quarta-feira, novembro 28, 2007

A Propósito de Ti

"Somos felizes. Acabámos de pagar a casa em Outubro, fechámos a marquise, substituímos a alcatifa por tacos, nenhum de nós foi despedido, as prestações do Opel estão no fim. Somos felizes: preferimos a mesma novela, nunca discutimos por causa do comando, quando compras a «TV Guia» sublinhas a encarnado os programas que me interessam, lembras-te sempre da hora daquela série policial que eu gosto tanto, com o preto cheio de anéis a dar cabo dos Italianos da Mafia.

Somos felizes: aos domingos vamos ao Feijó visitar a tua mãe, ficas a conversar com ela na cozinha e eu passeio com o Indiano, filho de uma senhora que mora lá no pátio; assistimos ao básquete dos sobrinhos dele no pavilhão polivalente, comemos uma salada de polvo no café durante os resumos do futebol, e voltamos para Almada à noite, com o jantar que atua mãe nos deu numa marmita embrulhada no «Record», a tempo de assistir às perguntas sobre «factos e personalidades» do concurso em que a apresentadora se parece com a tua prima Beatriz, a que montou um pronto-a-vestir no centro comercial do Prior Velho.

Somos felizes. A prova de que somos felizes é que comprámos o cão no mês passado e foi por causa do cão que tirámos a alcatifa, que as unhas do animalzinho rasparam de tal forma que já se notava o cimento do construtor por baixo. Andamos a ensiná-lo a não estragar as cortinas, pusemos-lhe uma coleira contra as pulgas depois de uma semana inteira a coçarmo-nos sem entender porquê, passados dois dias o Fernando começou a coçar-se também e a acusar-me de cheirar a cachorro e levar pulgas para a repartição, o chefe avisou-me do fundo

- Veja-me lá isso, Antunes

de modo que pus também uma coleira contra as pulgas debaixo da camisa e o Dionísio, espantado

- Deste em cónego ou quê?

E eu, envergonhado, a abotoar o colarinho

- É uma coisa chinesa para o reumatismo, a Jóia Magnética Vitafor é uma porcaria ao pé disto

e como nas Finanças se respeitam o reumatismo e as coisas chinesas, nunca mais me maçaram.

Às segundas, quartas e sextas sou eu que vou lá abaixo levar o cão a fazer chichi contra a palmeira, às terças, quintas e sábados é a tua vez, e o que não vai lá abaixo fica à janela a olhar o bichinho a cheirar os pneus dos automóveis, com um ar sério de quem resolve problemas de palavras cruzadas que os cães têm sempre que farejam postes e Unos.

Somos felizes. Por isso não me preocupei no Sábado com o animal, muito entretido na praceta, e tu atrás dele, de trela enrolada na mão, sem olhares para cima nem dizeres adeus, a nadares devagarinho até desapareceres na travessa para a estação dos barcos. Foi anteontem. Às onze horas tirei o cozido do forno e comi sozinho. Ontem também. Hoje também. Não levaste roupa, nem pinturas, nem a fotografia do teu pai, nada.

Ainda há bocadinho acabei de gravar o episódio da novela para ti. A tua mãe telefonou, a saber porque é que não fomos ao Feijó, e eu disse-lhe que daqui a nada lhe ligavas. Porque tenho a certeza de que tu não te foste embora, visto sermos felizes. Tão felizes que um dia destes vou comprar um micro-ondas para, se chegares a casa, teres a comida quente à tua espera."

págs. 39 a 40 (1ª edição)

A Solidão Das Mulheres Divorciadas

A Solidão Das Mulheres Divorciadas

"Aos fins-de-semana, quando não saio com a minha prima Bé, fico em casa a ver televisão. Ver televisão quer dizer regar as plantas da marquise, ler o meu horóscopo nas revistas, desfazer o tricot do domingo anterior, mudar de canal de vinte em vinte segundos a pensar em matar-me. O problema é que assim que me levanto para tomar os lexotans todos de uma vez a minha mãe telefona-me de Alcobaça a saber como estou, oiço-lhe os gritos no atendedor de chamadas (a minha mãe, que tem um medo danado dos telefones, sempre falou aos gritos) e como não é possível a gente suicidar-se e conversar com a mãe ao mesmo tempo desisto das pastilhas e garanto-lhe que estou óptima, que não tenho febre, que fumo no máximo três cigarros por dia, que como bem, que não emagreci

(- De certeza que não emagreceste?)

que para a semana a visito em Alcobaça sem falta e que qualquer dia, palavra, encontro um rapaz como deve ser

(- Não acredito que não haja um rapaz como deve ser no teu emprego, filha)

e me torno a casar, e desligo o telefone com um tal cansaço e uma tal dor de cabeça que a única coisa de que tenho vontade é de um aspegic e silêncio, e deixei de ter ganas de me suicidar visto que uma pessoa não consegue matar-se se estiver maldisposta.

Nos fins-de-semana em que saio com a minha prima Bé, vamos à Loja das Meias e à Escada sonhar com blazers de cachemira

(- Pode ser que com o subsídio de Natal lá chegue)

e casacos compridos, chateamo-nos como nos peruas nos filmes de que os jornais gostam, encontramo-nos num bar com colegas da escola dela que descobriram na semana passada, um restaurante italiano baratíssimo em Alcântara, e já me sucedeu acordar, aos domingos de manhã num apartamento de Campo de Ourique ou do Beato ao lado de professores de Matemática com iogurtes fora do prazo no congelador, um chinelo esquecido no bidé e um cinzeiro de folha a transbordar beatas no soalho, junto de uma chávena de café quebrada. Incapaz de tomar banho num chuveiro em que faltam sabonete e a água para além de se achar ocupado por um montão de jornais velhos, volto a toque de caixa para o Lumiar sem me despedir do barbudo que ressona de queixo na almofada

(- Não acredito que a Bé não conheça um rapaz como deve ser)

com um ombro fora do pijama descosido, e adormeço até que os gritos de Alcobaça me acordam, de coração aos pulos para inquirirem, ansiosos, no atendedor de chamadas, se tenho abusado dos fritos.

Não abuso dos fritos, não abuso do tabaco, não abuso do álcool, não abuso do sexo, não abuso de nada, mãe: oiço crescer o pêlo da alcatifa, mudo de vinte em vinte segundos de canal e leio o meu horóscopo na penúltima página dos magazines femininos, a seguir ao caderno da moda e a um artigo que explica como um cinto de ligas e uns sapatos vermelhos poderiam mudar a minha vida afectiva. Com um cinto de ligas os iogurtes fora do prazo desapareceriam do congelador? Com sapatos vermelhos encontraria chuveiros sem jornais? O meu horóscopo para esta semana, dividido como sempre em três partes, Saúde (cuidado com o fígado!), Finanças (atenção às despesas excessivas!) e Amor, prevê para quarta-feira, no que respeita às paixões, um encontro inesperado que me alterará para sempre a existência. Quarta-feira foi ontem e o encontro inesperado que tive consistiu em esbarrar com o meu ex-marido no metropolitano: deixou crescer o bigode, vinha acompanhado por uma mulata com metade da idade dele e nem sequer me viu. Ter-me-á visto alguma vez? Em todos os canais de televisão só passam novelas brasileiras. Oiço a chuva de Outubro contra os vidros e o casal do andar de cima a gemer ao ritmo da cama. Se me levantar para tomar os lexotans todos a minha mãe vai desatar aos gritos no atendedor de chamadas, de modo que o melhor é ficar quietinha no sofá a olhar as plantas e o retrato do meu sobrinho bebé sem pensar no suicídio. Para quê? Durante seis meses poupo nos almoços (uma bica, um croissant e um pastel de bacalhau comidos em pé ali no Centro) compro o blazer da Escada e uns sapatos vermelhos, a colega que vende ouro no escritório prometeu baixar-me as prestações do anel, e passo o serão sozinha, de blazer, sapatos e cachucho, lindíssima, a mudar de canal e a ouvir o pêlo da alcatifa crescer."

Crónicas
A Lobo Antunes

págs. 33 a 35 (1º edição)

sábado, novembro 24, 2007

O José Cid está em alta entre os teens.
- Este desenho é da minha irmã morta - explicou a miúda de cinco anos com um rabisco na não. Às vezes sonho com ela e tenho medo.

A psicóloga clínica descobriu mais tarde que a mãe tinha tido um feto com malformação grave ( trissomia 21 ) e tinha feito aborto terapêutico em idade gestacional avançada. Morbidamente, levou sempre a criança mais nova a todas as consultas e ecografias, partilhando com ela dos dilemas existenciais de tal decisão, até ao último internamento.

A menina desenhou no papel uns rabiscos disformes de um monstro inominável.
Chama-se morte.
E não é a morte em sentido biológico.

