terça-feira, fevereiro 05, 2013

Cardeal apoia pílula do dia seguinte


Os fundamentalistas da sharia católica  recusam a contracepção de  emergencia  a mulheres vítimas de violação. .Dois hospitais católicos de Colónia recusaram-se a administrar a pílula do dias seguinte a vítimas de violação,
Isso é tão escandaloso que o cardeal Joachim Meisner,  arcebispo de Colônia e um íntimo amigo do papa, veio  a público defender a utilização  pílula do dia seguinte nestas situações. Segundo o Arcebispo, trata-se , justamente, de impedir uma fertilização e uma gravidez não desejada e não de aborto.

Mas o cardeal não se limitou a dizer que a pílula do dia seguinte é aceitável e não colide com  a doutrina católica sobre o aborto.
Pediu publicamente perdão à vítimas de violação a quem foi recusada contracepção por hospitais católicos. E disse sentir-se envergonhado pelo incidente.

Finalmente.

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

As aventuras e desventuras de Chico Agulha - 4

Passei quatro noites sem dormir no alpendre da casa, agarrado ao machado, à conta de litradas de café. A Miquelina pensou que eu tinha endoidado de vez, mas bem lá no fundo andava orgulhosa da minha súbita macheza,  na defesa do sacrossanto reduto conjugal. Voltei a ser amaridado como nunca, morcela da beira  ao jantar, pudim de ovos durante a semana, e até papas de sarrabulho me trouxe um dia para merendar. Isto e outras íntimas alegrias nos intervalos da sesta, que eu agora tinha que dormir a sesta, cansadinho das vigílias nocturnas. Nestas andanças, parecia quase recém-casado.  E tudo com o beneplácito do meu sogro Fagundes, que pelo sim pelo não, fazia rondas à vivenda armado de caçadeira.
Miquelina não tardou a espalhar as boas novas da minha valentia pela vila e arredores, à Marlene da farmácia, às colegas da fábrica, aos companheiros de comboio, à  Liliane Marise, cabeleireira. As notícias correm mais depressa que rastilho de pólvora - Chico Agulha desistiu da empreitada. Não por causa de mim ou do meu machado alpendurado às portas da vivenda, mas por causa do meu sogro.
Maus fígados  e gatilho fácil.



Personagens

A sociedade que cerca esses personagens — o formalismo oficial (Acácio), a beatice parva de temperamento irritante (D. Felicidade), a literaturarinha acéfala (Ernestinho), o descontentamento azedo e o tédio da profissão (Juliana), e às vezes, quando calha, um pobre bom rapaz (Sebastião). Um grupo social, em Lisboa, compõe-se com pequenas modificações, destes elementos dominantes. Eu conheço uns vinte grupos assim formados. Uma sociedade sobre estas falsas bases não está na verdade: atacá-las é um dever  (...)  Merecem partilhar com o Padre Amaro da bengalada do homem de bem.

Eça de Queirós in Correspondência. Porto: Lello & Irmão Editores, 1946: 43

A minha prima Vanessa

 Esta semana, a minha prima Vanessa pôs uma fotografia no Facebook com uma cara completamente nova. Não a via há mais de dez anos, desde que emigrou à pala do amante, para se dedicar a trabalhos não especificados na área da hotelaria. No princípio não a reconheci, nariz esguio e perfeito, lábios insuflados, silicone, rosto alisado de boneca, testa de ninfeta, sem qualquer imperfeição e a inevitável cabeleira  de quarentona. Loira.
Fiquei pasmado, a olhar a foto do perfil, uma e outra vez. Os olhos esbugalhados de botox têm  a mesma cor de amêndoa clara da nossa meninice. Tudo o resto está fabricado, retocado, a beleza fulgurante que ela tinha está reduzida a um outro tipo de beleza. A beleza das modelos de revista, das meninas da TV, das quarentonas mais ou menos esticadas. Não sei porquê  mas  a beleza da minha prima Vanessa deixou-me o coração triste. E só por isso respondi que sim ao seu pedido no facebook. Não parece, mas sou um rapaz romântico. Xaroposo, quase.

