sexta-feira, julho 25, 2008

Poema do Menino Jesus

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
(...)

Alberto Caeiro

quinta-feira, julho 24, 2008

Metissages

Mestiçagem é, em primeiro lugar, uma experiência – da desapropriação, da ausência e da incerteza que pode brotar de um encontro, o que traduz uma condição muitas vezes dolorosa de “afastamento do que se é” para mergulhar no futuro imprevisível do mistério do outro e dos outros. A noção de mestiçagem, seja aplicada a pessoas, ou a pensamentos, cultura ou arte, é sempre uma condição de algo em movimento, sendo o nomadismo e a metamorfose os seus símbolos privilegiados e a desapropriação, como mediação entre a familiaridade e o estranhamento, o seu estado natural.

A banalidade do mal

"Duas crianças ciganas, de 11 e 13 anos, morreram na praia de Torregaveta, perto de Nápoles. E o que causou espanto nas pessoas mais normais foi que, contrariamente ao que seria de esperar, praticamente nenhum banhista se incomodou e continuou, com as duas crianças mortas o seu dia normal de lazer. Os banhistas indiferentes continuaram a apanhar Sol, a jogar à bola e a petiscar no bar da praia, a poucos metros dos cadáveres.
Via Arrastão

A sacralidade do corpo

O Eu como Pessoa é apenas um corpo que se diz Eu.
Daí que a solidão, sempre analógica (só há solidão porque vivemos obrigatoriamente em sociabilidades)é antes de mais uma ruptura de identidade, o esquecimento do corpo.
A solidão é o abandono do corpo, das vísceras, da pele, dos olhos, da palavra.
Pode-se morrer de solidão?
Os estudos epidemiológicos reportam que sim.

Sem férias ainda

Sem férias, o trabalho entra pelo verão adentro.
Em SEtembro estarei dividida entre Oslo e Praga.
Em Novembro mais um projecto inovador, desta vez com Idosos na zona mais pobre da cidade.
Entretanto terei de ponderar se consigo publicar o livro.

quinta-feira, julho 17, 2008

o estado do mundo



se é isto o que fazem com um cidadão canadiano, imaginem com os outros

Paris vale bem uma Missa

Confesso – nuca “assisti” a uma missa tridentina. Em parte porque o rito já tinha sido abandonado quando comecei a ir à missa, em parte porque não domino o latim, em parte porque me parece que a missa, ou Eucaristia, parafraseando alguém, não se pode transformar num acto de Voyeurismo sacro, como parece que alguns pretendem.
Entretanto uma alma caridosa decidiu enviar-me uma missa tridentina, para estimular a minha veia piedosa e me converter das heresias. E com a indicação de que assistir à missa no youtube
tem o mesmo valor que assistir á missa na TV , e portanto iria assistir a um sacrifício em directo on line.Pareceu-me uma modernice descarada vinda de quem vinha, os puristas medievos antitecnologias, mas pronto.
Fiquei com a impressão de que para alguns tridentinos, a encenação é algo de mórbido, e um bocadinho próximo dos smuff movies, mas lá me esforcei.
Bem - confesso que não consegui assistir até ao fim. Fiquei com demasiado sono – e compreendi melhor porque é que chamavam à cerimónia o santo sacrifício incruento. È realmente um sacrifício. Que poucos são capazes de aguentar. Quanto ao resto, à parte de ser completamente ininteligível devido ao latim ( poderia ser em chinês ou em lárabe, seria o mesmo efeito) achei piada à coreografia dos homens no altar, aos beijinhos nas mãos trocados entre eles, ao número ritualizado de genuflexões sincronizadas ( uma espécie de aeróbica sacra) e à imensa profusão de incenso e incensadelas capaz de provocar ataques de asma aos mais susceptíveis, sobretudo tendo em conta os bocejos irreprimíveis durante o cerimonial.
Ficou-me outro pormenor que achei encantador, mas muito pouco de acordo com a circunspecção tradicionalista – as vestimentas profusamente rendadas e coloridas dos padres, em tons fulgurantes de dourados e com flores vivas. Muito gay.

Medos

È Violento, o machismo?
Sim. Na sua forma mais óbvia e sangrenta, aos pequenos trocadilhos do quotidiano sobre as mini saias e as pernas das mulheres, ou sobre inevitável frivolidade maligna do feminino. Tudo isso foi esgotado na discussão do referendo.
Não é à toa que se tecem comentários idiotas sobre as pernas das mulheres-objecto e se compara ao mesmo tempo o acto de abortar à escolha de um vestido. Azul, claro, versão floriibela, boazinha, mas muito pobezinha e muito trabalhadeirazinha e muito tontinha.
Como diria o Ricardo Araújo, no seu brilhante sketch do Marcelo, Vou ao cinema, não há bilhete, olha, vou ali abortar. Ou comprar um telemóvel, como diria o outro.
São assim os machistas.
Não têm útero, nem fisiológica nem simbolicamente. E, mesmo que o tivessem ( que o machismo não é exclusivo de machos), não saberiam como usá-lo nem o significado de gerar e parir.
O que os preocupa, aos amputados de útero?
Uma única coisa – que as mulheres possam escolher.
O medo das mulheres, da sua escolha, da sua liberdade, do seu poder.
Não há nada de mais violento e machista do que a observação alarve sobre a necessidade de impedir que uma mulher possa escolher.

Da Tradição

FNAC, Porto, no meio de livros, música e um café. O ambiente é distendido, acolhedor mesmo, nada de verdadeiramente assombroso se passa no mundo, com jazz à nossa volta.
O telefonema atordoa-me. È das Canárias e uma voz querida, com uma terrível perturbação e um cansaço que se sente em cada palavra, lembra-me dessa realidade aqui ao lado. Uma nova vaga de imigrantes oriundos de África ( a maior parte do Senegal) chegam em barcos minúsculos e ridículos. Chegam os cadáveres, crianças, corpos desidratados, hipotermia, tifo, tuberculose, sida, em vagas que não param, nós nesta Europa cada vez mais fortificada onde batem as vagas dos esfaimados do mundo, a construir "campos" de refugiados, campos de famintos, a toda a volta par que não entrem, rusgas que já nem são rusgas, são uma espécie de salvamento internacional feito por polícias perplexos, contam-me que nas Canárias, a crianças nas escolas, em vez de desenharem o pai natal, desenham corpos estropiados nas praias, homens a rodos de olhar esbugalhado que fitam os salvadores, nós no nosso conforto doméstico preocupados com aquelas rotinas sociais que pensamos que fazem o mundo funcionar, mas não fazem, o que faz o mundo funcionar ( ou desmoronar-se) é o desespero de crianças metidas em pirogas, com remos ridículos para enfrentar o alto mar, sem roupa sequer para os proteger, sem comida, sem água, sem nada que não este olhar do mais absoluto desespero, vazio das lembranças da fome, vou-te mandar mais fotografias pelo TMV, não os mostres às crianças, não percebo porque não se fala mais disto, é uma catástrofe. E aqui estou na FNAC, no Porto, enquanto mais botes chegam às Canárias e corpos de crianças são atirados borda fora.