LIDL

Gosto de ir ao LIDL. É barato. Tão barato que nos faz questionar os preços às vezes escandalosos que gastamos noutros sítios.O LIDL é o sítio dos pobres. Tudo ali é mais triste - as caixas de pagamento não reluzem de facilidades ou cartões promissores, os empregados não desejam bons-dias plastificados.
As pessoas alinham-se pálidas e contam as mercadorias antes do pagamento, fazendo cálculos mentais.Fatos de treino domingueiros, roupas de feira, sacos de plástico, muitos imigrantes, idosos, mulheres com a pobreza escrita na cara. Não se trata daquela pobreza óbvia mas desta pobreza lusa taciturna e envergonhada que se refugia muitas vezes nas aparências do novo riquismo.
POnho-me a pensar em algumas das minhas colegas na fila de pagamento do LIDl e suspeito que nem imaginam que tal sítio existe - aquelas caras, meia dúzia de compras postas à pressa sobre o rolamento de metal, camisolas puídas, cabelos sem cabeleireiro, olheiras, as notas contadas uma a uma, dialectos pouco usuais.

SEmpre que vou ao LIL venho de lá com uma sensação de vaga vergonha e desconforto. Vergonha por esta pobreza tão próxima, tão tangível que torna as nossas pequenas queixas ridículas e os nosso pequenos egoísmos ...
Que tinha muita urgência, dizia a mulher ao telemóvel. Que estava viúva com um menino pequeno. Tinha acabado de ver o anúncio no jornal e ligara logo para aquele número. Não era para se gabar mas é uma cozinheira de mão cheia. Aprendera com a mãe, uma bodeira à moda antiga, e começara trabalhar nas lides da cozinha aos 12 anos.Tem 46 anos explicou, mas cheia de genica. Anotou a hora da entrevista. 500 euros por mês? Das oito às cinco? ai que bom, que bom, não meta mais ninguém segunda lá estou...
- Então amor, safei-me bem? Perguntou ao homem sentado ao seu lado numa carruagem do alfa.
Ao lado o amante sorria.
- Claro que sim, amor. Este já está. SE arranjares mais umas horas extra e eu escuso de trabalhar.

Passaram o resto da viagem para lisboa a discutir o divórcio dele ( ás voltas com um processo judicial) enquanto um miúdo pálido, volteava por ali.

Ideias delirantes


O fundamentalismo religioso transforma a pessoas inteligentes em indivíduos delirantes.
Ao ler o que alguns escrevem sob o pretexto da crónica ficcional compreende-se melhor a suas fantasias mais profundas. Pobres almas.

O que estes indivíduos não fariam se tivessem um naco de poder político…

terça-feira, novembro 06, 2007

Pedro Arroja, conhecido pelo seu antisemitismo entrou agora numa orgia ideológica do fundamentalismo religioso.
Curiosamente os argumentos que utiliza têm sido esgrimidos de uma forma mais subtil a bastante mais inteligente por Ratzinger himself e algumas seitas catolaicas militantes.
O pressuposto é que as sociedades seculares , livres , modernas e democráticas, a que nos habituámos nos últimos dois séculos a considerar como o paradigma da “cultura ocidental”, estão em risco.
Os ateus e os agnósticos vão deixar de estar na moda e vêm aí tempos difíceis para eles “

Mas o risco de viver em liberdade e democracia (algo que só o secularismo permitiu em toda a história da humanidade) e o emergir do fundamentalismo religioso islâmico, associado ao terrorismo e à violência extrema, são para estes ideólogos , justificados e justificáveis:
“Apesar de alguns desencontros históricos, as religiões cristã e muçulmana acabaram por saber conviver sob condições de respeito e tolerância mútua. Aquilo que os muçulmanos ressentem não são os valores cristãos que eles, em parte, partilham e já conhecem há muitos séculos. Aquilo que eles ressentem é a nossa falta de valores e, em particular, o secularismo militante, o desaparecimento da sociedade da ideia que é a fonte de todos os valores - a ideia de Deus.”
OU seja o fundamentalismo religioso é justificável e a culpa dele é o laicismo do estado.

Ratzinger escreveu isso mesmo há uns tempos atrás e as posições públicas do Vaticano relativas aos direitos humanos e ao estado laico são extremamente próximas das dos lideres muçulmanos.

Tem razão numa coisa o Arroja.
Advinham-se tempos difíceis para os que acreditam na liberdade.
Volto ao post anterior.
Faz-lhes falta uma manhã sentados num banco de consulta do IPO.

Consulta externa de oncologia

Os locais de espera para consultas do IPO devim ser ponto obrigatório de passagem por políticos e pseudoelites intelectuais. De preferência como observadores participantes, com o processo clínico na mão sem resultado de biópsia.

São 11horas e no banco ao lado um velho de 76 anos cantarola o hino nacional para uma jovem que ali conheceu e lhe confessou em amena cavaqueira que não faz a menor ideia de como se canta. Já falou de angola, moçambique, de história, do estado novo e política, com uma leveza de antiga quarta classe que a jovem de trinta e poucos não consegue nem de perto nem de longe acompanhar.
O velho compõe a manta da mulher, exausta, na cadeira de rodas ao lado, depois de uma sessão de quimioterapia.
Mulheres estejam caladas lançou-me um simpático desafio que circula na net:
“para dizermos o que diz na pag 161 do livro que estamos a ler..”

Assim de repente abro o livro na referida página e cito, ao acaso, alguns parágrafos:

“Cerca de 50% dos suicídios envolvendo mulheres, em todo o mundo acontecem na sociedade chinesa. As características únicas do suicídio na sociedade chinesa estão talvez relacionadas com um contexto sócio-cultural particular caracterizado por uma compreensão local do suicídio como um acto moral ou uma forma de protesto, (…), por alterações económicas e pelo factores de stress que acompanham as respectivas reformas, pela opressão exercida sobre as mulheres numa sociedade patriarcal, que transforma o suicídio numa alternativa trágica a situações sociais insuportáveis (…) "

Quartilho, AJR (2001) Cultura, psiquiatria e Medicina, Coimbra:Quarteto

quinta-feira, novembro 01, 2007

Bolinhos e bolinhós

Mãe, a Maria está no quarto a treinar a sua bruxidade.

Ranking

Uma relação entre número de alunos (número de exames) e posição no ranking (nota nos exames) de escolas privadas e públicas. O que observamos é que as escolas privadas não têm resultados muito diferentes das públicas, que a diferença entre médias é maior em escolas com menos alunos e que só nessas, onde a selecção social, económica e académica é naturalmente maior, algumas escolas privadas se destacam. Um dado: a média das escolas privadas é de 10,75, a das públicas de 10,05.



portugal contemporâneo: na massa do sangue - O antisemitismo justificado

E, por falar em "bodes expiatórios" ou análises distorcidas de fragmentos da história


portugal contemporâneo: na massa do sangue

Para a gente se rir

“Seria "como um boneco de cera aí para as brincadeiras", num "reinar" que uns dizem "saudável". "Para a gente se rir". Um homem que fora bonito na juventude, rapagão quase perfeito, de mãos erguidas no ar a segurar a arma da tropa. E um sorriso na expressão. Com a vida entortada por um divórcio indesejado na passagem por Lisboa, "deu-se à paixão, à tristeza. Começou a andar com a cabeça de lado" e a "dedicar-se à bebida". Era o "Maná", uma pessoa "sensivelmente normal", seja lá o que isso for na compreensão de quem fez dele um bobo da corte. Porque "era bondoso".
A bondade ou uma certa simplicidade de coração podem transformar alguém mais frágil ( pelo seu comportamento, pela sua idade, pelo seu estado de saúde ou pela sua sensibilidade )em vítima.
O bode expiatório “natural” de um grupo de pessoas ditas normais que descarrega o seu gozo sádico num outro ser humano.
Não é nada de enovo.
O cinismo e a desconfiança para com os outros são mais protectores.

quarta-feira, outubro 31, 2007

Crucificado

Os adolescentes decidiram fazer uma brincadeira. Tratava-se de torturar um homem indefeso, mais ou menos embriagado. Acharam piada. A tortura foi pública e ninguém interviu para salvar a vítima. Um homem morreu de uma forma atroz.. .
Os homicidas, na maioria jovens eram “bons rapazes”, um deles ex- seminarista.
Qualquer semelhança entre este caso e o de Gisberta, não é mera coincidência.
Os relacionamentos amorosos não são lineares nem previsíveis. Contudo há algo que parece inevitável – o padrão de relacionamento entre duas pessoas delineia-se muito rapidamente a partir da primeira fase do envolvimento amoroso. Os códigos de conduta inscritos e os modelos de relação, na verdade não variam muito com o tempo.
Por exemplo, se um ama mais que o outro, esse padrão tende a manter-se.
SE um é mais dependente e o outro mais prepotente, essa “equilíbrio “ de forças tende a perpetuar-se. Se um tem uma relação de entrega e compromisso e o outro tacteia estratégias de auto protecção, dificilmente essa situação se alterará com o tempo. Em boa verdade a forma como duas pessoas se relacionam amorosamente fica estabelecida nas fases iniciais do envolvimento. E é esse padrão que se mantém.
SE houver uma alteração brusca quase sempre é no sentido da ruptura.

