terça-feira, abril 06, 2010

Isto não val lá com beatagem

Enquanto alguns tentam reescrever a história litúrgica, apagando mil anos de tradição ( refiro-me à tradição mais genuína e original da comunhão na mão), outros insistem em manifestações barrocas, aqui fotografadas assim:

"Na semana passada estava em Lisboa, era domingo e uma procissão descia da igreja de S. Roque. Que estranheza. Na mais cosmopolita área da cidade, uma procissão. Mesmo eu, que ainda trago nos ouvidos o murmúrio dos autos-de-fé e li as descrições do grande terramoto que havia de celebrizar o Rui Tavares, olhei para aquela gente que descia do Largo da Misericórdia como para uma feira medieval. À frente, com opas amareladas, os irmãos vivos. A seguir, um padre e alguns acólitos segurando o ícone torturado. Depois o povo. A encerrar o cortejo, imponentes, saídos dos livros do Estado Novo, o Juiz, o vice Juiz e o Secretário. Nos passeios, os turistas fotografavam, vorazes. A primeira cidade africana, como diz John Berger. E saltitantes, roliços, com voz de contralto, alguns padres em traje de solenidade, tentavam chegar-se à cabeça da procissão. Os irmãos vivos, apesar dos ornatos e vestimentas, tinham o péssimo aspecto que a velhice em geral e a pobreza em especial dá aos infelizes: o mau estado oral da população, as raízes brancas anunciando o cabelo empastado, como se um meme de quase-rastas tivesse percorrido aquelas cabeças crentes, ou a asa de corvo do farandol nos homens mais cuidados, a cor baça da nefrose, o bronzeado talassémico. Surpreendida pelo quadro, a alta adolescente que estava comigo baixou os olhos e vi na sua reserva o pudor para com aquela gente e a reprovação pelo meu espanto. Ao contrário do que é hábito eu percebi-a, ah, ao menos esta vez eu percebi-a. Porque havia naquela marcha essa ambiguidade entre um acto público- uma comunidade que se deixa ver naquilo que a une- e o que o rosto das pessoas transmitia, sobretudo o das burguesas decadentes do segundo grupo, amontoadas antes da vara de prata do Senhor Juiz e as medalhas dos Corpos Gerentes. Estas mulheres pareciam zangadas com a sua exposição. Havia, claro, algumas faces tranquilas, de mulheres de trabalho a dias. Mas a maioria eram reformadas ou pensionistas, óculos de contrafacção e semblante carregado, cantando estrofes que celebravam o sofrimento e a glória do Senhor sem disso retirarem nenhum consolo. Pareciam querer arremessar a sua fé aos pecadores surpreendidos do Chiado.

Acho que a Igreja Romana, de Ratzinger e do cardeal Saraiva, tem um problema para resolver. "
 Do Luis, sublinhados meus.

( Este texto tem provocado frisson nos consumidores de coca, que se devem ver retratados no quadro)

Do amor

segunda-feira, abril 05, 2010

E as crianças, Senhor?

Na imprensa e blogosfera postuguesa, numa concertação interessante ( basicamente os correlegionàrios  do Opus Dei e Movimento Comunhão e Libertação) sucederam-se as crónicas, entrevistas e posts sobre o escândalo do abuso sexual de padres.
O que é verdadeiramente revoltante ao ler as miríades de publicações que tentam "limpar a imagem " dos padres abusadores e da hierarquia tolerante com os abusos, é não ter encontrado uma única referência de preocupação sincera com as vítimas. O que fazer para reparar os danos, o que fazer para proteger as crianças e adolescentes. O que fazer para ajudar as vítimas e suas famílias. Nada, nem uma palavra que não o livro de cheques forçado pela justiça penal. Parece que a Igreja só se procupa com os fetos, não com as crianças. È abominàvel.
Toda a atenção continua centrada nos mesmos - os padres/ o papa  e a defesa  seu estatuto, a comparação com outros grupos sociais em que existe pedofilia ou com pastores protestantes (como se isso desculpasse alguma coisa), os  complots maçónicos, os coitadinhos dos padres fredericos, também ele vítima do laicismo gay.
Esta indiferença, este silêncio face às vítimas, isto sim  è que è o verdadeiro escândalo. Uma vergonha.

Um blogue transnacional.

Um abraço ao leitor atento que acede a este blogue regularmente, directamente do Parlamento Europeu....
Outro para Manitoba, Canadà, onde este blogue é especialmente queerido. E para o amigo de Mountain View, califórnia..
"Nada de menos claro e certo do que Jesus ter fundado uma hierarquia sacerdotal, com poderes objectivamente determináveis e litúrgicos; tal tipo de instituição e organização, parece decorrer mais de uma necessidade psicológica e social de segurança, do que de uma libertação de Deus tal como é biblicamente indiciada, da peregrinação abrâmica à revolta mosaica, das invectivas proféticas às diatribes jesuânicas e à abertura paulina. Por outro lado, tudo indica que os nossos modos próprios e culturais de vida e religião, não são avessos a uma relação verdadeira e livre com o Deus vivo; são até, por ventura ou desventura, talvez requeridos e necessários, por nossa intrínseca natureza dividida; e nesse sentido, decorrência humana e requisição divina coincidem num único e humano acontecer a que se dá o nome de religião cristã, fundada precisamente na dupla natureza de Jesus, com todas as suas organizações e desorganizações históricas e conceptuais."

