segunda-feira, maio 03, 2010

Olhar e ver

O corpo é uma estrela suada  a bater nas janelas.
Janelas que se resguardam num interior silencioso.
Janelas rasgadas sobre o vale duma suave luminosidade.
Janelas translúcidas, que se podem entreabrir para o espaço do olhar alheio,
na quieta doçura de uma invasão consentida.
Ou então, simplesmente abrir o olhar através das janelas - olhar para fora, para o outro, para a vertigem da beleza do mundo.

Dias com árvores

A cada instante, o vento sopra as as folhas do plátano, uma a uma, sem esquecer a mais ínfima, recém-nascida da primavera iniciada.
Tenho um pacto com esta árvore que me comtempla todos os dias mal acordo.
O ano passado, por esta altura, dizia-lhe - quando perderes as folhas agora recém nascidas já terei acabado este desafio.
Agora, vencido o desafio, prometo-lhe: para o ano que vem estaremos as duas mais verdes, mais vivas, com o vento a serpentear-nos as folhas, uma a uma, sem esquecer as mais minúsculas.

Os meninos de sua mãe

Uma tarde, com a carrinha atulhada de miúdos , passei por Chalon-sur-Saône.
Lembro-me das casas douradas sobre o rio, a estrada a serpentear entre bungavílias e aquelas rotundas carregadas de cores como um jardineiro gordo. Atrás, as crianças cabaceavam de sono, pelo retrovisor espreitava-lhe as pálpebras semiestremunhadas pelo embalo, as bochechas inclinadas para o lado , a covinha no queixo, a sombra doce das pestanas, caracóis, trancinhas, todos os pequenos encantamentos secretos que enchem o coração das mães,

Talvez a vida seja apenas isto - um fragmento atrás de fragmento, um vislumbre da beleza absoluta, uma levíssima aproximação ao mistério.

Comentário desportivo

O meu sorriso, hoje, é definitivamente azul.

;))
"Le paradis est érotique : oui, puisque « c’est un mouvement (eros) et c’est un repos (paradis) ».

C’est aussi mon expérience :
L’Être qui Est, est là - Dieu ne peut pas être ailleurs que partout, le paradis (donc) est là.
Ce qui manque, c’est la conscience de l’Être ou de l’Amour (Agapè) qui est là.
Le paradis ne peut être qu’érotique, car sans le désir de l’Être qui est là comment pourrais-je le goûter, en avoir conscience, être un avec lui ?
Ce n’est pas la lumière qui manque à nos yeux, ce sont nos yeux qui manquent à la lumière.
Ce n’est pas la vie qui nous manque, c’est le désir (Eros) de vivre.
Ce n’est pas l’Être, l’Eveil, la Vérité... qui nous manquent, mais le « désir » de l’Être, de l’Eveil ou de la Vérité...
Ce n’est pas le paradis qui est perdu, c’est la conscience et le désir du paradis, ces deux ailes d’Eros qui font l’homme angélique, « entier avec un manque », heureux sans être satisfait, toujours au but sans jamais se croire « arrivé » (ce serait la mort). "

Jean-Yves Leloup

Ser cristão

"Não tenho medo do julgamento final, sei que seremos julgados por um olhar de criança...
Quando hoje me coloco diante desse terrível olhar inocente, não consigo ter ilusões sobre mim mesmo e, ao mesmo tempo, não posso mais desesperar. Quando somos olhados assim, não nos sentimos mais fora do alcance do amor, qualquer que seja a espessura de nossas máscaras".

Jean-Yves Leloup, em O absurdo e a graça

sábado, maio 01, 2010

Encontros

Há meia hora que os meus filhos gargalham.O riso enche a casa em catadupas. Nada mais é preciso.

Ressuscitar

No cemitério de Saint-Charles a secção das crianças fica na parte mais alta.
Anjos de mármore branco de uns cinquenta cêntimos fazem com a luz do céu ricochete sobre os túmulos estreitos.
Uma criança de cinco anos, morta em 1942, tinha um companheiro da mesma idade que, no dia do seu enterro e nas semanas seguintes, afirmara aos pais que não abandonaria o amigo e iria em breve brincar com ele debaixo da terra.
As fábricas de Creusot foram bombardeadas um ano mais tarde. A criança morreu num desses bombardeamentos. Repousa ao lado da campa do seu amigo.
Aqui, com um pouco de silêncio, pode ouvir-se a dor e o pranto das famílias.
Com um silêncio um pouco mais profundo conseguimos surpreender os risos dos dois inseparáveis, ocupadíssimos a brincar após a festa do reencontro.»

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")