terça-feira, março 31, 2009

Pela vida, contra a ignorância e o preconceito

"Tiago (nome fictício) mora da zona Oeste da Madeira e descobriu o Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH/sida) logo aos 18 anos. Residente na zona Oeste da ilha da Madeira, Tiago, hoje com 30 anos, teve uma infância problemática. Cresceu numa casa modesta, no seio de uma família desestruturada e bebia para esquecer as crises. "Ainda vivia com os meus pais quando soube que era seropositivo, mas não lhes disse nada". Guardou segredo durante quatro anos, período em que segurou a vida sem que nunca o Hospital lhe oferecesse a possibilidade de ter apoio psiquiátrico. Cresceu com sida, mergulhado numa depressão profunda e medicamentando-se às escondidas. Hoje, garante que não sabe como foi contagiado com o VIH. ""Estava a meio de uma aula a tocar, como que a enrolar o cabelo, quando, de repente, olhei para o caderno e vi um monte de cabelo. Foi um choque". Diz que a partir dessa aula do 10.º ano o seu comportamento mudou completamente. Da falta de concentração, passou a irritar-se por tudo e por nada e a transformar-se num rapaz problemático, indisciplinado e sem aproveitamento escolar. Viveu seis meses na ilusão, até que a mãe detectou sinais da sua insanidade mental e decidiu procurar apoio psiquiátrico. "A minha mãe marcou uma consulta na Clínica da Sé. Na altura custou 7.500 escudos". Tiago confessou ao psiquiatra a razão de toda aquela agitação juvenil: era seropositivo e vivia o drama sozinho e escondido do mundo. (...) O facto de ser seropsitivo valeu-lhe sacrifícios no relacionamento social e afectivo. Aos 24 anos, chegou a estar noivo durante 18 meses mas, quando toda a família o empurrava para casar, Tiago recuou. "As relações sexuais sempre foram protegidas, mas não estava disposto a expô-la a esse risco". O sonho da companheira em ter filhos, de amamentá-los, fê-lo procurar uma solução no Hospital do Funchal. "Pedi para fazerem uma análise de contagem do vírus no esperma e expliquei que estava a pensar ter um filho, mas disseram-me que o meu pedido foi negado porque era muito caro". De uma vez por todas, pôs de lado o sonho de constituir família. 'Rompeu' o noivado e entregou-se à depressão, fazendo despertar o vírus.

Pela Vida

"Dito isto, subscrevo no entanto as palavras na Mensagem de Quaresma de D. Ilído Leandro, Bispo de Viseu, «…, quando a pessoa infectada não prescinde das relações e induz o(a) parceiro(a) (conhecedor ou não da doença) à relação, há obrigação moral de se prevenir e de não provocar a doença na outra pessoa. Aqui, o preservativo não somente é aconselhável como poderá ser eticamente obrigatório.»D. Ilídio começa por apoiar o Santo Padre explicando-nos «O Papa, quando fala da SIDA/AIDS ou de outros aspectos da vida humana, não pode fazer doutrina para situações individuais e casos concretos.» […] . Será falta de hábito e de cultura da exigência e da honestidade, numa sociedade tão relativa, tão mínima e tão pouca ambiciosa e coerente na defesa das pessoas e dos seus valores? Será tão fácil o escândalo farisaico de quem não sabe interpretar as diferenças entre valores e princípios gerais, por um lado e situações concretas e pessoais, por outro?»

«Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior que estes.» (Mc 12,31)«Eu mesmo lhe hei-de mostrar quanto ele tem de sofrer pelo Meu nome.» (Act 9, 16)"

Um Bispo a Favor da Vida

"D. Ilídio Leandro, Bispo da Igreja Católica, defendeu o uso do preservativo pelas pessoas portadoras do vírus da Sida. Mantém tudo o que escreveu e vai mais além ao defender o divórcio nos casamentos em que um dos cônjuges é vítima de violência doméstica."

