domingo, novembro 11, 2012
Lida numa caixa de comentários
"Eu lembro-me 'dos pobres' em frente à casa do meu avô a rezar e a gente a acabar de almoçar tranquilamente a ouvi-los lá fora. Lembro-me de ser pequeno e ouvir aquela choradeira que me incomodava enormemente ao ponto de, ainda hoje, me lembrar disso, volvidos 40 anos.
- Vai lá deolinda. Dá-lhes isto e aquilo.
Quando o meu avô ia à varanda levava-me com ele e eu via aquelas dezenas de pessoas lá fora, a rezar - à espera.
E estava lá entre eles o paulo e o zé manel com quem eu brincava. Eles estavam do lado de lá. E escondiam-se no meios das pernas dos adultos. Pobres, todos eles. Eu olhava para os meus amigos e eles para mim e acenava-lhes e eles a mim.
Odeiei esses tempos. O azar do berço de uns. A sorte de se ter nascido ali ou acolá determinava a vida futura. Ainda hoje olho para o paulo e para o zé manel e penso que nunca tiveram as mesmas oportunidades do que eu. O paulo é soldador de alfaias agricolas o zé trabalha numa empresa de construção - conduz as maquinas das obras. Esses tempos não eram bons para a maioria das pessoas. ao contrario do que querem alguns fazer passar. Não tinham dividas, mas tinham muito pouco."
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Aviso
“Este não é o país que jurámos. O país que jurámos é um país que tem na sua Constituição o direito à habitação, o direito à saúde, o direito ao trabalho, o direito ao ensino. Mas muito mais do que isto, o direito fundamental à alimentação. Não admitimos a fome como resposta ou alternativa a uma qualquer medida de ajuda. (…) Amigos, camaradas de armas, cidadãos e cidadãs portugueses. esta é a voz dos que se honram de servir nas Foraçs Armadas. Esta é a voz daqueles que não se acomodam a quaisquer prebendas ou promessas de cargos, quaisquer que sejam. Esta é a voz dos daquelesa que juraram , perante vós e perante a bandeira nacional, cumprir e fazer cumprir as leis desta republica e guardar a sua constituição, se necessário com o nosso bem mais precioso. Se necessário com a nossa própria vida.”
Militares, ontem
sexta-feira, novembro 09, 2012
"No actual modelo de Estado social que temos, não existe qualquer ligação entre o que se paga e o que se recebe. Paga quem pode para ser usado por quem precisa. Não é necessariamente lógico, mas é justo. A escola pública é financiada pelos impostos dos portugueses e não apenas pelos pais dos alunos. Aliás, muitas das famílias com alunos na escola não chegam a pagar impostos porque não têm rendimentos para isso. Deste modo, quem não tem filhos está a ajudar a educar os filhos dos outros. Mas tem uma vantagem indirecta muito importante: é melhor viver entre pessoas educadas do que o contrário. O mesmo raciocínio se aplica aos cuidados médicos prestados pelos hospitais públicos. Há quem, por força do seu salário elevado, pague muito para financiar o Serviço Nacional de Saúde e que, por força da sua saúde, não tenha necessidade de o utilizar. Ganha quem não tem saúde, mas que seguramente trocava este ganho pela saúde que não tem. Nas prestações sociais, é igual. Quem tem emprego, paga o subsídio de quem não o tem. Quem tem saúde, paga o subsídio de doença a quem não a tem. E quem tem idade para trabalhar, paga a pensão de quem já não pode – ou pelo menos não deve – trabalhar. A isto chama-se solidariedade social. Solidariedade entre pobres e ricos; entre velhos e jovens; entre doentes e saudáveis. Individualmente, só uma parte é que ganha com isso. Globalmente, ganhamos todos enquanto cidadãos e portugueses porque temos uma sociedade mais igualitária, equilibrada e segura. Esta solidariedade social, que com os tempos deixámos de valorizar e reduzimos a um simples chavão, é uma das realizações mais bonitas que os portugueses conseguiram fazer em 36 anos de democracia. E que corre o risco de ser desfeito em apenas quatro anos de Passos Coelho. "
Manuel Esteves
Lido numa caixa de comentários
Como é que um Salazarista chapado pode ter sensibilidade com o sofrimento dos outros?. Devia ter coragem para dizer que sempre que os trabalhadores se queixavam com fome eram espancados e presos por a GNR.Já lhe disse a ele que também sou Alentejano e sei muito bem como as coisas se passavam.Como pode alguém que defende acerrimamente os latifundiarios dos campos do Alentejo ter sensibilidade com o sofrimento dos camponeses?Assisti a situações deste tipo. A miséria era de tal ordem que as pessoas nem dispunham de dinheiro para comprar meio litro de petroleo para cozinhar, juntavam-se em grupo e iam "roubar" lenha (as mulheres geralmente) , chegando por vezes a percorrer varios Kms. Cada latifundio tinha sempre um couteiro montado num cavalo munido de uma espingarda vigilante de dia e de noite, o malandro deixava as desgraçadas fazer o feixe de lenha, quando chegavam à saida da propriedade barrava-lhe o caminho, obrigava-as a irem meter a lenha de onde a tinham tirado, juntava os feixes de lenha num monte e dava-lhe fogo, nem as cordas deixava tirar . Eram situações que aconteciam diáriamente.
