terça-feira, setembro 16, 2008

fascismo católico

Que dizer sobre estudantes universitários betinhos neofascistas amantes de camisas negras, que se dizem pretensamente católicos?

Pouco há a dizer a não ser sentir um profundo sentimento de piedade.

Mas a piedade e comiseração não deve deixar de nos fazer reflectir neste epifenómeno de jovens mais ou menos imberbes, que se agrupam à volta de ideias neofascistas e que confundem religiosidade com ideologia política, numa caricatura do significado da espiritualidade cristã. Entre estes desvarios adolescentes e formas mais ou menos organizadas de paganismo há uma coisa em comum – uma profunda ignorância e falta de formação estruturante.

São os novos iletrados – com acesso ilimitado à informação ( sobretudo de forma empacotada e simplista) mas sem capacidade analítica de contextualização e d e pensamento reflexivo pessoal.

Em boa verdade não são pobres de espírito – pelo menos no sentido evangélico do termo. Mas que são de uma pobreza mental aflitiva, isso são.

 

segunda-feira, setembro 15, 2008

Babies, guns and jesus ou fêmeas na presidência

Mccain teve um melanoma invasivo nos últimos dois anos, segundo relatório médico.
Apesar das campanhas mediáticas, um melanoma invasivo não é propriamente uma gripe, pois a taxa de sobrevida em cinco anos não é tão animadora qunto isso.
Sendo assim, a probabilidade de Palin ser a próxima Presidente dos EUA, caso Mccain ganhe as eleições não é uma hipótese remota, mas uma probabilidade séria.
Palin é antes de mais um golpe de campanha genial num domínio a que está reduzida a política actual - puro espectáculo. Mulher, personalidade carismática e sobretudo gira - uma verdadeira tia que tem a vantagem de ser inteligente e dar uma boa capa na playboy. Mediaticamente vendível como produto de consumo ou entretenimento, visto cumprir o seu papel de fêmea. Uma mulher na corrida presidencial levanta também discussões políticas interessantes, como as roupas e os óculos de marca , reduzindo o protagonismo feminino ao essencial ( roupa e estilo).
A utilização da família e dos valores familiares mais conservadores aliada ao fundamentalismo cristão no seu esplendor é o retrato de uma certa américa ianque e predadora, que tanta animosidade e sangue tem feito correr. Our mama beats your Obama, dizem as T-shirt de campanha. A maternidade surge assim como uma ideologia de per si ou uma afirmação política sobre os papéis de género e as formas de organização social. Uma mulher com muitos filhos terá de ser forçosamente conservadora e defensora do modelo de família patriarcal.
Ainda a propósito dos valores da família e dos valores cristãos, a exibição do filho de Palin, de quatro meses de idade, a passar de colo em colo de cada membro da família e até pelo colo da mulher de McCain, à noite, no meio de um barulho ensurdecedor, parecendo mais inconsciente - quase inerte - do que adormecido, constantemente focado pelas câmaras de televisão, especialmente quando Palin promete ser na Casa Branca uma "defensora" de quem filhos deficientes, foi para mim, (....) uma das coisas mais obscenas que vi num ecrã de televisão em toda a minha vida. Subscrevo inteiramente esta observação do Pedro Magalhães.
Também não deixa de ser paradoxalmente edificante e igualmente obsceno saber que Palin tem uma filha de 17 anos solteira e gravidíssima. Consequência directa de uma educação cristã ultraconservadora e de incapacidade de supervisão parental. Prova do falahanço das ridículas campanhas do anel prateado.
Tenebroso que chegue? Não. A mulher é criacionista, não sabe onde fica o Irão e não acredita no aquecimento global.
O poderossímo lobby das armas apoia Palin. Guns and roses. Se Palin ganhar a guerra total está garantida. Em nome da vida.

quarta-feira, setembro 10, 2008

Regresso

Não sei se é do brilho das casas

da bruma congelada nos telhados,

do cão que dá saltos de alegria doida no jardim em frente,

do meu miúdo que fez um corte de cabelo à escovinha que lhe faz brilhar os olhos,

do caderno onde guardo memórias curtas

do fõlego do tempo que não me deixa divagar vadiagens

ou da pele do outono que começa.

Hoje apetece-me respirar muito devagar e escrever palavras como se as desenhasse.

Devemos sentir-nos gratos. E aceitar a gratuitidade da vida com o maravilhamento interior de quem sabe da sua fragilidade.

terça-feira, agosto 19, 2008

Férias

Ontem estive do lado mais ameno do mediterrâneo, onde o sol nasce esventrado directamente do mar. Fica-se uns segundos na espera que tanta luz nascente deixe de desaguar na água, se encaracole na nossa nuca e nos escorra nas mamas até queimar a pele em tons dourados; barcos estrelam a placidez da água em soluços claros Hoje acordei assim, com um desejo intenso de morrer; coisa que acontece aos poetas de vez em quando; nada de feérico e tão banal como uma constipação..

quarta-feira, agosto 06, 2008

Lost in translation

O que existe de mais inútil nas férias é a procura de acentos em teclados estranhos. Estamos demasiado habituados aos dedos das sombras dos teclados onde o nosso cérebro mecanicamente reconhece as letras ainda antes de as pressionarmos. Do vazio absoluto do amor ou da espécie de fingimento anestesiado em que todos mais ou menos vivemos; esta busca de acentos nu, teclado estrangeiro é quase uma metàfora existencial; sobretudo quando estamos rodeados de pessoas estranhas incapazes de um diálogo minimamente interessante, incapazes de beberem a nossa essência ou o sentirem na pele o que nos move. Pessoa que nos limitam o respirar, os sussurros dos sonhos nas suas teias narcisistas; pessoas que se limitam a vampirizar emocionalmente os outros, e os destroem lentamente. Há gente assim; enleada em teias de egoísmo perturbado, em que a religiosidade doentia e obsessiva nada mais é que um esforço patético de uma espécie de masturbação mística. Á falta de orgasmos rezam novenas e coleccionam escapulàpios e fazem peregrinações.... Puta que os pariu a todos.

Disseram-me que o velho

morreu na lezíria atado a uma corda.

em vão

a noite tentou varrer

as pedras

que lhe escancaravam os olhos.

É na paixão que as nossas histórias se cruzam.Um ponto há em que as figuras se diluem na fronteira do encontro. Não há sossego no encontro.Apenas a inquietação morna de recuperar as linhas do nosso rosto.

Respirar

Tenho pensado muitas vezes nas pessoas que encontrei nestes percurso. Rostos, nomes, fragmentos de histórias, sonhos, palavras que ganham outros significados. Como se a utopia se fosse tornando possível à medida que percorremos as etapas de construção de um projecto. Houve momentos em que pensei que que não fosse possível.

E mesmo agora, parece-me incompleto.