Pela Vida, Contra a Ignorância e o Preconceito

"Resposta Aberta à Carta ao Bispo de Viseu do Pe. Nuno Serras Pereira

Caro Pe. Nuno,
No seu amor à Igreja e ao Senhor, toldado, neste caso, pela paixão exacerbada, incorre no gravíssimo erro de compartilhar as ideias do relativismo e dos maçons ao pretender remeter o papel da Igreja ao seu foro íntimo, quando escreve “a Igreja não tem que dizer-lhes que não usem o preservativo, mas não pode de modo nenhum aconselhá-las a que o usem”.
NÃO, a Igreja tem a obrigação e o dever de se envolver em tudo que à vida dos cristãos diz respeito.
Erra, ofende e não pratica a virtude cristã da caridade, quando reduz todos os seropositivos aos homossexuais e aos promíscuos; pergunto-lhe aonde coloca aqueles, e que são bastantes, que se infectaram pela via sanguínea?
Aonde coloca aqueles, infelizmente mais frequente serem aquelas, que casados são infectados devido à infidelidade do conjugue? "

Silêncios

"Na igreja de Yamaguchi, no alto da colina, assistia à missa uma simpática anciã que jamais faltava aos domingos, com seu kimomo à moda antiga. Transpirando no verão e protegendo o pescoço no inverno, subia, em passitos curtos, a encosta para que chegasse sempre antes do início da missa. No fim, sempre alguém lhe oferecia boleia para descer, mas ela sempre recusava. Um dia explicou-nos porquê. “Prefiro descer pela encosta da colina que vai dar ao jardim do templo budista. Ali, a meio caminho, sento-me e respiro fundo à sombra das árvores. Ali, entre a paz e o silêncio daquelas árvores centenárias, é que verdadeiramente se encontra a Deus...”. “E – acrescentou logo de seguida– “libertamo-nos do cansaço da missa e do sermão...”. Perante o nosso desconcerto, concluiu: “É que na missa, –vocês bem o sabem– há tantas palavras seguidas... são tantas as palavras...!”

"O equivalente japonês do termo latino lente festina, [«apressa-te devagar»], diz-se de modo parecido: “se tens pressa, vai dar uma volta”. Em castelhano, dizemos: “vísteme despacio, que tengo prisa” ou “no hay atajo sin trabajo”. Na tradição do artesanato japonês fala-se de “atitude de artesão” como de um estilo e modo de trabalhar próprio de quem põe nisso toda a sua alma, gastando tempo em cada detalhe da sua obra, produzindo cada objecto como se fora exemplar único... Recordo a conversa com um jardineiro de uma vila de recreio imperial no norte do Japão. “Vê estes pinheiros todos retorcidos?”, dizia-me ele. “A sua mais bela imagem é a que oferecem quando se vergam, sem quebrar-se, ao peso da neve”. “Não precisam de estacas?”, perguntei-lhe. Explicou-me: “Custou muito esforço e muitos anos até se conseguir uma curvatura como a deste ramo. Desde que o pinheiro começou a crescer, foram podando-o com habilidade. Se o ramo está comprido demais, cairá ao peso da neve; se ficar muito curto, não produzirá um efeito tão belo”. Diante do meu espanto mudo, o jardineiro ria-se e repetia-me: “É tudo uma questão de fazê-lo devagar, senhor; dar tempo ao tempo e... muita paciência”.Não se acelera o crescimento duma planta puxando-a com força para cima: assim, só conseguiríamos arrancá-la e desenraizá-la.

Todo o organismo vivo tem seu ritmo. O espírito do taoismo só tem que se sintonizar com o Tao, caminho que a tudo orienta. “Deixa que tudo siga o seu curso natural”. Estamos convidados, assim, a abandonar o nosso egocentrismo, a viver em comunhão com a natureza e a descobrir o Caminho no prosaico e no quotidiano, enquanto caminhamos... lentamente.

Para a atitude ocidental da pressa e da aceleração é dificilmente aceitável o convite taoista ao «não-actuar». Provoca rejeição, pois parece que se trata de não fazer nada e deixar-se de braços cruzados. Mas não é. Pelo contrário, trata-se de nos conscientizarmos do muito que se pode fazer deixando que isso se faça por si, deixando estar as coisas aí e deixando passar os acontecimentos. Sobretudo, deixando que as pessoas sejam..."

in, Caminos Sapientiales de Oriente, por Juan Masiá Clavel, SJ, Ed. Desclée De Brouwer, 2002.

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Delírios místicos

"Kroll e Sheehan (1989), num estudo de 52 doentes com patologia psiquiátrica grave, verificaram que 70% dos pacientes esquizofrênicos e 55% dos pacientes com diagnóstico de episódio maníaco referiam ter tido experiências religiosas pessoais únicas e excepcionais.
De entre os doentes diagnosticados em esquizofrenia, 60% afirmavam que Deus falava através de si e 20% afirmava que estavam em comunicação com Deus ou espíritos. Dos pacientes maníacos, 46% referia as mesmas convicções."
Kroll J, Sheehan W. Religious Beliefs and Pratices Among 52 Psychiatric Inpatients in Minnesota. Am JPsychiatry 1989;146:67-72

A religião é o ópio do povo

Alguns admitem o consumo, outros limitam-se a exprimir os sintomas...