sábado, outubro 20, 2007

Ontem num encontro muito interessante, alguém falava na normalidade do absurdo. Por exemplo, a seguir a um “convívio” de recepção aos caloiros a alta de Coimbra, a zona nobre da Universidade parecia ter sido varrida por um cataclismo uma cena de guerra civil. Garrafas partidas, dejectos, o chão empastado em cerveja e vómitos, copos farrapos, todo o tipo de resíduos jaziam de uma forma desorganizada em todo lado. De manhã os funcionários das faculdades e departamentos, tentavam atarantados por alguma ordem no caos. E ninguém questiona a “bondade” e normalidade de festas académicas que se baseiam ano consumo desenfreado de drogas e na lixeira pura e simples. È normal, dizem.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Andam para aí alguns muito preocupados com “os valores morais da família”, o que me lembra vagamente discursos de outros tempos ou de tempos bem actuais em certas zonas daEuropa...
Sobre as famílias, mais que os discursos morais, há que falar de felicidade. Ma isso não parece importar muito os teóricos sobre as famílias dos outros.
Andam por aí uns gajos muito perturbados com as linhas modernistas da basílica de fátima.
Têm razão numa coisa - é escandalosa tanta opulência inútil.Uma vergonha.

अताकुए डी नेर्वोस २

Pergunta matinal:
- Mãe, qual é a sensação de ter um título vitalício?

स् á बीरा डी एम अताकुए दे nervos

Mães á beira de um ataque de nervos

Comentários entre os dois miúdos mais velhos apropósito de uma consulta:

- Então e gostaste do médico?

- Claro. (Pausa) Se cá coisa que aprendi com o Calvin é que nunca se deve criticar alguém que lida de perto com agulhas.
Toda a gente é contra o tráfico de mulheres, ou pelo menos assim o exprimem publicamente.
Mas inúmeros recorrem a prostitutas ou à pornografia, sabendo que estão a contribuir para um negócio global.

domingo, outubro 14, 2007

A Europa Ocidental tem a taxa de aborto mais baixa do mundo (12 por mil).


"A redução da taxa de aborto coincide com um aumento importante da utilização da contracepção", sublinha o estudo.

Nos países em desenvolvimento, o número total de abortos diminuiu pouco (33 milhões contra 35,5 milhões) devido ao aumento da população.

ए não एस एपोदे दर उम् मुर्रो ना कबे अ एस्ते गज्प?

- Na sua opinião, uma mulher que é agredida pelo marido deve manter o casamento ou divorciar-se?
- Depende do grau da agressão.
- O que é isso do grau da agressão?
Há o indivíduo que bate na mulher todas as semanas e há o indivíduo que dá um soco na mulher de três em três anos.
- Então reformulo a questão: agressões pontuais justificam um divórcio?
- Eu, pelo menos, se estivesse na parte da mulher que tivesse um marido que a amava verdadeiramente no resto do tempo, achava que não.
Monsenhor Luciano Guerra [MLG], entrevistado por Pedro Almeida Vieira [PAV], DN,

/ E não há nibnguém que dê uns socos na cabeça destes indivíduos?

sábado, setembro 29, 2007

बंदो डी Hipócritas

Ao escutar as dificuldades de uma mulher que tenta educar sózinha a sua filha de três anos , lembrei-me deste post.

Ela tem esta filha por um gesto de generosidade quase heróica.

Mas há uma hipocrisia social que enjoa.

Algo de extraordinário se está a passar na Birmânia.
Não é apenas a repressão violenta de um regime totalitário sobre as aspirações de liberdade.
Não é apenas esse esforço de resistência ser protagonizado por monges budistas pacifistas.È o impacto que certas imagens têm na consciência global e o aparecimento de novas formas de resistência através das novas tecnologias da informação.

Entretanto, enquanto escrevo, uma das prioridades do governo birmanês é desactivar tudo o que permita ligações à Internet

Dia Europeu contra a Pena de Morte, a 10 de Outubro.

Boas notícias - apesar dos seus esforços, os catolicíssimos gémeos polacos não puderam impedir que a Europa tenha Dia Europeu contra a Pena de Morte, a 10 de Outubro.

A reaccção dos polacos Não é de estranhar, já que, como recordou o líder bancada socialista, o presidente polaco é um saudosista da pena de morte. Lech Kacznski tinha afirmado recentemente ser ter sido, ser e continuar a ser "favorável à pena de morte. Regressar à pena de morte na Europa não é possível, hoje em dia, mas espero" - disse - "que, no futuro, haja um clima mais favorável."

Nas bancadas, um eurodeputado polaco replicou imediatamente a Martin Schulz, acusando-o de "censura". Konrad Szymánski defende - tal como o governo polaco já fizera - que, para discutir o humanismo na Europa, não basta falar da pena de morte. É preciso avançar para uma discussão sobre o aborto e a eutanásia também.”

Ou seja, os defensores da proibição total do aborto são a favor da pena de morte.
O que tem todo o sentido. Afinal, para eles a vida humana nada conta. Só a vida dos embriões tem valor.

sexta-feira, setembro 28, 2007


Mães à beira de um ataque de nervos


Primeiro dia de escola do nono ano. - Directora de turma solícita tenta a integração e o conhecimento dos novos miúdos, com o preenchimento das fichas previsíveis.
Pergunta:
- Qual a tua relação com a escola?
Resposta em caligrafia cuidadosa.
- Uma relação de divórcio com problemas por resolver.
Primeiro dia de escola do nono ano.
Directora de turma solícita tenta a integração e o conhecimento dos novos miúdos, com o preenchimento das fichas previsíveis.
Pergunta:
- Qual a tua relação com a escola?
Resposta em caligrafia cuidadosa.
- Uma relação de divórcio com problemas por resolver.

Mães à beira de um ataque de nervos

Ao beber um chá ao fim da tarde, deixei a chávena poisada na mesa enquanto acorri a uma solicitação do filho mais novo. Quando voltei para beber apercebi-me que a chávena estava praticamente vazia.
- Meninos, quem bebeu o meu chá?
- Fui eu mãe, mas não to roubei, foi por pena. Vi a o chá aí sozinho na mesa e pensei – haverá alguma coisa mais triste que uma chávena de chá sozinha, sem ninguém para o beber?

sábado, setembro 22, 2007

मिस Uma

Um homem terá morto hoje a mulher e depois tentou suicidar-se logo de seguida através de enforcamento perto da localidade de Matas do Louriçal, disse fonte policial.

O caso sucedeu cerca das 09:00 de hoje e a mulher terá morrido vítima de estrangulamento após uma discussão com o cônjuge
Não se trata de gostar ou não gostar do formato de um blogue.
Quando se descrevem num Blogue chamado confessionário situações explícitas e concretas reveladas em confissão - ainda que sejam alegadamente fictícias - fica sempre no ar a suspeição de que um padre está a violar publicamente o segredo da confissão.
Por mais " capacidade ficcional" que o referido padre tenha, a forma como essas situações são descritas e apresentadas têm subjacente a ideia de que o segredo da confissão não existe e que a intimidade das "paroquianas",
assim descrita despudoradamente tende a ser objecto de devassa mais ou menos voyeurista.
Não é por acaso que os reincidentes comentadores e utilizadores nas caixas de comentários assumem estes relatos de confissões como "verdadeiros".
Sei, da minha experiência de escrita, que o que quer que se construa em termos ficcionais se baseia sempre em realidades, filtradas aqui e acolá, captadas sobre factos verídicos e pessoas concretas.
Não há relatos completamente ficcionados.
A imagem que este blogue dá, enquento reflexo da realidade, é que o "confessionário" não virtual é um lugar privilegiado das coscuvilhices mais ou menos obscenas, que os padres devem comentar entre si e que são aqui divulgadas por um padre, para delícia dos leitores.
Por isso mesmo, acho que este blogue tem um importante papel terapêutico -
afasta ainda mais as pessoas dos confessionários e das confissões "reais".
E quanto ás caixas de comentários, sao igualmente reveladoras de um certo tipo de"Moral paroquiana", com revelações que mereceriam análise aprofundada por parte da hierarquia - desde maridos catolicamente infieis, passando por beatas que falam dos seus "affaires com padres" até denúncias de abusos sexuais de padres sobre mulheres fragilizadas, tudo em tom de revelação banal.
Enfim, a moral católica no seu esplendor de hipocrisia só possível num confessionário virtual.
Já agora, não deixa de ter a sua piada ( outras interpretaçõe são possíveis) que os relatos de natureza sexual "em confissão" são sempre no feminino.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Perguntas

Em dois casos recentes de brutais homicídios em Portugal os autores tinham sido previamente diagnosticados com depressão e estavam sob medicação psiquiátrica.
E ninguém investiga que protocolo farmacológico estavam a fazer?

