domingo, novembro 16, 2008

Liliana

Fico um pouco perplexa quando o vejo, disse-me Liliana, a empurrar a madeixa que lhe esconde o olhar. Parece-me velho e gasto, magríssimo, barba por fazer, a brincar com os três garotos, sem que uma única gargalhada rebente à distância. Como um cão abandonado, penso, sempre que o olho com o coração apertado, que é o mesmo que dizer como um homem abandonado.O mesmo lombo curvado, um não sei quê de desmazelo no pelo, na pele, os olhos que eram de oiro - juro que eram - colados nas órbitas à custa de muito esforço. Reparo agora que os olhos - eram doirados - lhe vão caìr da cara e rolar no chão como um artifício inútil.

Quando se cruza comigo sei o que pensa. O mesmo silêncio de antigamente quando todas as coisas eram possíveis e um enleio adolescente nos proibia as palavras.

Um ligeiro arfar de lombo, à espera de uma festa ou a antecipar um pontapé, não sei.

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