O meu blogue tem sido alvo de alguns destes doentes, comentadores compulsivos com todo o tipo de delírios, que tenho de apagar.

É verdade que a crise aumenta a incidência de algumas patologias, mas parece-me óbvio que os refúgios no misticismo não resolvem a psicopatologia de base, antes a agravam.

Curiosos são os estudos em que se observa uma relação estatisticamente significativa entre a pertença a uma determinada confissão religiosa e certos quadros psiquiátricos. Os católicos aparecem claramente em desvantagem face a outras religiões.

Pela vida,contra a ignorância e o preconceito

"Só a mulher e os dois filhos sabem que tem VIH. Anda há 18 anos a escondê-lo. Tem irmãos com quem se dá bem, sobrinhos - ninguém sabe. “Não tenho coragem de lhes dizer, podem compreender ou não compreender.” Nunca avançaram com o processo da mulher e, por isso, ela nunca recebeu a indemnização a que teria direito. Recebeu ajuda psicológica e faz a medicação, como ele, sempre arranjando formas de ocultar aquelas suas consultas especiais quando tem que lá ir durante o horário de expediente. No trabalho está fora de questão contar o que seja, ainda mais trabalhando ela com crianças e tomando silenciosamente todos os cuidados para que não corram riscos. Os comportamentos de pessoas com quem tem que lidar confirmam--lhe a necessidade de esconder. Recebe olhares das analistas quando vai fazer exames - “Olham para mim como pessoa com VIH e não como hemofílico” -, da farmacêutica onde vai buscar os medicamentos. Catalogam-no como homossexual, toxicodependente ou então alguém que recorre a prostitutas. Da última vez que recebeu esses olhares da farmacêutica teve que lhe dizer que não era desses. “Fez-me uma festinha na cara e pediu-me desculpa.” “Vou tentando sobreviver.”

Pela vida contra a Ignorância e o preconceito

"Não sabem uns dos outros e ainda guardam a doença como um segredo. Eram 137, hoje são 37. Seis são mulheres infectadas pelos maridos.
“Falecimento: A Associação Portuguesa de Hemofílicos (APH) regista e lamenta uma vez mais a perda de duas pessoas muito especiais.” O anúncio não é inabitual no boletim trimestral da APH e João (nome fictício), 55 anos, nunca sabe se foi mais um caso como o seu - o de um hemofílico contaminado com VIH, entre 1985 e 1987, numa das ocasiões em que recebeu um derivado sanguíneo (factor VIII) num hospital público.(...)A conta de subtracção dos que foram morrendo não vem com nomes e a contabilidade só é tornada pública de vez em quando, muitas vezes quando Maria de Lourdes Fonseca, vice-presidente da APH, é contactada por órgãos de comunicação social. A hemofilia é uma doença hereditária transmitida pela mãe portadora para filhos rapazes que se traduz pela falta de derivados responsáveis pela coagulação do sangue, o que está na origem de hemorragias internas.Foram 137 os hemofílicos contaminados com o vírus VIH: em 1994 tinham morrido 23, em 2005 metade, hoje sobrevivem apenas 37. (....) A vice-presidente da APH conhece--lhes as histórias: dois irmãos, de dez e 11 anos, e outros dois irmãos que apenas foram fazer uma vez tratamento e ficaram infectados já morreram. E há mortes com outras causas. João sabe de uma que não o abandona, o de um infectado que se suicidou, e imagina que deve ter havido mais - basta pensar no seu próprio isolamento, na sua revolta. Ainda lhe chegou a dizer, quando o via com maus pensamentos: “Não sejas parvo, enquanto cá andas vês os passarinhos.”’Se fosse possível dissecar uma a uma as causas da sua angústia, escolheria a culpa de ter passado o vírus à mulher, “sem saber”. (...) Depois veio a confirmação da mulher e o medo de que o filho também tivesse sido contaminado durante a gravidez. Dos 37 sobreviventes, seis são mulheres infectadas pelos maridos."

Catarina Gomes/Público - 01.02.2009