Não necessitariam estas pessoas de internamento e de monitorização clínica mais eficaz?

São casos absolutamente imprevisíveis?

Tudo bons rapazes

Em Portugal a violência contra as mulheres atinge proporções catastróficas. Num só dia duas mulheres foram assassinadas pelos companheiros perante a complacência geral. Num caso a origem da morte, à frente dos filhos, foi a propósito de divergências sobre a educação dos mesmos.
O homem ter-se-á entregado à polícia com uma expressão do mais puro narcisismo:
estraguei a minha vida” ( e a vida dela??)

O outro caso, igualmente macabro, ontem de manhã, mesmo aqui ao lado, envolve dois estudantes universitários em Coimbra. A jovem, de vinte anos. Foi atacada á facada por terminar uma relação amorosa e deixada a agonizar numa valeta.
O assassino voltou ao local do crime, acompanhado pelos militares da GNR, mostrando-se “calmo, descontraído e por vezes sorridente".
Estamos a falar de pessoas jovens, aparentemente normais, com vidas estáveis, socialmente integrados. Mas a violência das relações passionais dirigida contra as mulheres tem algo de permanente na nossa sociedade e aprece agudizar-se quando as mulheres dão como garantidos os seus direitos de autonomia e autodeterminação.
A complacência social face à violência masculina mantém-se com discursos de justificação ou desculpabilização dos agressores cujos actos são descritos como “tresloucados” e os assassinos “BONS RAPAZES”.Em Espanha, os crimes contra as mulheres são levados bem mais a sério.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Confesso, eu que sempre fui avessa a números e contabilidades, dou por mim rendida à lógica imperturbável do cálculos matemáticos. Há um espécie de poesia invisível na forma como os números se alinham e permitem interpretar o real de uma forma objectiva, mesmo para questões que o senso comum coloca na esfera da mais pura subjectividade. Passei parte das férias rodeada de livros de cálculos e bases de dados e agora tudo me parece fazer sentido como um fio condutor que de repente fica claro. Evidentemente que ainda existem muitas questões em aberto.
Sinto-me tão feliz por isto!
Resta-me escrever.
Naquela manhã os miúdos foram às escondidas espreitar a moribunda. Nunca tinham visto uma quase morta e a casa estava assim, numa agitação, a porta entreaberta, a família, visitas e amigos que entravam e saíam em compungido silencio, á espera de qualquer coisa. Antigamente, as mortes dos velhos eram assim, em velhas casas de família, com todo um ritual de luto antecipado e uma espécie de liturgia comunitária.
As crianças tinham apanhado aqui e ali a conversa dos adultos e uma coisa era certa – a velhota agonizava.
Com o coração aos pulos subi a escada movida por uma curiosidade que nunca sentira. O que era morrer? Como eram as pessoas quase mortas?
De mansinho empurrei a porta entreaberta e entrei no quarto sem que ninguém reparasse. Lá dentro, uma agitação silenciosa. Várias mulheres moviam-se na sombra. E então, de peito cheio de ar enfrentei o rosto da moribunda. De boca entreaberta, um tom de pele inerte, feia, feíssima na repulsão da agonia, fitava-me com uns olhos baços cobertos de uma película esbranquiçada que me nauseou. Respirava ainda, num estertor sussurrante, que se misturou com o cheiro do quarto (o cheiro a morte colado ás paredes) e o grito súbito de uma das mulheres a enxotar-me para que não visse aquilo. Mas vi, desci as escadas em turbilhão com um vómito retido e a imagem da película baça a escorrer dos olhos da quase morta revolvia-me o estômago.

Então a morte era isto, um vómito, uma película repugnante no olhar.
E de repente, misturada com a náusea, senti uma alegria animal, uma exaltação inebriante completamente nova. Larguei a correr até me faltar o ar e o coração explodir na garganta só para sentir os pulmões cheios de vento, as pernas e os braços a mexerem-se em liberdade. Quando parei, exausta, transpirada e inebriada de sensações luminosas dos meus seis anos, percebi de súbito a causa da euforia.
Ainda bem, és tu velha que estás morta, eu estou viva, estou viva, estou viva.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Santos ateus



"Onde está minha fé, inclusive aqui no mais profundo não há nada, meu Deus, que dolorosa é esta pena desconhecida. Não tenho fé

"Trabalho para quê? Se Deus não existir, não pode existir alma. Se não existir alma, então, Jesus, Tu também não és verdade".

Teresa

Nota - para alguns, cinquenta anos de aterrador vazio , dúvidas sobre a existência de deus e silêncio, não é uma crise de fé. mas a prova da existência da divindade.

Um completo absurdo.

The beginning is a very delicate time

quinta-feira, setembro 13, 2007

Fundamentalistas


O que é comum nos crentes fundamentalistas de qualquer religião é a incapacidade de ler com distanciamento a mais simples análise crítica às suas crenças ou simbologias religiosas.
Basta lembrar o caso das caricaturas sobre maomé (em versão lusa tivemos a questão da caricatura do papa com um preservativo no nariz, que fez correr tanta tinta e até apelos à "censura"...).

A diferença entre os fundamentalistas cristãos e islãmicos não é assim tanta - em boa verdade os argumentos de uns e outros sobre questões essenciais, como o laicismo do Estado, os direitos humanos, as questões de género, a bioética ou o discurso sobre a ciência são rigorosamente iguais.

Os discursos centrais do fundamentalismo pretendem impedir a separação da religião e do Estado, a interpretação crítica dos "livros sagrados" ou da teologia oficial, ou "o respeito pela liberdade de consciência, de pensamento, de expressão, de reunião, de associação, "o direito à crítica da religião", à mudança de religião e à não crença, a igualdade dos sexos e dos seus direitos, "a distinção entre ética civil e ética religiosa".

De igual forma, o "fundamentalismo religioso" impede qualquer leitura mais reflexiva sobre dados históricos relativos aos seus ícones, ou a questões relacionadas com os seus percursos de fé. A fabricação de mitos e de ícones sagrados ( os santos, os profetas e os mártires) corresponde uma lógica delirante de fabricação de sinais que sustentam o sistema de crenças, que podem ser completamente desligados da realidade cognoscível.


E é este exercício permanente de "defesa agressiva" que caracteriza os deentores das verdades absolutas em matéria de fé.

Verdades absolutas até sobre as radicais dúvidas dos outros.

terça-feira, setembro 11, 2007

Inocência

Deve haver profissões em que se perde a inocência, sobretudo aquelas em que mais se lida com a sordidez humana nas suas mais variadas formas. Suponho que a investigação criminal seja uma delas. Lidar com factos destes deve deixar em qualquer investigador judicial uma ausência absoluta de crença no ser humano e uma secreta convicção que todo a gente é capaz de tudo – basta ter os contextos, as motivações e as oportunidades.
Há outras profissões bem mais insuspeitas em que o cinismo do conhecimento da realidade humana faz com que ao olhar os outros se veja sempre para lá das aparências ditadas pela conveniência social e se adivinhem os desvios ou as fragilidades.
Mesmo assim, até na brutalidade, há sempre qualquer coisa de desconhecido em cada pessoa humana que surpreende os mais cínicos. Para o bem e para o mal.
Todos os media nos bombardeiam com informações sobre maggie e a presumível culpa dos pais.
Não sei bem onde pára a presunção de inocência e acho tenebrosa esta lapidação pública através dos media.
Posto isto, devo dizer que o rosto daquela mãe nunca me convenceu.
Trata-se de uma questão de puro senso comum - alguém seria capaz de deixar sózinhos e sem qualquer vigilãncia dois bébés pequeninos e uma criança de quatro anos num apartamento de portas abertas e ir tranquilamente jantar fora?

sexta-feira, agosto 31, 2007

Santos Ateus

Teresa de Calcutá, o maior ícone católico da segunda metade do século XX viveu a maior parte da sua vida sem qualquer fé. E mesmo com sérias dúvidas sobre a existência de deus, o que lhe terá provocado uma terrível angústia existencial, já que proclamava publicamente o contrário do que acreditava e sentia.
Que este facto sirva para provar a existência de deus ( na sua ausência sádica de amante infiel ) ou até a santidade ateia da mesma, é uma contradição que delicia agnósticos e ateus, demonstrando à saciedade que a irracionalidade da religião se alimenta do mais puro absurdo, e que a crença não se baseia am qualquer argumentação lógica.

sexta-feira, agosto 03, 2007

O calor tem destas coisas. Damos por nós a ouvir como música de fundo o inefável programa da Júlia . Não é julinha, nem senhora julia, nem dona júlia, nem stora julia, com que alguns convidados, prestimosamente a mimam. E de repente, no programa da Júlia, a propósito de fenómenos estranhos, como premonições e contactos com o além.. .chama-se a voz da ciência. E ela parece, inefável, “encarnada” numa senhora que se diz psicóloga clínica e que proclama a sua euforia por poder falar publicamente sobre "fenómenos da espiritualidade".
E que afirma essa senhora, da cátedra da sua ciência? Afirma que há estudos científicos que comprovam a mediuinidade (quais??) e vai mesmo mais longe... Afirma a senhora, sem pestanejar que sim senhor, que até temos uma glândula pineal que capta ondas electromagnéticas que são transmitidas ao córtex e bla bla bla...
A populaça, rendida , aplaude. Teria mais utilidade uma explicação do professor Karamba.
A para-ciência, servida em fatias. Haverá uma ordem dos psicólogos?

quinta-feira, julho 12, 2007

Poderiamos ter fabricado a esperança de mil maneiras.
Contar-nos pequenas histórias de adormecer crianças.
Ser dóceis por rebeldia.
Fingir-nos novos,antes de nos entregarmos.

