sexta-feira, janeiro 19, 2007

Uma questão de confiança



«Fala-se e sugere-se que as mulheres decidirão abortar por questões fúteis, por dá cá aquela palha. A construção do género, construção social que se vai fazendo desde o nascimento e que define identidades, comportamentos e papéis sociais, há muito que decretou que as mulheres não são de fiar. Houve tempos em que nem se podia ouvir o seu testemunho em tribunais, as juristas, formadas em faculdades portuguesas, não podiam defender casos em tribunal e seguiu-se, já no regime de Salazar, a proibição da sua entrada na carreira de juízes.

Estas condicionantes históricas mais óbvias, somadas a outras ainda anteriores, foram formando uma representação do feminino que lhe tira dignidade e o respeito do outro. Assim se constroem estereótipos, que só eles explicam a continuada atitude da crença na irresponsabilidade das mulheres. Sendo fúteis, incapazes de decidir com racionalidade, inseguras, frágeis, emocionais e medrosas, a sua decisão não é credível, alguém deverá decidir por elas: por isso se criaram as comissões de ética em vários estabelecimentos de saúde que decidiam se as mulheres podiam ou não abortar, mesmo que a sua interrupção de gravidez fosse legal. [...]

Foi Adão e Silva que muito recentemente disse que, quando o Homem não decide, deixa de ser um cidadão e passa a ser um servo. Será que isso se aplica às mulheres? Quem deverá decidir então? »

Madalena Barbosa, Público, 04-01-2007

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