Um brilhante texto ( mais um...) do Vìtor Mácula

Rad Trads

Estive a reler uma curiosa e bastante anedótica entrevista do  Cesar das Neves, onde o paladino da moral e bons costumes católicos defendia que "Qualquer dia a pedofilia vai acabar por ser legalizada». Talvez estivesse já a preparar o discurso de desculpalização do comportamentos dos padres pedófilos... e da hierarquia católica que os permitiu ( hoje, numa crónica do DN)
Devo dizer que os dois textos , particularmenre repugnantes na sua essência, se interpenetram.
A mundivisão ( mesmo teológica e doutrinária) de um fundamentalista religioso tende a equacionar realidades complexas com um simplismo confrangedor. A religião privada torna-se apenas numa cartilha de regras e ditames desligados da vida, da realidade humana e espiritual. Qualquer análise mais integradora ou substantiva da realidade é reduzida a uma cassete de dois ou três itens que se repetem ad eternum.
Quando a realidade ( o abuso sexual de menores por padres, assim como a responsabilidade da hierarquia católica, Cardeais Bispos e Papas no encobrimento  desse crime), aparece como inaceitável, há que fazer um processo de negação e autodefesa, em vez de a enfrentar com transparência e assumir responsabilidades.

Estes católicos fervilhantes são os que fazem mais mal à Igreja, com estas aparentes defesas desengonçadas. Com amigos destes, quem precisa de inimigos?

Hipócritas

"¿Y en España? Nada. Silencio sepulcral. Rouco, como siempre, callado. Y su portavoz, Martínez Camino, siempre dispuesto a portavocear para condenar todo lo que se mueva, ahora calla. Y, de esta forma, da por bueno que es más pecado el aborto que el que un cura pederasta mate la inocencia del alma de una criatura."
Entretanto, a tinta continua a correr. De nada vale vitimizar os abusadores. De nada vale desresponsabiizar a hierarquia que tudo sabia e nada fez.
Tambèm não aceito a ideia de que tal comportamento deva ser tolerado  e perdoado porque nós, na Igreja, somos todos pecadores. Este discurso é odioso. Todos somos pecadores, sim.
Mas não somos todos pedófilos, pois não?

Os lambe-mãos serão católicos?

Andam por aí umas pobres criaturas que gostam de genuflectir e lamber mãos alheias e fazem disso o cerne da sua pretensa catolicidade.  
A discussão é bastante divertida ( lembra-me a discussão sobre o sexo dos anjos) e raia o completo absurdo num momento em que  a Igreja católica atravessa a maior crise dos últimos cem anos. Crise essa que está precisamente associada ao "temor reverencial" e à "adoração servil" da figura do "padre", pedra chave de todos os abusos de crianças indefesas e de todas as impunidades.
O caminho  para a Igreja Católica de hoje não pode ser o conservadorismo, o pietismo doentio, o  folclore religioso ou a  diarreia mística. O caminho é inevitável - tem de ser para a frente e não o regresso à  autoflagelação barroca.

Claro que há sempre os masoquistas do sagrado ( se não fosse assim não havia gajos a crucificar-se nas filipinas.. E a proclamar que são os únicos e verdadeiros católicos viventes da Páscoa)

quinta-feira, abril 01, 2010

Reflexão do dia

"Dios no es el todo, ni el evangelio sumisión a una moral de chandalas o esclavos humillados, sometidos a unos señores espirituales. Al contrario, la fe en Dios infinito (sobre todo sistema y gradación jerárquica) libera al humano para la libertad y acción creadora, abriéndole al amor, por encima del sometimiento sacral y del miedo a la muerte.
Dando un paso más, y en contra de la acusación de Nietzsche, debemos afirmar Jesús no fue un idiota, un sumiso incapaz de rebelarse y decir "no", un esclavo del orden imperante (sacral o social), sino un hombre de gran libertad, que se enfrentó al sistema (altar y trono) de su tiempo, diciendo “no” cuando acogía a los excluidos y protestaba contra el templo. Precisamente por negarse al sistema le mataron; pero su mensaje y comunión contemplativa (liberadora) con Dios y con los hombres y mujeres de su entorno abrió un camino de vida (pascua) sobre el mundo. "

Um bel'issimo texto de Xabier Pikaza, no jardim de luz.