domingo, novembro 14, 2010

A realidade é sempre mais estranha que a ficção

O retrato castanho-claro castanho-escuro - que as cores já debotaram sob o sol e a humidade - trazem á tona da terra uma guidinha muito bonita, com um olhar de veludo e um penteado à anos sessenta copiado das revistas de moda. Guidinha morreu nova - ou velha, consoante a perspectiva - fulminada por um enfarte aos 57 anos quando hesitava, com grandes dúvidas existenciais se devia ou não casar pela primeira vez com o joaquim, o amor de toda a vida.
Tinham-se apaixonado quase adolescentes - guidinha a menear o deslumbramento dos olhos de veludo, menina bem, filha única do homem rico da aldeia. Joaquim era empregado do Senhor Afonso - um homem lindo, pelo menos assim o diziam as  raparigas daquele tempo - mas era apenas isso, um pé rapado, sem eira nem beira sem nada de seu, um caça-dotes.
Antes de serem separados à força - nem olhares, nem encontros, nem cartas, que isto das modernices da  internet e dos telemóveis inda não existiam e os amantes malfadados só se tocavam em sonhos e pouco mais - Joaquim e Guidinha fizeram um pacto. Casariam apenas um com o outro, quando os pais dela morressem. E o tempo da espera começou.
Cinco anos, dez anos.
Guidinha esmoreceu na casa solarenga entre rendas de enxoval, estudos, devoções marianas , actividades na igreja, aulas no liceu mais próximo, jóias e rigores de menina prendada. Estudou em coimbra - sempre  escudada pela sombra da mãe que para lá se mudou com armas e bagagens, durante quatro anos
não fosse a filha perder a honra no meio da turbulência universitária dos fins dos anos sessenta.
Quinze, vinte anos. Guidinha regressou a casa ainda mais aquietada apesar das modernices do penteado e das minisaias com botas até ao joelho. Recusou pretendente atrás de pretendente, com uma teimosia que espantou o senhor afonso, amargurado com a falta de netos.
Vinte e cinco anos, trinta anos. De vez em quando uma carta. Ás vezes notícias de conhecidos. Um dia, um telefonema furtivo a altas horas da noite, que acordou a mãezinha e lhe deu palpitações.
Trinta e cinco, quarenta anos de espera.
No dia em que a mãe foi a enterrar (já o senhor afonso apodrecia há muito no mausoléu), Joaquim apareceu no funeral. Estava velho, calvo, o abdómen distendido de excessos estomacais. E a velhice revelava aquilo que o senhor afonso antevira - um pobre diabo, sem eira nem beira, tosco, de fala entaramelada, roupa de campónio, mãos grosseiras, que olhava para a guidinha como um cão sem dono.
Solteiro ainda, cumprira o pacto. E agora vinha reclamar a noiva, o prémio, a casa solarenga, o carro da garagem, a virgindade da guidinha, tudo incluído. Tinha sido uma longa espera e a fome do amor originara uma espécie de apetite voraz.

Guidinha não aguentou o embate - morreu de enfarte na semana seguinte antes de lhe dar a resposta.

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