domingo, fevereiro 03, 2013

sábado, fevereiro 02, 2013

As aventuras e desventuras de Chico Agulha - 3 parte

Apanhei o comboio, rodeado da clareira habitual. Pelo caminho, entre árvores caídas, contornos de rio, restos de campos abandonados, paisagens de aldeolas, fui pensando num plano. Falar com a Miquelina estava fora de questão, avisar a polícia nem pensar. Tinha que pedir ajuda ao velho.O meu sogro Fagundes era um homem tosco,  desses de honradez antiga, sacho numa mão, caçadeira na outra. À sua moda  continuava a zelar pela filha, a guardar-lhe a casa e o quintal quando íamos de férias para Pedrogão, e a vigiar-me a mim, o animal, sem me deixar pôr o pé em ramo verde. Miquelina, já se sabe, acolitava o pai em tudo o que fosse apoquentar-me.
Hora e meia depois desci na estação, mirrado de maus agoiros. A cara do Tó Sida, todo ele chupado, maus dentes,  olhinhos amarelados de rapina,  a falar-me dos LPs, dos cristais atalantis, do busto de cobre,  da televisão. Não era a minha casa, era  um cardápio de saque.
Rodei nos calcanhares e fui falar com o Fagundes. Contei-lhe quase tudo, na minha aflição. Os seus olhos azulados, dum azul sujo, brilhavam de indignação. Sem uma palavra, foi lá dentro e apareceu nas escadas com a caçadeira carregada. Toma, leva p´ra casa.Já sabes o que acontece se alguém faz mal à minha filha. Titubeei, engoli em seco, humilhado como um cão. Odeio armas, nunca disparei nenhuma, um bacamarte daqueles de nada me serviria. O Fagundes  maldisse a minha cobardia de rapazola frágil que nem  à tropa foi, um artista, já se sabe no que dá, voltou  lá dentro e trouxe um machado, desses de partir lenha e deitar árvores abaixo. Tomei-lhe o peso. Se eu não sabia usar uma caçadeira, podia sempre desferir umas machadadas. Sosseguei o velho, rachar lenha sabia eu,  e se visse alguém agarrado aos meus discos de música electrónica era bem capaz de lhe arrancar um braço. Voltei a casa, impante, com um machado aos ombros, quase do meu tamanho. A meio do caminho,  desabou  uma grossa chuva oblíqua, vergastada de vento, que me deixou estonteado, agarrado ao casaco, enrodilhado na borrasca. Sentei-me à porta de casa com o resto da chuva a escorrer-me na cara, ainda  atordoado, queixo poisado no cabo do machado,  inabalável. 
O Chico Agulha que viesse.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Aventuras e descenturas de Chico Agulha 2

A minha vida começou a andar para trás. Já não me bastavam as desconfianças de Miquelina, enfurecida pelos dichotes da vizinhança e pelos cacos do galgo de porcelana. Deixou-me à míngua por quase duas semanas, nada de pitéus nem  moelinhas ou outras lambuzices. 
Com muita lábia, músicas do Tony Carreira, um perfume sugerido pela Mónica da reprografia, lá acabei por a convencer que não era nenhum dealer, que ideia parva, eu, que, juro pelas alminhas, nunca toquei em droga e me enjoo com cigarros...
Andava Miquelina já amolecida, a olhar p'ra mim suspirosa, apiedada do meu ar de cão batido, quando o Tó Sida me foi procurar à saída do emprego. Vinha encolhido como sempre, casaco de coiro preto a tapar os braços mais esburacados que honra de político.  Man, sou teu amigo, tenho que  te avisar.. ..
E foi assim que fiquei a saber que Chico Agulha, curado da ressaca e revigorado do tratamento de desintoxicação, andava outra vez nas ruas. E que tivera um assomo assombroso de memória. Falava, ao pormenor,  do interior da minha vivenda, as taças de cristal atlantis da sala, a colecção rara de LPs de música sinfónica, o busto de bronze na entrada, o televisor novinho em folha  usado para ver o jogo de futebol. E o  desgraçado fazia planos com os amigos, apreçava objectos, propunha trocas.
 Era garantido, não tarda nada ia assaltar-me a casa.

Isto não é coincidência.

Há um Adolfo neste governo.

Do amor

"Se a grande preocupação do nosso tempo fosse o amor — ainda admitiríamos que se arquivasse, por meio das artes da imprensa, cada suspiro de cada Francesca. Mas o amor é um sentimento extremamente raro entre as raças velhas e enfraquecidas. Os Romeus, as Julietas (para citar só este casal clássico) já não se repetem nem são quase possíveis nas nossas democracias, saturadas de cultura, torturadas pela ânsia do bem-estar, cépticas, portanto egoístas, e movidas pelo vapor e pela electricidade. Mesmo nos crimes de amor, em que parece reviver, com a sua força primitiva e dominante, a paixão das raças novas, se descobrem logo factores lamentavelmente alheios ao amor, sendo os dois principais aqueles que mais caracterizam o nosso tempo: o interesse e a vaidade. Nestas condições, o amor que voltou a ser, como na Grécia, um Cupido pequenino e brincalhão, que esvoaça, surripiando aqui e além um prazer fugitivo — é removido para entre os cuidados subalternos do homem, muito para baixo do dinheiro, muito para baixo da política... É uma ocupação, sem malícia o digo, que se deixa para quando acabar o dia verdadeiro e útil, e com ele os negócios, as ideias, os interesses que prendem. «Já não há hoje nada de produtivo a fazer? Já não há nada de sério em que pensar?... Bem! Então, um pouco de perfume nas mãos, e abra-se a porta ao amor que espera!» A isto está reduzida a Vénus fatal e vencedora! "


Eça de Queirós, in 'A Correspondência de Fradique Mendes