quinta-feira, março 05, 2009

Anna de Amsterdam

Raramente vou ao blogue da anna que não saia de lá encantada com a escrita.
O que é extraordinário é que seria capaz de sub(escrever) quase todos os inúmeros posts que lá coloca, o que me deixa uma certa perplexidade interior. Sendo cada um de nós múltiplo mas ainda assim irrepetível, é extraordinário que outros completamente estranhos partilhem tanta coisa do nosso mundo interior.
Este post da anna poderia ter sido escrito por mim. Um espécie de alter-ego num mundo paralelo.
"Li a notícia há dias: uma tribo amazona atraiu à sua aldeia um rapaz que vivia num povoado vizinho. Depois comeu-o. Quando os familiares procuraram o rapaz, deficiente mental, por sinal (era assim que o chamavam na notícia), encontraram apenas os restos do macabro festim: ossos roídos, o tutano chupado, um cheiro acre a carne esturricada. Os índios, de pança cheia, marimbando-se nos civilizados conceitos de integração e aculturação, arrotavam satisfeitos na sombra das palhotas. Lembro esta história cada vez que oiço os contestatários da legalização do casamento entre homossexuais argumentar que a mesma abrirá a porta a formas de organização familiar indesejáveis, como por exemplo, a poligamia.
O argumento da poligamia é rasteiro, ordinário mesmo. Sinceramente, custa-me vê-lo ser utilizado por quem tenho consideração e admiração. É o caso da Helena de Matos. É que se compara o que não é comparável. O casamento polígamo, ao contrário do casamento entre homossexuais, não assenta nem na igualdade, nem no respeito pela liberdade de cada um. Muito pelo contrário: é tradicionalmente um casamento que explora a mulher. A mulher é menorizada, vista como um objecto que se adquire, usa e deita fora. Não é por acaso que o casamento polígamo quase só existe nos países muçulmanos. Ainda recentemente o Curdistão aprovou uma lei a favor da poligamia que permite aos homens casar-se com uma segunda mulher, caso a primeira seja estéril ou tenha uma doença grave. Se o objecto adquirido for defeituoso, tem sempre o macho, esse magnífico e superior ser dotado de um falo, a possibilidade de o trocar.
A verdade é que não se conhecem em Portugal, nem na Europa, nem nos Estados Unidos, nem na Austrália, nem em nenhum país ocidental, associações que reivindiquem a legalização dos casamentos polígamos. Percebe-se que assim seja. Bem ou mal, as sociedades ocidentais já assimilaram a base dos direitos fundamentais e percebem que o reconhecimento da poligamia contende com uma série deles. Ora, ao contrário dos casamentos polígamos, o casamento entre homossexuais vem sedimentar o respeito pelos direitos fundamentais: reafirma-se a defesa da liberdade individual de cada um e, sobretudo, consagra-se a proibição de se ser descriminado em função da orientação sexual que se tem. Querer, de forma maliciosa, confundir uma coisa com a outra é intelectualmente desonesto. Não tarda nada, os contestatários do casamento entre homossexuais, tresloucados na sua homofóbica missão, estão a acenar-nos com o canibalismo das tribos indígenas. É ridículo. É."

História

Traditional sins


A Tradição já não é o que era

A prof. Doutora Teresa Pizarro, num excelente artigo no Público faz o enquadramento ideológico e mesmo técnico-jurídico das questões subjacentes à recusa de casamento civil a casais do mesmo sexo:

“A habitualmente indiscutida complementaridade dos sexos feminino e masculino esconde mal uma diferenciação vertical, de primazia… e de autoridade. O casamento foi, até hoje, se excluirmos a prática da escravatura, a forma mais perfeita de domesticação e subordinação das mulheres.

Qualquer que seja a variação histórica dos casamentos e das famílias – e é muito grande, evidentemente, daí a necessidade do uso do plural – o continuum do casamento é confundido (quimicamente falando) com a homofobia, a hierarquia de género. A sua abertura a pessoas do mesmo sexo – porventura possibilitando a reprodução de esquemas e estruturas hierárquicas, o que leva alguns a rejeitá-lo como alternativa de vida – também questiona essa “natural” desigualdade. Por isso ela é vista como subversiva, como o casamento entre pessoas de raça diferente o foi durante muito tempo: antinatural, contra os desígnios de Deus, que de outra forma não teria separado (diferenciado), como separou, os continentes… e os sexos.
A seguir, dizem os alarmados cidadãos moralizadores, virá a adopção, a perfilhação, a filiação. Mas é claro que virá, isto é, por acaso até já veio. E porque não haveria de vir? Porque as crianças têm forçosamente de se habituar à hierarquia de género, à violência conjugal e à autoridade marital? Quem deu à Psicologia a autoridade científica para estar tão segura da bondade da tríade pai-mãe-filho? A enorme violência que as famílias “normais” afinal albergam não fará as pessoas bem-intencionadas duvidar da perfeição de tais arranjos sociais? E será possível que as pessoas não saibam que não é com o casamento que virá a parentalidade de pessoas consideradas ou que se identificam como homossexuais, que obviamente já existe?”
(…)
Teresa Pizarro Beleza, Professora da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, in Público, 2 de Março 2009

YES WE CAN DO IT - Lições básicas de história contemporânea

Rosie the Riveter é um icon cultural dos EUA. Durante a II Guerra Mundial o esforço de guerra abriu as portas às mulheres a profissões até então exclusivamente masculinas. O que era uma situação de necessidade pontual, visto que grande parte da mão-de-obra masculina estava absorvida pelo esforço de guerra, tornou-se o ponto de partida de uma revolução social. Mulheres e homens, lado a lado, a ocuparem as mesmas profissões e as mesmas tarefas laborais.
O fenómeno alargou-se igualmente às chamadas profissões intelectuais até então restritas aos homens – medicina, magistratura, altos cargos empresariais, cargos políticos de responsabilidade, docência do ensino superior, onde, em alguns países da Europa ocidental, onde a política de paridade é um facto, algumas destas ocupações laborais de topo são já ocupadas maioritariamente por mulheres.
Embora as desigualdades de acesso e mesmo as desigualdades salariais se mantenham, nas sociedade desenvolvidas ocidentais, Rosie deixou de ser um ícone utópico para ser a realidade quotidiana.