Outra situação que jamais esquecerei embora fosse muito novo, no ano da revolta por a jornada de trabalho das oito horas de trabalho, houve um criminoso (não tem outro nome) que combinou com o pessoal que dava as oito horas, depois recusou-se. Apenas um trabalhador tinha relogio, disse aos outros que estava na hora de sair e foi-se embora, sairam todos atrás dele. O resultado foi que levou uma tareia no posto da GNR e passou nove meses em Caxias.... o teu Alentejo não era diferente do meu, a fome a miséria o atraso e a opressão eram endemicos em todos os cantos.
Lê o José saramago em "Levantado do Chão" é a realidade nua e crua daquilo que se passava
Jonet et les brioches
A intervenção de Jonet foi infeliz. Muito. No entanto ela falou com sinceridade, sem qualquer malícia. Aquela sinceridade tão própria dos muito ricos para quem a pobreza é mais coisa estatística e contabilística do que realidade vivida. Jonet falou a partir dos seus próprios pressupostos existenciais, tão bem retratados nesta crónica de Lobo Antunes. O que explica que, para Jonet, ser pobre se reduza a não comer bife todos os dias da semana. Qu'ils mangent de la brioche.
A intervenção de Jonet foi mais do que infeliz. Foi pouco inteligente. Esqueceu-se que quem fornece de bens a instituição que lhe dá protagonismo mediático, entre outras coisas, não são os ricos. São os pobres. Quem lhe enche os armazéns de toneladas de comida não são as cadeias de hipermercados ou os mecenas da alta finança. São os velhos reformados, que compram o litro de azeite e o deixam no carrinho, a pensar que amanhã podem ser eles a precisar. São os funcionários públicos medianos, que largam a lata de salsichas porque isso lhes consola a lusa alma de tantas aflições quotidianas, com o pensamento intimo - há quem esteja pior que eu. São as jovens mães a fazer contas de fim do mês e se compadecem de haver outros meninos que nem os delas com falta de leite e escolhem o pacote de marca branca mais barato e enfiam-no no saco. São aqueles mesmo muito pobres que ganham o ordenado mínimo, mas que são boa gente, daquela gente que já não há e que deixam nos cofres de Jonet o pacote de bolacha maria envergonhado. São as mulheres a dias que mal ganham para o que comem , mas que arranjam uns trocos para a compadecida lata de atum.
E são esses que sabem que, se de hoje para amanhã forem bater à porta do banco alimentar contra a fome, não é por causa de comerem bifes todos os dias, nem por causa da aguinha para lavar os dentes e muito menos por causa dos concertos de rock.
E foi essa gente toda que a Jonet insultou.
Los que no están
«Para las almas los cuerpos valen oro. Pero es un oro carnal, de ruido tibio, un oro en trazos y fibras, oscuro, más oscuro que la muerte que lleva y devuelve las almas a su origen, la muerte como un mar que las devora.
Los cuerpos flotan.Sin la muerte, un cuerpo es más grave que su sombra. La muerte los levanta, los madura, hace de los cuerpos un sueño irrepetible en el que el deseo encuentramaterias claras para hacer la casa.La casa se levanta y se derrumba, pero los trozos esparcidos son duras gotas del agua del deseo, humedecen la vida que les falta."
De "Umbría" 1999
Fico cheia de inveja quando leio isto. Merda, estou tão aquém. Gostava de escrever assim. E tem que ser lido em espanhol, em português não é igual.
Los cuerpos flotan.Sin la muerte, un cuerpo es más grave que su sombra. La muerte los levanta, los madura, hace de los cuerpos un sueño irrepetible en el que el deseo encuentramaterias claras para hacer la casa.La casa se levanta y se derrumba, pero los trozos esparcidos son duras gotas del agua del deseo, humedecen la vida que les falta."
De "Umbría" 1999
Fico cheia de inveja quando leio isto. Merda, estou tão aquém. Gostava de escrever assim. E tem que ser lido em espanhol, em português não é igual.
quinta-feira, novembro 08, 2012
"El amor de los locos
"Un loco es alguien que está desnudo de la mente. Se ha despojado de sus ropas invisibles, de esas que hacen que la realidad se vele y se desvíe. Los locos tienen esa impudicia que deviene fragilidad y, en ocasiones, belleza.
Andan solos, como cualquier desnudo, y con frecuencia también hablan solos («Quien habla solo espera hablar con Dios un día»). Más difícil que abrigar un cuerpo desnudo es abrigar un pensamiento. Los locos tienen pensamientos que tiritan, pensamientos óseos, duros como la piedra en torno a la que dan vueltas, como si se mantuvieran atados a ella por una cadena de hierro de ideas.El cerebro de un pájaro no pesa más que algunos gramos, y la parte que modula el canto es de un tamaño mucho menor que una cabeza de alfiler, un infinitésimo trocillo de tejido, de materia biológica que, con cierto aburrimiento, los sabios escrutan al microscopio para descifrar de qué manera, en tan exiguo retazo, stá escrita la partitura. "
Rafael Courtoise
Soneira
Nunca consegui ler o josé rodriques dos santos. É tão basico, tão previsível e tão sonolento que não consigo passar das primeiras páginas.
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