quarta-feira, agosto 06, 2008

como fazer uma tese

Acordo de madrugada a sonhar com palavras.Levanto-me sonâmbula de números e sento-me ao computator. São cinco horas, a cidade ainda nem respira. Um trabalho infindável de paginação, revisão de gralhas, formatação. Trezentas páginas vão-se alinhando no texto final, a bibliografia está deixar-me louca.
Ao meio dia tenho a sensação de ser um escravo acorrentado às galeras. As mãos doem-me , devo ter uma tendinite no pulso direito. Uma semana de trabalho intensivo.
A análise estatística está concluída e revista.
Às 16 horas discuto com um colega perito em estatística, vai prestar as provas de doutoramente em setembro. Deixa-me duas ou três sugestões formais na apresentação de gráficos e tabelas. São cento e tal.
Escrevi o último parágrafo e juro que não acrescento mais nada.
Quatro anos de pesquisa que terminam assim:

"Os fluxos migratórios internacionais têm tendência a aumentar exponencialmente e a diversificar-se, constituindo um desafio para a sociedade portuguesa enquanto sociedade de acolhimento, ponto de chegada e partida de novas diásporas.
Estas novas formas de redes de sociabilidade e de criação de identidades num mundo global é uma experiência de desapropriação e da incerteza do encontro de alteridades, de abertura à imprevisibilidade do mistério do outro e dos outros."

quarta-feira, julho 30, 2008

Platero e eu

Fiquei comovida ao encontrar o Daniel. Primeiro, por ele ter inventado um canil bloguístico, o que me fez sorrir da coincidência. Depois, pela poesia que bebi ao fim do dia, como algo de absolutamente inesperado, de tão límpido. Alguns textos apeteceu-me ficar a mordiscá-los noite fora até adormecer e sonhar com cães na água. Ainda por cima, alguns poemas lembram-me rostos antigos e cidades velhas.

Quem me dera escrever assim.

As Mães, mas nem Todas


"As mães viram-se do avesso para que sejamos. Elas fizeram aquela coisa com algum homem.Esperamos todos que se não tenham despido todas. Que o suplício lhes tenha sido breve, já que não leve. As mães andam na rua e nunca mais foram as mesmas.Elas animam o comércio e as janelas como vasos comunicantes.Se não fosse por elas, nenhuma guerra nos faria voltar.Voltamos e alguém no-las levou, manhã cedo.As mães participam de coisas para além da física-química.As que fumam, vêm ao quintal contar as estrelas nocturnas do verão.Têm todas cauda, todas são caudalosas, manam como rios longose muito estreitos, como a angústia na etimologia primeva.As mães prevêem a chuva com uma pedra na mão.Elas andam com fotografias cor-de-cinza nas carteiras encarnadas.Não têm tempo para olhar os barcos em maio, lá onde dormem.Querem dizer-nos algo e a voz não lhes desce da garganta.As mães são a única sombra das savanas.Elas bordam teias que emaranham fábricas desactivadas, estações de tratamento de águas e resíduos, elas sãoos bichos-da-seda casulados nas carruagens ferroviárias.As mães são os cavalos menos ilusórios do monte.Dá-lhes o vento na cor e elas correm, as caudas gráficasempinadas de uma mocidade fibrosa, aerodinâmica, retratista.Apartam o sal e a merda, as flores de comer e os cheiros do corpo.As mães nunca iludiram a polícia nem os médicos. Elas exercem a partir de ministérios invisíveis ao sol.Só dão de si quando a prata lunar se torna refractária. E digitam de cor os mapas da fruta, entre cheias de inverno.As mães podem nunca ter voltado das mães delas. Cruzes de fogo bermam delas os caminhos montanhosos. Elas contam raposas onde vêem lobos: nos leitos das filhas e das mães delas. As mães são territórios para uma altanaria de galgos.Folheiam as latas do lixo para que nós enciclopédias.As mães desfloram as santidades mais corruptas.Mas nem todas são putas."

segunda-feira, julho 28, 2008

Uma pessoa deve viver consigo própria como se vivesse com uma multidão inteira.
E, interiormente, uma pessoa aprende a então a conhecer todas as boas e as más características da humanidade. E uma pessoa deve aprender a perdoar os seus próprios defeitos, se quer perdoar aos outros.

Etty

sexta-feira, julho 25, 2008

Brasil

Fica aqui o suspiro. Sem mais.

Poema do Menino Jesus

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
(...)

Alberto Caeiro

quinta-feira, julho 24, 2008

Metissages

Mestiçagem é, em primeiro lugar, uma experiência – da desapropriação, da ausência e da incerteza que pode brotar de um encontro, o que traduz uma condição muitas vezes dolorosa de “afastamento do que se é” para mergulhar no futuro imprevisível do mistério do outro e dos outros. A noção de mestiçagem, seja aplicada a pessoas, ou a pensamentos, cultura ou arte, é sempre uma condição de algo em movimento, sendo o nomadismo e a metamorfose os seus símbolos privilegiados e a desapropriação, como mediação entre a familiaridade e o estranhamento, o seu estado natural.

A banalidade do mal

"Duas crianças ciganas, de 11 e 13 anos, morreram na praia de Torregaveta, perto de Nápoles. E o que causou espanto nas pessoas mais normais foi que, contrariamente ao que seria de esperar, praticamente nenhum banhista se incomodou e continuou, com as duas crianças mortas o seu dia normal de lazer. Os banhistas indiferentes continuaram a apanhar Sol, a jogar à bola e a petiscar no bar da praia, a poucos metros dos cadáveres.
Via Arrastão

A sacralidade do corpo

O Eu como Pessoa é apenas um corpo que se diz Eu.
Daí que a solidão, sempre analógica (só há solidão porque vivemos obrigatoriamente em sociabilidades)é antes de mais uma ruptura de identidade, o esquecimento do corpo.
A solidão é o abandono do corpo, das vísceras, da pele, dos olhos, da palavra.
Pode-se morrer de solidão?
Os estudos epidemiológicos reportam que sim.

Sem férias ainda

Sem férias, o trabalho entra pelo verão adentro.
Em SEtembro estarei dividida entre Oslo e Praga.
Em Novembro mais um projecto inovador, desta vez com Idosos na zona mais pobre da cidade.
Entretanto terei de ponderar se consigo publicar o livro.