quarta-feira, maio 09, 2012

1 de Novembro- o culto dos mortos acabou em Portugal

O O fim do culto dos mortos em Portugal foi hoj decretado pela Santa Aliança - o Vaticano e o capitalismo selvagem.
Entre um dogma novecentista, sem qualquer importância para maioria dos católicos portuguesas e a vida concreta das famílias ou a identidade cultural de um povo, o Vaticano, mais uma  vez optou pelo dogma.
O Dia 1 de Novembro, mesmo para iletrados tecnocratas urbanos lisboetas, tem  muito a ver com a cultura protuguesa. As idas aos cemitérios, o reencontro das famílias, o regresso às origens, o culto dos mortos é ainda  algo de essencial para milhões de portugueses. Muito mais que a ascenções  meteóricas entre nuvens e clarinetes. È por isso que as Igrejas estão vazias e vazias irão continuar.
 

terça-feira, maio 08, 2012

Dona Solnado

Foi hoje de manhã. Num programa da RTP 1 Dona Solnado, de seu primeiro nome Alexandra, dedicou meia hora de espaço público de grande audiência a espalhar a sua mensagem divina. Se não estivesse tão assustadoramente cor de laranja - errada cor de fond de teint , exposição excessiva a um solário de bairro?   - talvez levasse a sério a cantilena que mistura arcaísmos católicos, conversetas new age sobre campos energéticos e frases avulsas tiradas do livro "O segredo". O que é estranho não são as ideias delirantes da senhora Solnado (gente delirante é o que mais há), o que é misterioso para mim é que tal criatura ganhe a vida a vender livros de pacotilha, workshops transcendentais e consiga tempos de antena de publicidade grátis paga por todos nós.Talvez pelo nome do pai, um inteligente ateu que lhe abriu os portões mediáticos.  A Dona solnado é particularmente irritante - uma mistura de santinha da ladeira com a astróloga Maya, mas com aquela arrogãncia muito especial de quem ouve a voz de deus. Dona alexandra esganiça-se um bocadinho a falar de verdades tão óbvias como os campos energéticos. E, ao seu lado, uma acólita fervorosa meneia a cabeça, de boca aberta.

Fátima

Dionísio andava aflito com a promessa feita.
Próstata tirada, cirurgia que só quem é homem é que sabe das aflições nocturnas, o espectro da impotência atormentava-o mais que as dores. Dionísio deu por si a rezar aflitas avé-marias a pedir erecções a sério. Nossa senhora deve ter escutado a sua súplica de cão semicastrado, pois volvidos uns meses, o pénis adormecido dava-lhe novos maravilhamentos sem urgências urinárias.
Fiel à promessa, Dionísio buscou por todo lado uma vela em formato fálico, para ir agradecer o milagre no altar de mundo.
Se havia oferendas em cera de todos os tamanhos e feitios, meninos e meninas inteiros, bébés de 30 centímetros, pernas, cabeças, corações e úteros fabricados aos milhares, porque não haveria ele de cumprir a promessa e oferecer uma réplica do seu bem mais precioso? Haverá algo mais importante que um orgasmo?
E como neste mundo tudo se arranja, haja dinheiro, Dionísio lá conseguiu uma vela de cera em formato óbvio. E para que não desse nenhum fanico às beatas ou ânsias incómodas a algum padre de saias, arranjou maneira de ir queimar a oferenda lá pela madrugada, quando o santuário está vazio de boas almas e se torna um deserto de estátuas.
Aliviado, ficou a ver a estatueta a consumir-se nas chamas, entre suspiros e estalidos de piras incandescentes.
Uma grande paz desceu-lhe sobre o peito, arrequentado de fé. Algures, nossa senhora sorria.


