sexta-feira, maio 30, 2008
Eutanásia
Fala da confiança dos doentes, nele. Dos segredos que lhe dizem, das confissões últimas.
Nunca praticou directamente eutanásia. Mas já ajudou equipas a decidir. E apoiou doentes no processo de "discernimento" sobre a opção a fazer. Sem juízos de valor, sem pressões, sem ambiguidades. Há que dar tempo para a decisão, disse-me, para morrer nunca há pressa...
quinta-feira, maio 29, 2008
É um autocarro de periferia e as duas mulheres sussurram as vidas num francês ligeiro, com aquela displiscência doce das confidências murmuradas entre paragens e destinos.
A mulher loira de pele de sardas translúcidas afaga a carteira enquanto confessa a idade. Quarenta e três anos, as rídulas sob o olhar azul lembram uma menina envelhecida, gotinhas de luz estrelam-lhe os olhos quando fala sobre o novo amor após um casamento desfeito.
A palavra “gentil” em versão francesa é dita pelo menos quatro vezes, em variações diferentes, para justificar o amor reencontrado.Un homme gentil, très gentil pour moi, je suis ravissante.Saem na paragem seguinte, num frufru precipitado.
Viagens
Mochila encostada à porta da carruagem, acotovelou-se entre uma freira sonolenta e um miúdo com corte de cabelo de jogador de futebol.
Espreitou pela janela enquanto o primeiro cigarro lhe amanhecia nos dedos, fascinada com a linha-férrea que se espraiava numa linha de água rumo a um infinito qualquer.
Uma sensação de maravilhamento invadiu-a como uma premonição – ao fundo, na paisagem, algo de aquoso e cálido tomava forma. Sob a luz rosácea vislumbrou as primeiras casas e linhas do cais, tudo misturado com cheiro a lodo, gaivotas a tangerinar por entre barcos.
Abriu então completamente a janela, apresar do friorento frémito da freira e deixou-se enovelar por uma súbita sensação de liberdade, a percepção súbita que se dirigia ao futuro – não um futuro qualquer, vislumbrado na luminescência das casas, mas um futuro escolhido, onde todos os impossíveis a esperavam. Tinha vinte anos, uma mochila, um caderno de notas cheio de poemas, travel cheques, uma máquina Kodak com rolos suplentes que demoravam quatro dias a revelar, um mapa, dois últimos cigarros e estava a chegar a Veneza pela primeira vez na vida, completamente sozinha, que é o mesmo que dizer completamente cheia de todas as lonjuras possíveis, feliz apenas por poder respirar a beleza de uma cidade sonhada.
Doutorando
fragmentos de poemas afagam-me os olhos.
Não sei se interrompa a escrita da discussão de resultados
e me ponha a alinhar parágrafos sobre a chuva que teima em não desabar.
domingo, maio 18, 2008
os fariseus
"É possível que ninguém acredite nesta história, mas aconteceu:Cuidei de uma senhora em estado terminal, que sentindo a aproximação da partida pediu a presença de um padre.O "capelão"(Padre do Hospital) foi chamado, esteve com ela alguns minutos e saiu de seguida, deixando-a num pranto incontrolável...Quando finalmente consegui falar explicou: “que quando jovem casou e o marido imigrou para o Brasil e nunca mais deu noticias, ficou com dois filhos pequenos, que criou com muitos sacrifícios e muito amor. Passados 12 anos conheceu um homem com quem "juntou os trapinhos” e teve dois filhos (legalmente foi possível divorciar-se e casar pelo civil) Foram TODOS felizes até que a doença veio bater-lhe à porta...Sentia que o "viagem para o Pai" estava próxima, quis reconciliar-se com Deus, mas o padre recusou-se a dar-lhe a absolvição, porque ela vivia em pecado. Informações chegadas do Brasil diziam que o ex marido, teria até já falecido, pois se faleceu replicou o padre, traga a certidão de óbito ai sim confessa-se e celebra-se o casamento.O pânico e o sofrimento desta mulher era tão grande, que pedimos a outro padre para vir visitá-la e se possível ajuda-la.Ele veio e conversaram horas...Ficou mais calma, mas a "doença" invadiam-lhe rápida e completamente os pulmões e a dificuldade respiratória era muito intensa, causando-lhe muito sofrimento, mal podia falar, apesar disso, reuniu a família e pediu que fizessem TUDO para confirmar se o pai dos filhos mais velhos ainda vivia ou não.A família iniciou uma luta contra o tempo...Durante 10 dias esta mulher agonizou heroicamente esperando pelo "bilhete" que segundo ela, lhe daria direito a viajar em graça para o Pai!Já ninguém acreditava..."
Ou seja, sem a certidão de óbito de um "marido morto", negavam a uma mulher moribunda um casamento válido, a reconciliação e a comunhão.
Bando de fariseus.
"Apenas os olhos, quando os abria, continuavam a transmitir vida!A certidão de óbito chegou e o "capelão" tratou de tudo:- Confessou o casal e deu-lhes a Sagrada Eucaristia, depois casou-os ali no hospital com os filhos e os netos presentes.No final do dia com um sorriso no rosto esta mulher maravilhosa viajou para o Pai!"
Sorte dela foi o outro gajo já ter morrido. Conclui-se que se tivesse apenas sido abendonada e estivesse civilmente divorciada, lá se ia a passagem aérea para o pai, e negavam-lhe acomunhão mesmo estndo moribunda.
Cambada de hipócritas e vendilhões do templo.
quinta-feira, maio 15, 2008
Exercícios
Há qualquer coisa de pornográfico na exibição da futilidade e da riqueza, quando neste país tantas pessoas estão no limiar da dignidade humana.
Fumogate
Sócrates fumou um "pensativo cigarro" num voo PRIVADO de longo curso.
O Primeiro Ministro não violou gravemente nenhuma lei, não teve um comportamento corrupto, não delapidou o erário público.
Quando se faz deste incidente um "caso político" em nome de uma "moralidade" sórdida e voyeurista, está tudo dito sobre pobreza mental da "oposição".
terça-feira, maio 13, 2008
Em Agosto de 2007 foi-lhe diagnosticada uma leucemia. De Agosto a Dezembro submeteu-se a vários tratamentos de quimioterapia. A doença ficou controlada, mas em Abril de 2008, num dos exames de rotina verificou-se uma recidiva.
A única solução eficaz é o transplante de medula óssea. Enquanto aguarda pelo processo de doação, que é sempre demorado, está novamente internado a fazer tratamento à base de quimioterapia para que a doença não progrida tão depressa.
O Tiago tem dois irmãos, Pedro e Francisco, mas infelizmente não são compatíveis. Há que encontrar, urgentemente, um dador. Pode ser um de nós. E de uma forma tão simples!
Por isso, mobilizámo-nos para organizar uma acção de recolha, a efectuar pelo Centro de Histocompatibilidade na Universidade de Coimbra. Há que garantir um número mínimo de participantes, sem o qual a intervenção não será eficaz. O processo é simples, muito pouco demorado, sem riscos (ver folheto em anexo). Apenas temos de ter entre 18 e 45 anos e pesar, pelo menos, 50 kg.Caso sinta ser dever seu ajudar o Tiago, ou outros como ele, por favor compareça na Faculdade de Medicina, no átrio Nascente do 2º andar, no próximo dia 19 de Maio (2ª feira), entre as 9:00 e as 13:00 ou entre as 14:00 e as 17:00h.
Mesmo que não possa, ou não queira estar presente, por favor transmita esta mensagem aos seus contactos.