Preferimos arquivar memórias a despojar-nos da noite.

De uma forma ou doutra, a liberdade enreda-nos

Ausências

Mulheres

Um dia,
encontraremos o nosso lugar
à mesa do mundo.
E tudo será sagrado



sexta-feira, junho 29, 2007

Orquestra Sinfónica Juvenil de Chacao

Na venezuela, um projecto musical retira meninos das malhas da pobreza e da marginalidade através da música clássica. A Orquestra Sinfónica Juvenil de Chacao foi fundada em 1994, por iniciativa da Câmara Municipal de Chacao, tem 75 elementos com idades compreendidas entre 12 e 20 anos e faz parte do Sistema Nacional de Orquestras Sinfónicas Juvenis e Infantis da Venezuela, que foi fundado há 32 anos pelo maestro José António Abreu.
A alegria da música e um projecto social. A alegria contagiante dos jovens executantes ...


Talvez seja da ausência completa da noite nesta época do ano que os sentidos se tornam mais agudos a esta latitude. De resto, pouco mais somos que pedaços de luz que se movem.

segunda-feira, junho 04, 2007



Uma das características de um psicopata é a capacidade de manipulação aliada a uma incompleta insensibilidade á dor alheia.
Que uma televisão faça eco do discurso manipulativo de um serial killer parece-me um insulto ás vítimas e ao trabalho do investigadores.
Além de indícios forenses no carro e no quintal do arguidos, os crimes pararam com a prisão do “”Tói”.
Ora um criminosos compulsivo só interrompe o ciclo de mortes por uma de duas razões – ou foi preso ou morreu.

terça-feira, maio 29, 2007


O ministro da Agricultura, Florestas e Pesca do Japão, Matsuoka Toshikatsu, de 62 anos, suicidou-se ontem numa residência para os parlamentares em Tóquio. Enforcou-se com a trela do cão.
Matsuoka ia hoje ser ouvido numa comissão parlamentar por alegadas irregularidades na gestão do seu ministério.
O suicídio, no Japão, tem um significado social muito preciso, podendo ser mesmo uma honra para o indivíduo e para a família. Ao contrário doutras culturas, no Japão não existem tabus religiosos contra o suicídio, que é considerado uma forma honrosa de escapar do fracasso ou de salvar a honra dos parentes de constrangimentos decorrentes de dificuldades financeiras.

Com 127 milhões de habitantes, o Japão tem uma das maiores taxas de suicídio do mundo industrializado, 24,3 por cem mil habitantes, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).
Os pactos de suicídio e o suicídio através da net têm aumentado exponencialmente.
Comprei o meu primeiro livro de amelie nothombe, enquanto procurava literatura leve para ler numa viagem de avião. Literatura de voo, pensei eu, sem pingo de expectativa. Enquanto folheava o Stupeur et tremblements . Logo me passou o cepticismo. Divertida e fascinada, sorvi o livro com uma delícia de que não me lembrava. A frescura do texto , a improbabilidade do desfecho, e a deliciosa construção frásica cheia de um humor intraduzível e uma reflexão sobre uma sociedade extremamente organizada, hierarquizada, duma rigidez sem brechas.
Onde, por isso mesmo as taxas de suicídio, são as mais elevadas do planeta , sem que isso suscite espanto.

Singulièrement, il y a une logique à cela : les systèmes les plus autoritaires suscitent, dans les nations où ils sont d'application, les cas les plus hallucinants de déviance - et, par ce fait même, une relative tolérance à l'égard des bizarreries humaines les plus sidérantes. On ne sait ce qu'est un excentrique si l'on n'a pas rencontré un excentrique nippon.”

segunda-feira, maio 28, 2007

Amores possíveis


Foi mais ou menos assim: á saída das urgências , depois de um turno embrutecedor, o joão comentou que nessa manhã a água faltara no meio do duche e ele ficara atordoado, olhos a lutarem contra a espuma do Shampoo, a apalpar ás cegas o caminho para a toalha, como uma barata tonta, no meio da neblina do vapor.
Entre risos, inesperadamente, Inês imaginou-o nu, o dorso moreno ensaboado, as pernas musculosas, o pénis semierecto de um prazer interrompido, viu os gestos entontecidos da vulnerabilidade cega, e amou-o logo ali, para sempre, sem que ele sequer sonhasse.

domingo, maio 27, 2007

O amor possível


Quando edite se apaixonou por thomas estava gravidíssima do luís. ~
Não se pense que edite era um galdéria qualquer, nada disso. De boas famílias, atinadinha, metódica, casou mais por inevitabilidade que por convicção com o eterno namoradinho de faculdade.
Morena, de um sorriso translúcido a desfazer-se em covinhas, edite é e sempre foi , a ditinha para os amigos. Calma, serena tranquila, sem um rasgo de paixão ou dolorosa inquietação, inteligente, suave, nunca vi estremecer a ditinha num sussurro de uma discussão durante os anos que partilhamos .
Atravessou a faculdade sempre na sombra do luís e o casamento pareceu-nos a todos um percurso normal.
Ditinha apaixonou-se pelo thomas numa reviragem de filme, desses momentos que merecem uma banda sonora especial. Um verdadeiro amor é sempre um amor á primeira vista , contou-me, e assim foi quando viu Thomas pela primeira vez, loiro, altíssimo, com longas mãos de artesão perdido, e ele a descobriu deslumbrado, morena, de olhos fulvos, sorriso a desfazer-se em covinhas e uma enorme barriga de virgem grávida.

Foi há nove anos. Estão juntos até hoje.

As relações laborais são muitas vezes marcadas pela competição, hipocrisia, pequenas intrigas e frustração. Mas mais grave que isso é observar as relações entre pessoas próximas baseadas no egoísmo e na autogratificação.
O outro só interessa na medida em que satisfaz pulsões narcísicas…
E chamam a isso amor.
E família. E laços sagrados…E discursos éticos e religiosos e bla bla bla.

sábado, maio 26, 2007


O segredo da felicidade é nada esperar.

Mestiço, na terminologia francesa é um tecido, o que supõe criação, assimilação, elaboração a partir de fios ou materiais diferentes. E, todavia, não é um tecido plenamente conseguido: a cunhagem da palavra francesa métissage acaba por incorporar no prefixo mé a mesma incompletude e o mesmo sentido de insuficiência que esse prefixo empresta à palava méconnaissance que, não sendo integralmente traduzível pela palavra ignorância ou não conhecimento, remete no entanto para uma certa desadequação ou incumprimento do conhecimento.
Assim, mestiçagem não é a fusão total dos fios com que se tece, nem é a sua separação total: está a meio-caminho entre o ser e o não ser.

Laplantine

AS MULHERES EM PORTUGAL Direito ao Voto

1911 A médica Carolina Beatriz Ângelo, viúva e mãe, vota nas eleições para a Assembleia Constituinte, invocando a sua qualidade de chefe de família.
A lei é posteriormente alterada, reconhecendo apenas o direito de voto a homens.

1913 Primeira mulher licenciada em Direito - Regina Quintanilha.

Lei n.º 3, de 3 de Julho de 1913, que atribui o direito de voto aos cidadãos do sexo masculino que saibam ler e escrever.
1931 Expresso reconhecimento do direito de voto às mulheres diplomadas com cursos superiores ou secundários (Decreto com força de lei n.º 19694, de 5 de Maio de 1931) - aos homens continua a exigir-se apenas que saibam ler e escrever.
1933 Nova Constituição Política do Estado Novo que estabelece a igualdade dos cidadãos perante a lei, "salvas, quanto à mulher, as diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família" (Art.º 5.º).

1946 Nova lei eleitoral, mais alargada que a de 1931, continuando, porém, a exigir ainda requisitos diferentes para os homens e para as mulheres eleitores da Assembleia Nacional (Lei n.º 2 015, de 28 de Maio de 1946).

1967 Entrada em vigor do novo Código Civil. Segundo este, a família é chefiada pelo marido, a quem compete decidir em relação à vida conjugal comum e aos filhos.

