domingo, junho 08, 2008
Visita domiciliária
Tropecei no linóleo da entrada, um linóleo em tons grená, sobre a cadeira abandonada num canto amontoam-se dois casacos e um gorro lilás de criança, à esquerda desemboquei na cozinha onde o cheiro a fritos do jantar da vérpera me atingiu antes mesmo de abrir a porta.
Numa mesa branca desenha-se a luz escorrida das janelas, maçãs verdes esperam num prato a gula d ealguém, quatro pratos empilhados na pressa de saír de casa, alguém que come e sai, como se casa onde vive fosse uma espécie de pensão de duas estrelas, no quarto amontoam-se livros, desenhos a aguarela, um perfume sem marca, alguém se esqueceu de apagar a luz do candeeiro, metalizado, promoção do LIDL, há uma urgência na forma como os cobertores foram puxados, como se , apesar de tudo, quem habita o quarto quisesse deixar uma pouco de ordem no labirinto, sobre a cómoda uma fotografia de família, uma criança de gorro lilás sorri para a objectiva, um riso inteiro de covinhas felizes.
Outras escritas
O facto dela estra grávida talvez explique parte desta identificação.
Prayer
"Ontem à noite, pouco antes de me ir deitar, dei por mim, de repente, ajoelhada na alcatifa, no meio desta grande sala, entre as cadeiras de metal. Assim. Sem mais nem menos. Puxada para o chão por algo mais forte do que eu.
Faz tempo, tinha dito de mim para mim: "Vou ver se consigo ajoelhar-me". Tinha ainda muita vergonha desse gesto tão íntimo como os gestos do amor, todos gestos de que ninguém consegue falar. A não ser um poeta (...) "
Etty Hillesum
sábado, junho 07, 2008
Futebolãndia
Quem está hoje de urgência ou prevenção já sabe. Durante a hora do jogo de futebol,os serviços vão estar vazios e vamos andar pelos corredores a olhar uns para os outros e para os doentes que ficaram do turno da manhã.
Em compensação, os doentes que entrarem entretanto vão ser verdadeiras urgências, daqueles casos de vida ou morte ou incidentes agudos que não podem esperar até ao intervalo. Poucos mas verdadeiros.
O que é ainda mais estranho é que este padrão acontece sempre em ocasiões como jogos de futebol ou outros e eventos "igualmente importantes". Fica entre aspas, porque continuo a pasmar como é que um país inteiro para e fica literalmente suspenso – até nos acidentes graves e nos incidentes críticos – por causa de um jogo de futebol.
Sabemos também que, mal acabe o jogo, vai haver rum pico súbito de afluência de pessoas com queixas várias, acidentes, intoxicações, crianças magoadas porque os pais estavam a ver a bola.
Tudo isto não é pontual – é cíclico e recorrente e permite-nos fazer uma reflexão sobre os padrões de utilização dos serviços de urgência da nossa população.
quarta-feira, junho 04, 2008
Confissões à beira de casa
Das virtudes teologais,
O das facadas cegas e raivosas
