sábado, julho 12, 2008

Rainha Santa Isabel

O culto de uma figura feminina apropriada sobretudo pelos pobres, pelas mulheres e pelas crianças repercute algo de matricial na nossa religiosidade popular - o culto da feminilidade e os rituais de fertilidade. A quase coincidência entre a procissão da rainha santa - a nossa, como dizem algumas pessoas – e as manifestações marianas como fátima , não são coincidências.
Neste caso, mais uma vez, adora-se ritualisticamente uma jovem mulher em que o milagre simbólico foi o de dar aos pobres pão em vez de rosas. Há uma simbologia poética neste milagre das rosas, que aliás não é inédito na iconografia medieval europeia.
Mas Isabel de Coimbra não foi amada pelos pobres apenas pela sua bondade e generosidade. Foi amada por a saberem vítima de um marido violento, que a tentou confinar e sobretudo por ter tentado a todo o custo mater a paz entre um pai e um filho e suster uma guerra civil num país de que só foi rainha por acaso.
Rezam as crónicas que ao saber eminente uma batalha entre o rei e o seu filho, Isabel montou a cavalo e foi colocar-se entre as tropas prestes a combater.Para se engalfinharam e teriam de passar pelo seu cadáver.
Esta atitude extraordinária de uma mulher medieva (quando, segundo os padrões do tempo, deveria era estar era em casa a rezar tercinhos pela paz do reino) fez dela uma verdadeira rainha e rendeu o coração dos homens armados.
O poder feminino contra o poder das armas.

quinta-feira, julho 10, 2008

Há dias assim

começar o dia é sempre algo de delicado.

à frente, uma lista de tarefas.

por detrás de cada tarefa está sempre um grupo de pessoas.

um grupo de sonhos, de esforços e expectativas.

são assim os dias

redes de pessoas que se entretecem

Solidão

A solidão é sempre analógica

dou por mim a inquietar-me com a ana. já terá parido o filho?

desejo-lhe analgesia eficaz , agonias breves e a doçura do primeiro beijo sobre a penugem sanguinolenta de uma nuca de recém-nascido.

sempre achei que qualquer mulher que vai parir um filho tem qualquer coisa de divino e que o sofrimento das mulheres, tão inútil quanto invisível , as redime automaticamente de todo o mal e de todo o bem.

uma mulher a parir está para além do bem e do mal, é a origem do mundo.

tudo lhe e permitido, tudo lhe é perdoado, tudo lhe é devido.

as mulheres devem de facto ser adoradas por isso.

agora e para todo o sempre

Àmen.

terça-feira, julho 08, 2008

Folheei o livro de Alfredo Bruto da Costa sobre a pobreza em Portugal. . A «fragilidade» estrutural da sociedade portuguesa ressalta bem evidente no estudo longitudinal da pobreza em Portugal. Com efeito, durante pelo menos um dos anos do período entre 1995 e 2000 passaram pela pobreza 46% de portugueses.

Entre os 27 países membros da União Europeia, Portugal é o que tem as maiores desigualdades sociais, havendo cerca de 1 milhão de portugueses a viver com menos de 10 euros por dia, 67 por cento dos "sempre-pobres" vivem em zonas rurais ou aldeias.

Entre 1995 e 2000 mais de metade (54 por cento) das crianças e jovens com menos de 17 anos "experimentaram a pobreza em pelo menos um dos seis anos em estudo". Ou seja, viviam integrados em famílias com rendimentos ou recursos abaixo do limiar de pobreza.

nem sempre compreendemos o murmúrio dos nossos passos.

Modernismo


É um dos meus quadros preferidos de Dali. Pelas cores, pela organização do espaço, pelo subentendido na janela esventrada para o mar, pela mulher debruçada na infinitude.
Belíssimo.

Muchacha en la ventana (la hermana del artista), 1925


Oil on board105 x 74,5 Reina Sofía National Museum, Madrid

Modernismo - da beleza em estado puro

Russian Village under the Moon, 1911
Oil on canvas Bayerische Staatsgemäldesammlungen, Munich, Germany
Mais obras de Chagal no Século Prodigioso

sábado, julho 05, 2008

Deus


Vou ajudar-te Deus, a não me abandonares, apesar de não poder prometer nada com antecedência. Mas torna-se cada vez mais claro o seguinte: que tu não nos podes ajudar, que nós é que temos de te ajudar e, ajudando-te, ajudamo-nos a nós próprios.
(...) Frequentemente é como se eu visse este tempo como uma parte da História, da qual consigo já ver o princípi0 e o fim , e que também sei "ordenar" num todo. E estou grata pelo seguinte: por não sentir a menor amargura ou o menor ódio, mas por sentir uma grande impassibilidade, que não é rsignação, em mim, mas também uma espécie de entendimento destes tempos, por mais estranho que isso possa parecer.
(....) Claro, é o extermínio total, mas suportemo-lo com graciosidade. Não existe um poeta dentro de mim, há sim um pedaço de Deus em mim que poderia desenvolver-se até se tornar um poeta. Num campo ( de concentração) assim tem de haver contudo um poeta que experiencie a vida la, lá também..."
Etty Hillesum , 1942
Campo de Concentração