1968 Lei n.º 2 137, de 26 de Dezembro de 1968, que proclama a igualdade de direitos políticos do homem e da mulher, seja qual for o seu estado civil. Em relação às eleições locais, permanecem, contudo, as desigualdades, sendo apenas eleitores das Juntas de Freguesia os chefes de família.

1974 Revolução de 25 de Abril. Instauração da Democracia.

Três diplomas abrem o acesso das mulheres, respectivamente, a todos os cargos da carreira administrativa local (Decreto-Lei n.º 251/74, de 12 de Junho), à carreira diplomática (Decreto-Lei n.º 308/74, de 6 de Julho) e à magistratura (Decreto-Lei n.º 492/74, de 27 de Setembro).

Abolidas todas as restrições baseadas no sexo quanto à capacidade eleitoral dos cidadãos (Decreto-Lei n.º 621/A/74, de 15 de Novembro).

Primeira mulher ministra: Eng. Maria de Lourdes Pintasilgo, na pasta dos Assuntos Sociais.

sexta-feira, maio 25, 2007

Somos todos mestiços


Mestiçagem é, em primeiro lugar, uma experiência – da desapropriação, da ausência e da incerteza que pode brotar de um encontro, o que traduz uma condição muitas vezes dolorosa de “afastamento do que se é” para mergulhar no futuro imprevisível do mistério do outro e dos outros. A noção de mestiçagem, seja aplicada a pessoas, ou pensamentos, cultura ou arte, é sempre uma condição de algo em movimento, sendo o nomadismo e a metamorfose os seus símbolos privilegiados e a desapropriação, como mediação entre a familiaridade e o estranhamento, o seu estado natural.

Laplantine

quarta-feira, maio 23, 2007

Legado de Chernobyl

Por uma questão de pesquisa , dispus-me nos últimos dias a estudar a relação entre viver perto de Chernobyl e uma maior incidência de perturbações psiquiátricas ou maior vulnerabilidade ao stress.
Encontrei, de entre os milhares de textos e investigações disponíveis, este extraordinário documento.

Para digerir em silêncio, com um nó na garganta.
Vale mais que mil correlações estatisticamente significativas, mas infelizmente, não posso usar nem imagens digitais, nem documentos electrónicos na minha investigação.

domingo, maio 20, 2007

Aguarela




Na praça, á volta do tocador de guitarra, amontoa-se uma pequena multidão policromada. Os mais novos de rastas, roupas étnicas, tatuagens, piercings, as marcas codificadas da tribo, mistura de subculturas alternativas em que padrões seventies se misturam com padrões futuristas, num revivalismo juvenil de colagem de mosaicos, mesmo ao lado, uma velhíssima senhora, com um penteado impecável anos cinquenta procura um espaço para se sentar. O que há de mais encantador na figura escorrida é o desenho das sobrancelhas, um finíssimo traço a lápis preto define o enquadramento do olhar, estilo Marlene Dietrich, a saia de pregas, impecável, que ela alisa mesmo assim em gestos lentos enquanto ouve a balada, e ao lado os turistas, os casais improváveis, mendigos árabes a fingirem estátuas, uma puta velha de meias de rede, a cobiçar umas brincos de quinquilharia e uma dourada luz mediterrânica a embalar tudo.

Lassie, a cadela da avó da Francisca morreu. Não houve nenhum acidente, nenhuma doença grave. A cadela estava velhota e só o amor e o conforto da família lhe permitia uma vida longa e funcional.
Mas a Francisca e a Lassie tinham um amor muito forte. Quando a Francisca nasceu a Lassie já era uma bela cachorra e desde que se lembra do mundo, e ao longo de dez anos, Francisca contou com as brincadeiras, os mimos, a força e a cumplicidade da Lassie. Nas últimas férias da Páscoa, quando Francisca esteve doente, com febre, a lassie passou o tempo todo deitada ao lado dela, com um ar preocupado e protector.
Por isso a Francisca durante esta semana chorou várias vezes na escola, em silêncio e meio envergonhada de demonstrar a sua dor. Só um grupinho pequenino (as amigas da turma, expressão pequena para classificar a deliciosa teia de relações entre cinco meninas de dez anos) sabia do segredo. Sim, porque a dor do luto é um segredo.
Num intervalo lá estavam todas – a Francisca a chorar, inconsolável, a esconder as lágrimas para que nenhum miúdo parvo da turma se apercebesse e ainda gozasse, a contar que sempre que via um cão na rua sentia uma tristeza tão grande que não conseguia conter as lágrimas. As outras meninas confortavam-na e partilhavam as suas perdas – um cãozito, a tartaruga de estimação - abraçavam-na davam-lhe beijinhos. Até que a maria luís, do alto dos seus dez anos, encontrou estas palavras mágicas – Mas ó Francisca, a Lassie vai ficar sempre contigo no teu coração. Enquanto lá estiver, não morreu.

Abismada com a profundidade da frase, reflecti que não ensinamos as nossas crianças a viver as dores, o luto e a perda. Não lhes falamos sequer da inevitabilidade da morte, evitamos que vão a funerais ou que contactem com pessoas em fase terminal.

E, num mundo esvaziado de crenças religiosas e do conceito de continuidade, numa sociedade onde a morte é tabu e em que começa a ser socialmente desajustado a expressão do luto emocional, pergunto-me como podemos ensinar ás nossas crianças a lidar com a morte e a inevitabilidade das perdas.
Ou como podemos nós mesmos aprender a arte de morrer?

sábado, maio 19, 2007

A religião e as mulheres


A net tem destas coisas. Podemos escrever um milhão de páginas contra o fundamentalismo religioso ou contra a violência sobre as mulheres. Mas nada, mesmo nada tem o impacto das imagens em directo e on line da lapidação brutal (e tenebrosamente lenta) de uma menina de 17 anos.
As imagens horrendas, gravaads num telemóvel, estão disponíveis há alguns dias.

Eu, sou sincera, não consegui ver. Não consegui.

Dua podia ser qualquer uma de nós, as nossas filhas, a nossa irmã mais velha.

Para quem acha que o laicismo e o feminismo devem estar fora das agendas civilizacionais, a morte de Dua faz sentido.

domingo, maio 13, 2007

Ciência e Fé

Poema para Galileo
(….)
Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
(…)
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
(…)
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
A.Gedeão

sábado, maio 12, 2007

Quando focamos a nossa atenção num único elemento concreto da realidade, é absolutamente provável que nos escapem completamente ( em termos de percepção sensorial) outras mudanças drásticas do contexto que estamos a percepcionar.

Esta limitação fisiológica do nosso sistema nervoso central, que não é propriamente uma limitação pois implica uma vantagem evolutiva, é o ponto de partida das técnicas de ilusão dos mágicos, manipuladores, burlões, ilusionistas e alguns indivíduos das “ciências ocultas”, espiritualidades alternativas, seitas e misticismos exacerbados.

Mas é também o ponto de partida para os manipuladores ideológicos ou de opinião.

quarta-feira, maio 09, 2007



António Gedeão.

Alguém viu esta menina?


Nunca em Portugal o desaparecimento de uma criança activou tantos meios policiais, suscitou tanto interesse mediático e provocou uma onda de solidariedade tão intensa, meso na internet.
Só é pena que tal não se repita de cada vez que desaparece uma criança portuguesa.
Sabe-se que se uma criança raptada não for encontrada nas primeiras vinte e quatro horas, as possibilidades de aparecer viva são reduzidas.
Apesar dos “visionamentos” fruto da sugestão, Madeleine , neste momento já não deve estar viva. O que as autoridades buscam é um cadáver e um potencial homicida, provavelmente um pedófilo e provavelmente de nacionalidade inglesa, e provavelmente muito próximo dos hábitos daquela família.
Os contornos deste “rapto” enchem de terror qualquer pai e mãe. Um momento de algum facilitismo e um intruso rouba uma filha. Aliado ao terror da perda, está o horror da pedofilia ou do tráfico de crianças. Dos actos isolados ás redes transnacionais, os crimes contra as crianças são hoje uma ameaça global, que afecta sobretudo os meninos e as meninas de países subdesenvolvidos.
Há milhões e milhões de Madeleines por esse mundo fora e estes crimes horrendos devem ser denunciados e combatidos.
Mas, o mais importante de tudo é sermos capazes de proteger os nosso filhos de predadores e de os educar para a segurança e responsabilidade. Sem entrarmos em paranóias de insegurança. Confesso que não é um equilíbrio fácil.

sábado, maio 05, 2007

A mãe


"A Bíblia põe na boca de Deus estas palavras: "Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, eu nunca te esqueceria. Juro pela minha vida."
Segundo E. Fromm, o psicanalista heterodoxo, é na mãe que encontramos o modelo ideal do amor.

