quinta-feira, dezembro 05, 2013

Segunda-feira



 
Os fiordes já estão acordados, o cabelo comprido das águas, as cascatas a golfejarem para a boca das falésias, riscos de vidro até ao mar. O verde do mar, tão fundo, tão gutural como a morte. O mar não é azul por aqui. Olha-se para a água e sabemos que é gélida, gélida como o verde mais escuro, e no entanto, temos de nos agarrar com força à amurada do barco tal é a vontade de mergulhar. Sobre a cabeça, o voo picado das gaivotas e dos albatrozes, estico o braço e posso tocar-lhe as asas imensas a branquear o azul, o marujo atira-me um berro, as gaivotas são perigosas, segura-me o braço, meio aflito, recuo, elas seguem-nos mar adentro, os braços da terra abrem rachas enormes até ao abismo, peixes ardem à superfície da água, alguma coisa ali lhes adominga as almas.
Respiro. A inocência das aluadas veredas que se estendem até ao sul. A noite demora a começar. Olhas o sol e pensas, é agora que a noite vai cair sobre ti, quatro horas passadas e o sol está no mesmo sítio, o mesmo bafo tricolor, laranja anilado, beringela doirada, um vento que tritura os ossos, as últimas gaivotas que se acoitam atrás do vento. 

Visto o casaco.


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