A terceira guerra

Estamos em guerra. A Europa está sob ataque do capitalismo global. Objectivo: implodir o Euro, arrasar o Estado Providência, destruir as sociedades democráticas baseadas nos princípios da solidariedade e no bem-comum. Foi este modelo que permitiu à Europa o desenvolvimento extraordinário das última décadas. Foi este modelo que permitiu a paz nos últimos sessenta anos.
Estamos em guerra.
O que se passa na Grécia é mais uma vez uma antecipação do que nos espera. Dizem que é uma inevitabilidade. Mas é apenas uma escolha.

domingo, maio 06, 2012

Memórias de um Portugal salazarento

"Os senhores proprietarios de antigamente, numa determinada altura do ano, bem me lembro, atiravam comida e roupas para as pessoas que estavam lá fora. Não foi assim à muito tempo. Ninguem gosta que fale nisto. Era mais ou menos assim: reuniam-se uma centena de pessoas à frente da Casa a rezar e os senhores mesmo depois de ouvir aquelas suplicas continuavam a almoçar vagarosamente. Nesse dia os Senhores até abriam as melhores garrafas para deleite da familia e amigos chegados. Duas horas depois lá vinham calmamente para a porta, no varadim, e cada peça de comida ou roupas eram atiradas para o povo, para a raia miúda que se embrulhavam uns com os outros.
Aquela cena preenche-me a memória até hoje. "

Retirado de uma caixa de comentários, a propósito das cenas do Pingo Doce



A direita tintol

O que há de mais infame na direita ultraliberal  é o desprezo absoluto pela vida e pelas pessoas.
Em particular, o desprezo pelos pobres, por essa classe de bas fond agridoce que só serve para criadagem  e pouco mais.
Quando leio posts destes lembro-me da boutade cínica de Maria Antonieta " S'ils n'ont plus de pain, qu'ils mangent de la brioche". E se  a frase da rainha é provavelmente falsa,  a atitude destes neoliberais é completamente verdadeira e despudorada.
Que se lembrem de outra famosa citação:  Por muitos menos crimes do que os cometidos por D. Carlos I, rolou no cadafalso, em França, a cabeça de Luís XVI ! ».

As mulheres sabem



"As mulheres, que suportam um fardo desigual quando a austeridade imposta pelo neoliberalismo desaba sobre as famílias, sabem bem que a solução é lutar por um outro modelo económico que elimine as causas do fardo: redução drástica dos orçamentos militares, reconhecimento de outras economias baseadas na reciprocidade e na dádiva, serviços públicos eficientes, tributação progressiva, direitos de cidadania eficazes, incluindo os direitos reprodutivos e sexuais, que libertem as mulheres do jugo do sexismo e do fundamentalismo religioso (católico ou muçulmano)."
Boaventura Sousa Santos, na Visão desta semana

sábado, maio 05, 2012

Do luar

Hoje é noite de lua cheia.Não uma lua qualquer. Uma lua agigantada de lobisomens e mulheres com cio a ocupar o céu todo. Uma lua espelhada em lagos como o queijo de fábulas.

Hoje é noite de aluar.

quinta-feira, maio 03, 2012

Do amor

“O mundo é um brutamontes”, diz-me a dona Francisca. O mundo é o homem dela a agonizar nos cuidados paliativos, encharcado em morfina e paralisado. Dona Francisca fala do seu amor como de um príncipe. “A nossa união é um laço dourado talhado no céu”, diz-me ela. Pasmo com o trocadilho poético vindo do nada, numa senhora com aquela idade, uma linguagem de novela que já ninguém usa, mas dona Francisca repete a frase, com uma firmeza crua no olhar azul.
“ Um laço dourado”.
E fala do homem bom que a acompanhou a vida toda e agora jaz como um animal ferido.
“È o meu único bem, não tenho mais nada”. O brutamontes do mundo deve tremer com este amor tão óbvio. “Se pudesse, trocava com ele e morria. “

E o brutamontes do mundo a tremelicar, derrotado.

Incentivos ao aborto

Não deixa de ser irónico. Os que defendem que a saúde deve ser paga e que o SNS universal e tendencialmente gratuito deve acabar,  contribuem para aumentar as taxas de aborto.
E depois choram lágrimas de crocodilo porque as taxas de aborto aumentam.
Que venham  as clínicas privadas (onde se fazem abortos com lucro)  criticar que no SNS se façam abortos sem custos para as mulheres,  é de uma hipocrisia asquerosa. Naturalmente que interessa ás clínicas privadas que os abortos não sejam financiados pelo Estado.