sexta-feira, janeiro 30, 2009

Gentes

"Os insuficientes mentais da rádio-televisão, a quadrilha dos bancos, as seitas evangélicas, os poetas, os de Braga, os actores, os engenheiros, os anais e os menstruais, os cancerosos, os que alugam barcos, os à esquerda da direita e os do avesso da esquerda, os solícitos solicitadores, os abstémios, os não-fumadores, os de Setúbal, os filhos-da-puta em geral e as mães deles em particular, os sindicalistas que não fazem boi e os bois que vão para sindicalistas, os bulímicos, os químicos, os de Abrantes, os que usam cachecol, os que usam o Estado, o estado do uso, o estudo do abuso, os coimbrinhas, os que só dão o cu mas aparecem de piça à lapela, os tónico-capilares, os bic-laranjas, os rosa-cristal, os ciganos e os cigmeses e os cigsemanas e os cigdias e os cigminuto-a-minuto, os lopes, os palopes, os motores, os promotores, os disto e os daquilo, os reformados, os reformistas, os reformadores, os formadores, os dores, os de Beja, os taxistas, os utentes, os entes, os doentes, os hirsutos, os mansos e os brutos, os anémicos, os da Pampilhosa, os que tossem, os que rumorejam, os do cinema de produção nacional, os nacionais de produção teatral, os que cortam árvores, os que rotundam, os que se arredondam, os que vendem a salvação em brasilês, os que dizem é-assim de cinco-em-5 segundos, os que dão aulas e os que faltam às aulas, os que superbockam, os que acham bem tant’auto’strada entre nenhures e sítio algum, os que amocham com o andor nas procissões, os que mesmo não sendo mulheres não têm colhões, os que tendo mulheres as deixam ir a pé a Fátima ou sabe-se lá aonde, os de Leiria, os cabeleireiros mais fêmeos do que o elástico dos soutiens, os que já redigem sutiãs, os que se pudessem não deixariam ninguém poder, os suinicultores, os que mexem nas partes dos netinhos, os netinhos, os de Tavira, os que mordem a haste dos óculos, os que bebem o vermute com o mínimo esticadinho até à unhaca de tirar cerume dos pavilhões capiloso-auditivos, os dentistas, os aut(omobil)istas, os que têm o cu virado para África, os que nos venderam a Bruxelas, os que estão em Bruxelas a vender-nos ao resto da Bélgica, os que estão em Bruxelas mas voltam, os que rogam por-obséquio, os que pedem tenhamos-a-fineza, os que nunca leram o Nuno Bragança, os que lêem o Torga, os que vomitam, os que crocitam, os que caganitam, os que gritam, os que se vêm mas não se vêem, os que compram nos chineses camisolas para levar à manifestação contra o desemprego, os secredromedários de Estado, (...)os que põem as filhas no ballet ao dispor dos pedófilos que dão Religião & Moral, os que põem os filhos na heroa, os que dolcegabanam e os que só abanam, os que confundem os canhões de Navarone com a ponte do rio Kwai, os que são mágicos, os trágicos, os que são marítimos, os histamínicos, os cómicos, os noz-vómicos, os da Covilhã, os que trocam a rata da mãe por duas embalagens de bacalhau pré-demolhado, os que são trocados pelas mães, os de Bragança, os de Silves, os do Funchal, os do Pico, os de Cantanhede, os de Viseu, os de Peniche, os de Évora, os de Aveiro, os de Pinhel, os de Newark, os de Portalegre, os de Goa, os da Trofa, os de Sacavém, os de Berna, os só-de-taberna, os de S. Paulo, os de S. Paulo de Frades, os de Oliveira de Azeméis do Hospital de Frades do Bairro, os que paulocoelham, os que siddhartam, os que se peidam que nunca se fartam, os que dizem ámen e os que amenizam, os que vertem e os que entornam, os que tornam, os que se encornam, os que se autorretratam e os que nunca se retractam, os que vêem o telejornal, os que já viram ovnis chamados ufos, os bufos, os tartufos, os alecrínicos e os manjerónicos, os que blogueiam, os que bloqueiam, os que manoeldoliveiram no pátio das cantigas, os que nunca se movem, os que se comovem, os que bradam, os que ladram, os que votaram neste cabrão mas agora juram que não, os não foram eles, os que são outros em vez deles por não ter sido o pai deles a foder a mãe deles, os que mandam nas urgências, os médicos, os que têm tétano por profissão, os que fazem do tédio negócio e os do ódio ócio, os ósseos, os seminais, os seminaristas, os sacerdotais e os chupistas, os que foram às urgências para morrer em casa, os que nascem em ambulâncias, os que nem casa têm onde cair mortos, os de Alenquer, os sibaritas, os hermafroditas, os foditas, os jesuítas, os juristas, os naturistas, os que chupam cabeças, os da bandadalém e os que ficam sempre aquém, os de Sintra, os da Madragoa, os porteiros, os parteiros, os excêntricos, os teocêntricos, os dos amanhãs-que-cantam-quando-a-galinha-tiver-cáries, os de Pombal, os que anoitecem de manhã, os que tonycarreiram, os que encarreiram, os que encarneiram, os do poder local, os do foder boçal, os que vendem meias a paraplégicos, os que ladram Deus ao domingo, os que arrolam testemunhas na esquadra de Jeová, os holocáusticos de David, os do tremoço e os da pevide, os que não comem carne de porco sabe Deus porquê, os que dão sangue mas só o do fim da borbulha, os do Estoril e eu também – tudo merda." assim escreveu o Daniel.

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