

"Ser histriónico é uma carreira inolvidável, embora mais adaptada a mulheres. Não há nada que mais impressione o imaginário popular, o que a pode colocar no altar dos santos e eleitos. Também não há nada que mais baralhe os médicos, psiquiatras e psicólogos.Tanto que, ainda há pouco tempo, eles teciam risíveis teorias sobreum útero esfomeado que andava à solta dentro do corpo dasmulheres, provocando os mais incríveis sintomas. Daí o nomeantigo (nas ainda actual para muitos entendidos) de histérica!
Se a sua opção for essa, convem que, quando pensar em si, o faça apenas através dos olhos dos outros. Nunca diga «aconteceu-meisto» mas sim «fizeram-me aquilo». Mesmo ao falar das suas doenças nunca diga o que sentiu ou padeceu, mas sim o que os médicosdisseram de si. Dou-lhe este conselho por uma razão muito simples:aconteça o que acontecer, você tem de ser sempre a pessoa mais santa, mais bondosa, mais pacífica, mais cumpridora, mais agradável,mais simpática, embora talvez também a mais ingénua, do mundo.
(...).De certo modo, isto é fazer teatro, e daí o novo nome - histriónica -da carreira em que se inscreveu. Mas, que mal tem? Cada um necessita do seu próprio teatro para ser levado à certa.
IV. Como tornar-se histriónico
Padrão global de emotividade excessiva e procura de atenção, indicado por 5 ou mais dos seguintes:
1. Desconforto em situações em que não é o centro das atenções.
2. Interacção com os outros caracterizada por sedução sexual inapropriada
ou comportamento provocador.
3. Exibe expressões emocionais que mudam rápidamente e se mostram
superficiais.
4. Usa consistentemente a aparência física para atrair as atenções sobre si.
5. Tem um estilo de discurso que impressiona excessivamente mas é
fraco nos detalhes.
6. Mostra auto-dramatização, teatralidade e expressão exagerada das
emoções.
7. Sugestionável, sendo fácilmente influenciado por outros ou por
circunstâncias.
8. Considera os relacionamentos como mais íntimos do que na realidade são.
(...)A coisa não vai ser fácil. Vão ser necessários muito treino e afinco, talvez circunstâncias favorecedoras, e alguns truques que as pessoas aprendem mas que eu lhe vou ensinar. Todo o problema é saber ocultar as memórias e criar automatismos de acção. Se os hipnotizadores conseguem induzí-lo nas outras pessoas, se conseguem mesmo ensinar auto-hipnose (a propósito, não será má ideia ir-se envolvendo em ambientes de hipnose e práticassimilares, incluindo o espiritismo e as margens das diversas religiões onde se exibem milagres), porque é que você não o pode conseguir? Em boa verdade, se seguiu a carreira da personalidade histriónica, já está meio preparada. Habituou-se a não pensar muito nos seus verdadeiros sentimentos, mas a ter uma imagem idealizada da sua pessoa: muito bondosa, pacífica, respeitadora, etc. Se alguma vez se passou destes limites e teve um comportamento reprovável, não podia ter sido essa pessoa: foi obrigada a isso, foi algum espírito maligno, uma doença, o alcool, seja o que for, mas nunca você.
É bem possível que a tentação do acto proibido volte de novo. Tentação, sim, porque tais desejos excessivos (tantas vezes agressivos ou eróticos) nunca podem partir da santa pessoa que você é. Um recurso possívelé o alcool. Bebendo um ou dois copos, fica preparada. Atira-se de cabeça, cumpre os desígnios ocultos e, no dia seguinte, não se lembra de nada. No entanto, este é um recurso demasiado óbvio (é preferido por homens) e corre o risco de não ser considerada personalidademúltipla mas sim alcoólica. É muito pouco, e pouco sofisticado.
Vamos agora ao grande truque: contenção, respiração e acção. Não sei se já reparou em alguém que, cheio de raiva, está prestes a partir a cara do vizinho. Enquanto se segura (ou o seguram) vai respirando ofegantemente. Assim que se solta, entra na briga e leva tudo raso sem se dar conta. Muitas pessoas, incluindo desportistas (halterofilistas, por exemplo), utilizam este expediente para fazer proezas que parecem estar para além dos limites humanos. Ora é isso mesmo que você tem de fazer. Detenha-se um pouco a arfar, enquanto pensa naquilo que lhe apetecia fazer mas não deve nem consegue. Ao fim de algumas inspirações, está pronto a lançar-se na acção, sem que consiga já pensar. Verá que fará tudo na perfeição, e que mal conseguirá recordar o que lhe aconteceu. Assim, não foi você que o fez, acabou de ter um ataque.
Se alguém observar a sua proeza, não deixará de ficar surpreendido e de encontrar explicações. Pode pensar que está doente ou, melhor ainda, que algum espírito se apoderou de si. Fixe bem essas explicações, porque é a elas que você se vai adaptar em futuros ataques do género. Quando quiser, é só respirar profundamente enquanto se concentra no assunto, e depois soltar-se. Até pode mudar de cara, de voz, ou falar línguas estranhas.
Se entrar em círculos de espiritismo ou de fanatismo religioso (algumas seitas religiosas treinam o seu pessoal para assim exibirem milagres), tem o seu futuro assegurado. (...) O que lhe posso dizer é que, quando respira fundo com o tórax, o sangue se enriquece de oxigénio e se empobrece de anidridocarbónico. Em consequência, fica mais alcalino (ou seja, menos ácido). Ora, em meio alcalino, a hemoglobina, que transporta o oxigénio dos pulmões para os tecidos, fica ávida das moléculas de oxigénio e não as larga. Existe então demasiado oxigénio nos pulmões e no sangue (uma «bomba energética» prestes a rebentar), mas pouco nos tecidos orgânicos, incluindo o cérebro e os músculos.Neste caso, só podem funcionar os neurónios e fibras musculares que não dependem do oxigénio (anaeróbicos), e que parecem ser aquelas que estão preparadas para automatismos de emergência. O que você cria, com a hiperventilação, são assim automatismos de emergência, uma vez que os neurónios de que depende a consciência e a memória explícita necessitam de oxigénio para funcionar."
Excelente texto do Prof Pio de Abeu

O poema

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio .

E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,

que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.

Peço-Te que inundes tudo.

E que o teu reino antes do tempo venha.

E se derrame sobre a Terra em primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen