quinta-feira, novembro 08, 2012

Em Novembro

Bruna nasceu em Novembro. Desde que se lembra de festejar aniversários que acha este acontecimento extraordinário, uma espécie de prenúncio de  exaltadas odes. Novembro não é um mês qualquer. É o mês dos mortos, dos invernos, do regresso das aves às casas, das matanças de animais para as arcas salgalheiras. O mês dos agoiros, das bruxas brancas, dos blocos de madeira na cave. Novembro é o mês dos vapores etílicos, de fazer  compotas açucaradas que enchem a casa de sabores antigos.

A direita que temos

"Passos Coelho não mereceu do PSD sequer a confiança mínima para ser deputado em 2009.
Em 2011, foi ele quem abriu uma crise política no pior momento possível para Portugal.
Foi ele quem saudou como uma vitória a chegada de estrangeiros para meterem os indígenas na ordem. Foi ele quem falhou por completo o cumprimento do Memorando em 2012.
É ele quem anuncia para 2013 o aumento celerado da pobreza e da miséria. É ele quem pretende acabar com o modelo social que foi reunindo ao longo de 30 anos o consenso dos partidos democráticos e da comunidade. Foi ele quem já anunciou pretender fazer não se sabe o quê à Constituição. Este fulano, que nada produziu na vida para além de ter estado à espera do momento certo para ir ao pote, tem como braço direito no Governo e no carreirismo o dr. Miguel Relvas, lambe o chão que António Borges pisa, obedece sem piar a Vítor Gaspar e consta estar a ser aconselhado por Dias Loureiro. Ninguém, nem o mais criativo escritor de romances fantásticos, podia ter imaginado que Portugal viria a cair nesta aberração. "


quarta-feira, novembro 07, 2012

Bibliofilia

Assim que aprendi a ler tornei-me uma devoradora compulsiva de livros. Uma autêntica bulímica de literatura, uma viciada em letras. Literalmente. Não consigo passar sem ler. A minha avó afligia-se, entrava-me no quarto de madrugada a apagar a luz e tirar-me livros das mãos. O meu avô fechava livros do salão à chave. Aos 12 anos já tinha consumido os clássicos portugueses. Atirei-me aos franceses. Com 13 anos já tinha digerido Balzac, Victor Hugo e Zola. Depois atirei-me ao Tolstoi. Em casa só havia uma versão francesa, La Guerre et la Paix . Não sei como me atrevia. E Dostoievski. E Stendhal.
Ao vinte anos tive pela primeira vez uma estranha sensação.

Não havia mais nada para ler.

Obama the best

Com a eleição de Obama, o mundo civilizado respira de alívio.
A alternativa não era apenas a imbecilidade económica, o conservadorismo anedótico, o  racismo, a misoginia ou o  terrorismo neoliberal.
A alternativa era eleger um indivíduo tão burro que quer que se abram as janelas do avião.
"When you have a fire in an aircraft, there's no place to go, exactly, there's no -- and you can't find any oxygen from outside the aircraft to get in the aircraft, because the windows don't open. I don't know why they don't do that. It's a real problem." –Mitt Romney, suggesting it would be a good idea to crack a window at 35,000 feet, Beverly Hills fundraiser, Sept. 22, 2012.
Um gajo que diz isto ( em público e no meio de um ambiente de escrutínio eleitoral) deve ter controle sobre o maior arsenal nuclear , químico e biológico do planeta terra?


Pornochic

Ermelinda gostava de lupanares. A solidão era longa, a fome negra, em janeiro acordava gelada na sua cama, onde ocupava invariavelmente o lado direito. Do lado esquerdo a colcha imaculada permanecia lisa, os bordados dos lençóis sem qualquer vinco,  a almofada onde ninguém poisara a cabeça, jazia incólume. O lado esquerdo da cama era a fronteira do seu desvario.
Por isso mesmo, toda gente sabia,  sempre que a via saír com a melena armada e verve de  possidónia, que ia dar um passeio higiénico ao lupanar mais próximo. Adorava ginginha, da mais rasca, conversetas de fim de dia, decotes adiados. Sempre que podia deleitava-se em menage a trois. E as combinações eram sempre invulgares. Eles um bocadinhos zarolhos,  de canelas esticadas, elas velhas airosas a bambolear coxedo, e um ou outro efebo, mais ou menos solícito, a  abrilhantar a performance de intelectuais da noite. 
 De caminho, mais consolada,  Ermelinda passava pela igreja onde se persignava vinte vezes antes de rezar um pai nosso. Em latim, pois claro.
E  nessa noite dormia sempre no lado esquerdo.
Da cama.

Das palavras

Hoje imagino as palavras de inúmeras

Linguagens subitamente livres
Depois de uma longa clausura
Na fortaleza da gramática, de repente revoltada,
Enlouquecida pelo cunho
Do obsoleto poder militar.
Elas ultrapassaram os constrangimentos da frase
Para procurar a livre expressão num mundo sem inteligência,
Quebrando as cadeias do bom senso, do sarcasmo
E do ridículo do decoro literário.
Assim liberta as suas ridículas
Posturas e os seus gritos apelam unicamente ao ouvido.
Elas dizem, «Nós que nascemos da tempestuosa sintonia
Da primeira exalação da terra
Entrámos em nós próprias logo que o sangue palpitou
Levando a negligente vitalidade do homem a transformar-se em dança
[na sua garganta.

(in «Poesia», de Rabindranath Tagore - com selecção e tradução de José Agostinho Baptista),
Assírio & Alvim, Maio 2011, 2.ª edição

domingo, novembro 04, 2012

Catástrofe

Clara Ferreira Alves, hoje, no Expresso, tem uma crónica de uma acutilante limpidez. Estamos na linha de um tsunami, mais nada. Daqui a décadas haverá palavras e teorias para explicar o que estamos a viver.

No princípio era o verbo

 A escuridão definitiva deve ser um lugar assustador.  Para quem é cego de nascença toda a luz é ruído. No entanto há pequenos oásis. Jorge tem a música e o piano. Teresa tem  a rádio, ou seja as palavras.
Como diz Teresa, "é muito bom que quem possa visualizar imagens o faça, mas sem nunca esquecer que por vezes um conjunto de palavras podem dizer, efectivamente muito mais do que uma simples imagem".  A frase é muito bonita e reconduz-nos ao essencial.

As palavras portanto. 
O  som e a  luz dos olhares.





sexta-feira, novembro 02, 2012

Estado de guerra

Ando viciada numa  série televisiva que vejo , em regra, de madrugada.Walking Deads é uma história apocalíptica em que a humanidade desaparece e os próprios sobreviventes vão perdendo a sua própria humanidade. Uma metáfora sangrenta para os tempos que correm.
Tenho esta consciência aguda de  estado de alerta antes do desastre - vemos a onda ao longe, sabemos que nos vai submergir, pensamos em refúgios, subidas a montanhas, mas ao mesmo tempo sabemos que já não há tempo.
Ao nosso lado, as crianças e os velhos brincam na praia e lá ao longe a onda avoluma-se.

Estado de guerra

Enquanto lutamos diariamente por manter a inteligência crítica e a capacidade de pensar em liberdade.