segunda-feira, junho 16, 2008

Domingo


Domingo

Sábado

Tenho dias muito felizes. Estou sentada à beira rio, rodeada dos meus filhos que brincam na relva, enquanto o barco de afasta. Lá dentro o mais velho faz-me caretas enquanto o pai finge que dorme a sesta. Descobrimos uma família de patos entre os canaviais, os patinhos recém nascidos a seguirem em perfeita fila atrás da mãe – olha, mãe, parecemos nós - andámos de bicicleta até cair para o lado e, entre amuos , uma ou outra birra, duas quedas, duas travessias de ponte, chegámos ao fim do dia.
Às vezes sinto que já estive em muitos lugares, mas os lugares do amor apaixonado e da maternidade fruída são os mais próximos do infinito.

sábado, junho 14, 2008

POrque sou feminista.

Todas as semanas são mortas em Portugal pelo menos duas mulheres vítimas da violência extrema do seu conjuge.
Tudo isto se passa num país de brandos costues, como se amorte das mulheres ás mãos dos seus extremosos maridos ou namorados fosse uma coisa mais ou menos normal e tolerável.
Nenhuma organização religiosa, nenhuma seita, nenhum movimento, nenhum partido político parece seriamente preocupado com esta situação extrema.

Um homem, de 46 anos, esfaqueou até à morte, na Rinchoa (Sintra), a mulher, de 41, defronte do filho menor. A vítima tinha pedido o divórcio há cerca de um mês, mas o marido não aceitou e acabou por matá-la.
Gonçalo, de apenas 10 anos de idade, assistiu à morte da mãe, infligida pelo próprio pai que, com uma faca, a golpeou várias vezes no tórax, nas costas e no peito. A criança apercebeu-se da violência da discussão entre os progenitores e os gritos da mãe levaram-no a chamar o irmão mais velho, que dormia num dos quartos do 6º direito, do nº 28 da Rua Casal da Serra, na Rinchoa. Quando chegaram à cozinha, era tarde demais e a mãe já se encontrava ensanguentada no chãoUm homem, de 46 anos, esfaqueou até à morte, na Rinchoa (Sintra), a mulher, de 41, defronte do filho menor. A vítima tinha pedido o divórcio há cerca de um mês, mas o marido não aceitou e acabou por matá-la.
Gonçalo, de apenas 10 anos de idade, assistiu à morte da mãe, infligida pelo próprio pai que, com uma faca, a golpeou várias vezes no tórax, nas costas e no peito. A criança apercebeu-se da violência da discussão entre os progenitores e os gritos da mãe levaram-no a chamar o irmão mais velho, que dormia num dos quartos do 6º direito, do nº 28 da Rua Casal da Serra, na Rinchoa. Quando chegaram à cozinha, era tarde demais e a mãe já se encontrava ensanguentada no chão.

sexta-feira, junho 13, 2008

Interobjectividade

"Cada Pessoa é formada por múltiplas assinaturas, com histórias e indiscrições indistintas, que obrigam a escolhas, por vezes dolorosas.
O Eu , a identidade, é algo que circula entre vários cenários e figurações.
Mais do que falar em intersubjectividades ou interacções face a af ace, deevria falar-se de interferências, acções materiais heterogéneas, em dobras, temporalidades diversas e em interobjectividade".

Latour, 1994

Ernesto

Entrei no bar como um náufrago que se atira para a primeira duna que encontra. Estou exausto. Pedi qualquer coisa para anestesiar a dor, dose dupla. Estou só e assim quero ficar, cinco minutos, cinco golos de whisky, cinco madrugadas. Não tão só como ele está hoje, depois que o deixei semidaormecido na cama do hospital."Estou preparado apara uma grande tragédia, mas não para uma tragédia definitiva" disse-me ele, depois do TAC. Sei o resultado TAC mas não lho disse, ninguém lhe disse, combinámos sem palavras que lhe daríamos uma última noite de angustiada esperança. (Ate amanhã.)
Antes uma angustiada esperança que uma definitiva certeza de metástases disseminadas.
Estou só, quero ficar só, mais um golo, mais um minuto, mais uma madrugada.
Hoje, o peso do mundo acaba no meu copo.

Mensagem

Miguel Torga escreveu a felicidade do poeta que escreve para ninguém.

Não há dúvida que a felicidade da poesia é escrever para si mesmo – escrever-se por dentro.

domingo, junho 08, 2008

halisha


Halisha ainda sentia o frémito dos tambores nas pernas, o formigueiro dos bailarinos a contorcionar-lhe os músculos do ventre. Os saltos altos escorregavam na calçada lodosa, no entanto, para halisha, a ruela junto ao cais era ainda a pista de dança onde passara as últimas duas horas, num cocktail de luzes e drogas psicadélicas. Estava tão inebriada da musicalidade dos próprios passos que rodopiou duas vezes antes de partir o salto, mesmo ao pé de uma caixa de electricidade. Em desiquilíbrio, Halisha apoiou o braço esquerdo no quadrado metálico como se fosse o ombro de um par desajeitado e aí poisou o livro que trazia na mão como um adereço de dança inútil.

Encontros

Debaixo de um sol radioso, resolvi ler o Diário de Ethy, cujas linhas já tinha entrelido por aqui e ali. Um judia nazi morta num campo de concentração. Nada da escrita pueril de Anne Frank, mas uma escrita de um misticismo intenso e profundo próximo da poesia, uma busca obscura da paz num mundo onde o horror do nazismo estende as suas sombras. Ethy percorre esse estranho mundo com uma interioridade cintilante. Entre um aborto autoinduzido, um interrogatório na Gestapo, paixões, passando pela morte que adivinha inevitável, porque é judia, é um percurso interior e absolutamente extraordinário, o desta mulher de 27 anos que descobre a presença do indizível e o sentido da sua vida.

Morreu em Auschwitz, a 30 de Novembro de 1943 com vinte e nove anos.


O meu problema é que se deixo a minha sensibilidade aos outros aflorar livremente
( é isso a caridade?) fico exposta, em carne viva, face ao sofrimento alheio, dilacerada com as dores de estranhos que faço minhas, como se a capacidade de penetrar no seu mundo fosse tão natural como respirar.
Em dias assim a violência do mundo parece-me tão insuportável como a sua beleza.