De facto, o que é que procuramos senão o amor incondicional? Ora, a mãe ama o filho/filha não porque ele ou ela têm estas ou aquelas qualidades, não pelo que são, mas pura e simplesmente porque são.Também deste modo encontramos uma boa imagem para Deus.
O espantoso na mãe é que ela continua ela, mas, grávida, há nela, sem deixar de ser ela, lugar para o outro dela - o filho ou a filha -, e, ao longo da vida, ao mesmo tempo que eles podem sempre contar com ela o que ela quer é que eles sejam eles. São Paulo foi a Atenas dizer que "é em Deus que vivemos, nos movemos e existimos". É em Deus que somos, tudo é em Deus, mas, como a mãe, Deus quer ao mesmo tempo a autonomia das criaturas, dos homens e das mulheres."
Anselmo Borges

quinta-feira, maio 03, 2007


Curiosamente, os ecos do debate em França entre Sarko e Segolene, não apontam para questões ideológicas, políticas ou mesmo económicas e centram-se no tom de indignação desta num momento do confronto. Fala-se mesmo em “agressividade”.
Num debate decisivo para as eleições presidenciais ninguém colocaria o foco num momento mais vivo do debate se o seu interveniente não fosse uma mulher. Sarko manifestou a sua surpresa (não seria de esperar que uma fêmea humana fosse dócil?), e subjacente a esta discussão estão os habituais estereótipos sexistas.

Uma mulher é instável, emocionalmente.

Podemos colocar nas mãos de uma mulher o poder de controlar a bomba atómica?
Foto - Mulher prepara-se para ser vergastada publicamente em cumpriemnto da sharia.

quarta-feira, maio 02, 2007


Uma mutação genética do gene WKL1, do cromossona 22 parece estar fortemente associada ao aparecimento da esquizofrenia catatónica.

Outros dados recentes parecem suportar a ideia de que há uma relação entre uma inteligência elevada e os transtornos esquizofrénicos, documentada no filme mentes brilhantes.

Os investigadores examinaram uma variação comum de um gene, o DARPP-32, que faz com que a região do cérebro responsável pelo raciocínio mais sofisticado seja mais eficiente, melhorando o processo de transmissão de informações. Mas, ao que parece, esta variação está também relacionada com maior incidência de esquizofrenia nos sues portadores.

Que o aparecimento da esquizofrenia está relacionado com factores genéticos é um dado adquirido suportado por inúmeros estudos epidemiológicos. Mais recentemente, a investigação tem-se centrado na pesquisa da identificação de genes específicos que expliquem o aparecimento desta patologia, estando já identificados um conjunto de genes.
Mas a vulnerabilidade genética não explica tudo.
Por enquanto.

Na web, tudo está no mesmo plano.
Uma criança de cinco anos e uma multinacional podem interagir virtualmente num plano de igualdade. Mas esta igualdade virtual não deixa de ser isso mesmo - virtual.
Não é assim tão óbvia e definitiva, já que o território da web, movediço, paradoxal, urdido por inúmeros mapas e percursos, num hiperdocumento intemporal, tem as suas próprias armadilhas de exclusão e violência.

Um mundo volátil

"A globalização arrasta as economias para a produção do efémero e do volátil (por meio da redução em massa e universal da durabilidade dos produtos e dos serviços) e do precário (empregos temporários, flexíveis, de meio expediente)." Zygmunt.

A indústria do precário e do volátil estende-se depois ao domínio da arte, da ciência, do artesanato das ideias e, definitivamente, das relações interpessoais.

terça-feira, maio 01, 2007


Em França o ambiente é fervilhante.
Desta vez as eleições não vão apenas decidir-se nos clássicos debates televisivos.
A blogosfera turbilha e é aí, neste espaço virtual que se joga o futuro da política.

Acto falhado

O presidente do CDS/PP, Paulo Portas, afirmou esta terça-feira, na Madeira, que «o trabalho liberta», recorrendo a um dos lemas nazis mais utilizados nos campos de concentração durante a II Grande Guerra.

Os mundo imaginário de Moebius, as construções oníricas dos faunos ou a poesia em pedra.




Deus, se existe, tem qualquer coisa de Gaudi.


A forma como este desconstrói a organização geométrica espacial das linhas da arquitectura possível
e a transforma em ondulações imprevistas, conexões improváveis ou equilíbrios suspensos.

A arquitectura de gaudi lembra-me
a profusão de vida marinha nos corais.
Os Criadores divertem-se criar e a sua obra é tanto mais bela quanto o génio do seu delírio criativo.

segunda-feira, abril 23, 2007

Forum filosofia

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O discurso de Sarkozy foi muitíssimo feminino.
Apaixonante e apaixonado, num tom claramente emocional de apelo ao sentimentalismo poético, apresentou-se como o único capaz de proteger os fracos, os vulneráveis, de acolher os estropiados da vida, de dar colo aos infelizes, "aos que dão muito e não recebem nada, aos abandonados".
Um discurso de maternage em que a palavra coração associado á política, surge a cada passo.
Não deixa de ser irónico que um político tradicionalista que se degladia com uma mulher use e abuse de um discurso tragicamente feminino, em contraste coma racionalidade serena do discurso de Segolene. ( De acordo com os estereótipos socialmente dominante sobre os padrões de comportamento feminino e masculino).
Aposto que Segolene vai perder.
Por uma razão freudiana– é a mãe quem tem mais poder.

Memórias de um país salazarento



A história da carochinha, descoberta precocemente graças a um anúncio televisivo, atormentou a minha alma de criança pelo fim trágico do joão ratão.
Aliás a descoberta da história da carochinha, coincidiu com a descoberta dos ferros de engomar a carvão, graças a uma dolorosa queimadura na mão esquerda, resultante da curiosidade inocente.
Até aí, os ferros de engomar que tinha visto eram todos eléctricos e na cozinha não havia apenas mulheres.
Todas estas descobertas coincidiram com a minha chegada a Portugal, um país atrasado, escuro, sufocante e surreal, mesmo para o olhar guloso de uma criança habituada a outras latitudes.

Revolução demográfica



Silenciosa mas inexoravelmente, vamos construindo uma sociedade de gerontes.
È possível que durante este século que se inicia a esperança média de vida humana nos países desenvolvidos ultrapasse os cem anos.
Os culpados? Os avanços da medicina e das biotecnologias.
Ao contrário dos dramatismos histéricos dos “natalistas”, o grande desafio da humanidade nas próximas décadas será a explosão demográfica, que afectará o desenvolvimento económico e exercerá uma forte pressão sobre os recursos do planeta, segundo a ONU.

sábado, abril 21, 2007

A mediatização de fenómenos como o de Virgínia tem impactos a uma escala imprevisível.
O efeito de mimetismo está em geral associado á mediatização excessiva e detalhada de incidentes de violência psicótica ou suicídio.
O jornalismo deveria ter em conta estas questões éticas em vez de divulgar compulsiva e inutilmente)determinadas imagens.
Um outro problema que não é discipiendo é a situação de imigrante do autor-vítima deste massacre. È muito fácil fazer generalizaçãoes xenófobas quando a imagem visual que temos sobre o mal é um estranho, um outro.
A diferenciação étnica não é apenas simbólica.

sexta-feira, abril 20, 2007

È desta forma que Márcia Smillack “ouve” este trecho musical. Em vez de sons, Márcia percebe a música como um conjunto de estímulos visuais.
Márcia pertence ao grupo de 1 a 4% de pessoas em todo o mundo que sofrem de sinestesia,uma alteração neurológica rara que provoca uma mistura dos sentidos.
Algumas destas pessoas vêem cada número, letra do alfabeto ou dia da semana como uma cor diferente. Para outras, os sons do ambiente são percepcionados como tendo padrões geométricos visuais., ou os estímulos visuais são percepcionados como tendo cheiros característicos.
Apenas recentemente experiências imagiológicas laboratoriais com PET confirmaram que a sinestesia era uma experiência sensorial genuína.
Uma das possibilidades de explicar esta perturbação é o facto de algumas áreas cerebrais serem contíguas (por exemplo, as áreas cerebrais activadas pela visualização de números estão muito próximas de áreas cerebrais activadas pela visualização de cores). Certas experiências de “confusão sensorial” poderiam ser explicadas por um curto-circuito neuronal em áreas cerebrais adjacentes.

quinta-feira, abril 19, 2007

Quem lida com doentes mentais psicóticos, quem contacta diariamente com doentes inimputáveis perigosos internados porque cometeram crimes, não acha estranho o massacre da Universidade de Virgínia. Um pessoa portadora de esquizofrenia paranóide, num ambiente desestruturado, sem medicação ou apoios psicossociais, pode ter comportamentos disruptivos de agressividade extrema contra si mesmo ou contra terceiros.
O que é extraordinário neste caso é APENAS a facilidade com que um indivíduo com uma doença mental grave pode ter acesso a armas de guerra.
Mais facilmente do que comprar um maço de tabaco.
( Nos Estados Unidos isto é mesmo verdade).
Ou ter acesso a filmes violentos que sirvam de inspiração, como o filme norte-coreano que o atirador tentou imitar.
Aliás a exposição mediática deste incidente é perigosa - pode conduzir a outros surtos de violência psicótica num mimetismo radical.
Hoje á tarde. Unidade de Psiquiatria.

Doente para um aluno:

- Não fales mais comigo. Não és real.

O Delírio nihilista, embora raro, é uma forma fascinante de alteração de pensamento que se caracteriza por uma angustiante e persistente negação da realidade – resultante da convicção delirante de que o mundo, as outras pessoas ou a própria pessoa não existem.

A crença de que a realidade resulta de um relativismo construído ( com base na percepção sensorial, na conceptualização pura ou na representação imagética individualmente construída) colide com a ideia de que a realidade existe de per si, independentemente da forma como é apreendida e reconfigurada.

De certa forma, a ideia de que interpretação da realidade é igualmente válida seja qual for a forma da sua apreensão /reconstrução simbólica, equiparando-se num mesmo nível de validade , a experiência mística o delírio ou a experiência científica, aproxima-se do nihilismo.

Por isso a sistemática negação da validade do conhecimento científico como forma válida de interpretação inteligível do real tem muito de esquizofrenizante.

quarta-feira, abril 18, 2007

Não há questões estritamente metafísicas.

Todas as questões metafísicas ou as questões de fé podem conduzir a questões de investigação científica.

“Fenómenos” como experiências místicas intensas, a oração ou crença em Deus podem ser investigadas.

Genialidade , doença e cérebro

Genialidade e cérebro

No excelente De Rerum Natura discute-se as diferenças entre Religião, Filosofia e Ciência.
A discussão prolonga-se nas caixas de comentários ( este é um dos raros blogues em que as mensagens nas caixas de comentários atingem o nível de qualidade dos posts).
Aqui fica um exemplo:
"Era o que faltava os filósofos ou os cientistas terem de se abster de defender certas ideias porque são contrárias ao dogma religioso. Aliás, é algo hipócrita a posição de algumas pessoas religiosas a este respeito — pois caso um cientista conseguisse provar a existência do Paraíso, ou que o vinho realmente sofria uma transubstanciação ao ser benzido na missa, de certeza que os religiosos não diriam “ah, pá, isso que se lixe, é irrelevante, é de outro domínio, eu tenho a minha fé e isso das provas científicas não interessa para nada”.
O camandro é que não interessa. Só não interessa porque nunca se conseguiu provar o que as religiões declaram que é verdade sem provas.»Desidério Murcho

Na Mouche

terça-feira, abril 17, 2007

Factos

"Todas as questões filosóficas que foram respondidas foram respondidas pela ciência. É esta a relação histórica entre filosofia e ciência.
A filosofia perguntou de que era feita a matéria, o que é o espaço e o tempo, se as coisas mudam ou se a mudança é ilusória, se tudo tem causa, e assim por diante, e a ciência foi respondendo conforme foi revelando o suficiente acerca do universo para colocar estas perguntas de uma forma concreta, detalhada, e testável.
A filosofia ainda tem muitas perguntas sem resposta, acerca da ética, da consciência, do conhecimento e até acerca da ciência e da filosofia em si.
Mas em geral a filosofia coloca perguntas, não dá respostas.
Não sabemos as coisas por especulação filosófica, mas sim por investigação científica. "
Estar doente com cancro.” Não imaginava que fosse assim, tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão pouco digno como a velhice e a decadência. Tão reles".
Lobo Antunes escreveu a sua crónica de hospital com esta crueza aguda e eu reli e tresli a crónica, primeiro a julgar que era mais um naco de prosa brilhante, depois atarantada de ser tão verdade que quase podia sentir a caligrafia trémula a...
Fui rebuscar uma outra deliciosa crónica( ou a forma como um escritor nos devolve a realidade). e pus-me a relê-la noite adentro, na esperança de que....


"Somos felizes. Acabámos de pagar a casa em Outubro, fechámos a marquise, substituímos a alcatifa por tacos, nenhum de nós foi despedido, as prestações do Opel estão no fim. Somos felizes: preferimos a mesma novela, nunca discutimos por causa do comando, quando compras a «TV Guia» sublinhas a encarnado os programas que me interessam, lembras-te sempre da hora daquela série policial que eu gosto tanto, com o preto cheio de anéis a dar cabo dos Italianos da Mafia.
Somos felizes: aos domingos vamos ao Feijó visitar a tua mãe, ficas a conversar com ela na cozinha e eu passeio com o Indiano, filho de uma senhora que mora lá no pátio; assistimos ao básquete dos sobrinhos dele no pavilhão polivalente, comemos uma salada de polvo no café durante os resumos do futebol, e voltamos para Almada à noite, com o jantar que atua mãe nos deu numa marmita embrulhada no «Record», a tempo de assistir às perguntas sobre «factos e personalidades» do concurso em que a apresentadora se parece com a tua prima Beatriz, a que montou um pronto-a-vestir no centro comercial do Prior Velho.
Somos felizes. A prova de que somos felizes é que comprámos o cão no mês passado e foi por causa do cão que tirámos a alcatifa, que as unhas do animalzinho rasparam de tal forma que já se notava o cimento do construtor por baixo. Andamos a ensiná-lo a não estragar as cortinas, pusemos-lhe uma coleira contra as pulgas depois de uma semana inteira a coçarmo-nos sem entender porquê, passados dois dias o Fernando começou a coçar-se também e a acusar-me de cheirar a cachorro e levar pulgas para a repartição, o chefe avisou-me do fundo
- Veja-me lá isso, Antunes
de modo que pus também uma coleira contra as pulgas debaixo da camisa e o Dionísio, espantado
- Deste em cónego ou quê?
E eu, envergonhado, a abotoar o colarinho
- É uma coisa chinesa para o reumatismo, a Jóia Magnética Vitafor é uma porcaria ao pé disto
e como nas Finanças se respeitam o reumatismo e as coisas chinesas, nunca mais me maçaram.
Às segundas, quartas e sextas sou eu que vou lá abaixo levar o cão a fazer chichi contra a palmeira, às terças, quintas e sábados é a tua vez, e o que não vai lá abaixo fica à janela a olhar o bichinho a cheirar os pneus dos automóveis, com um ar sério de quem resolve problemas de palavras cruzadas que os cães têm sempre que farejam postes e Unos.
Somos felizes. Por isso não me preocupei no Sábado com o animal, muito entretido na praceta, e tu atrás dele, de trela enrolada na mão, sem olhares para cima nem dizeres adeus, a nadares devagarinho até desapareceres na travessa para a estação dos barcos. Foi anteontem. Às onze horas tirei o cozido do forno e comi sozinho. Ontem também. Hoje também. Não levaste roupa, nem pinturas, nem a fotografia do teu pai, nada.
Ainda há bocadinho acabei de gravar o episódio da novela para ti. A tua mãe telefonou, a saber porque é que não fomos ao Feijó, e eu disse-lhe que daqui a nada lhe ligavas. Porque tenho a certeza de que tu não te foste embora, visto sermos felizes. Tão felizes que um dia destes vou comprar um micro-ondas para, se chegares a casa, teres a comida quente à tua espera."

págs. 39 a 40 (1ª edição)

segunda-feira, abril 16, 2007

Brandos costumes


50 Euros foi o que rendeu o assalto que resultou na morte de uma mulher Afinal os assassinos não eram imigrantes, como toda a gente comentou quando soube do crime.
Não eram "de fora " nem eram "pretos".
Eram bons portugueses e mais, eram forcados, esse simbolismo do marialvismo luso que tanto
inebria alguns salazarentos.

sexta-feira, abril 13, 2007

Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude
.

Eugénio de Andrade
Procura a maravilha.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha
.

Eugénio de Andrade



Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser
que já é
o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O´Neill

segunda-feira, abril 09, 2007

Isto é serviço público.


Numa esplanada á beira mar neste fim de semana:

Avó a babada para o netinho de três anos, :
- Vá Miguel, cumprimenta este senhor , diz lá : Olá senhor doutor ...( nome extenso).
O citado, completamente incomodado com a situação, retorquiu:
- Que disparate, dona ( nome extenso), que frase tão complicada para um miúdo. Olha diz-me olá e pronto!


A recente polémica pretensiosa acerca do título académico do actual primeiro ministro evoca este provincianismo nacional do chapéu na mão e coluna curvada perante os senhores doutores e senhores engenheiros. Não sei se vem da nossa tradição salazarenta, esta ideia de que um que governante que se preze tem de ter um título académico sonante ( veja-se como o título de professor se conjuga bem na linguagem do politiquês)...
Esta “perseguição “ política ao currículo académico de Sócrates é tão ridícula como reveladora deste tipo de mentalidadezinha provinciana.