terça-feira, maio 06, 2008

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que eu quero ver.
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner

segunda-feira, maio 05, 2008

Liberdade

Domingo, RTP2. É especialista em Marketing, segundo percebi e fala um fluente português da linha. Num programa religioso patrocinado pela televisão pública portuguesa defende arduamente a religião muçulmana e os seus valores sobre o papel das mulheres.
Para ela, claramente a religião muçulmana é única a que defende os valores da família, pois define com clareza o papel da mulher – em casa, no serviço doméstico, cuidadora dos filhos.
A culpa dos horrores da sociedade de hoje está no trabalho feminino e nesta ideia das mulheres não terem um papel social predeterminado.
Tal discurso está integralmente de acordo com os tradicionalistas catolaicos.
Enquanto a oiço, incrédula, relembro imagens de mulheres a serem lapidadas e chicoteadas em praça pública ou vergastadas pela “polícia dos bons costumes” do Irão porque mostraram uma nesga do tornozelo.
Pelo meio, a muçulmana portuguesa deixa escorregar uma confidencia – a conversa amena que teve no Cairo com uma estudante de gestão . No Cairo, onde, fez questão de afirmar “tem liberdade “. Liberdade para usar a fatiota islâmica. Como se em Portugal não houvesse plena liberdade de vestir fardas religiosas ou outras. ( Eu por mim é que tenho dúvidas de poder ir a um país islâmico sem ter de me submeter à ignomínia de andar de cabeça coberta á força. Ah… mas esqueci-me, nos países islâmicos as mulheres têm mais liberdade. Assim o afirma o interlocutor dando como exemplo…
as mulheres no Irão).
Que seja o erário público e os meus impostos a financiarem dislates destes .....

Vera Tradição

domingo, maio 04, 2008

Proselitismo 2

"Numa das minhas últimas visitas a Londres, para fazer umas entrevistas de cinema, conheci o correspondente londrino do "pregador maldito" lisboeta. Em vez de apanhar o comboio de Heathrow para a cidade preferi antes um táxi, e saiu-me na rifa mais um chofer apocalíptico.
O homem veio o tempo todo a sarrazinar-me com os mais desagradáveis e gráficos pormenores do fim do mundo tal como ele tinha a certeza absoluta, absolutinha, que se ia dar, olhando para trás de vez em quando, para se certificar de que eu estava a prestar atenção e era merecedor de salvação
À chegada ao hotel, e depois de receber o dinheiro da corrida, o taxista estende-me dois cartões. O primeiro, era o da "igreja" que ele frequentava e onde eu deveria dirigir-me para ouvir a boa nova. O segundo, era de um clube de garotas e strip. Quando lhe fiz estranhar este, respondeu-me: "É para se divertir um bocado antes de ser salvo."

A arte de ser Professor

A Magdalia lembra-me isto:

Manual do proselitismo

sábado, maio 03, 2008

Silêncios

"Era raríssimo eu falar no lugar que de ora em diante era meu. Não era proibido e, no entanto, uma regra não escrita impedia-mo. Na verdade, se uma limpadora de latrinas é faladora, há a tendência para pensar que está à vontade no seu trabalho, que está no seu lugar, e que o trabalho a satisfaz ao ponto de lhe inspirar o desejo de tagarelar. Pelo contrário, se ela se cala, é porque vive o seu trabalho como uma mortificação monacal. Apagada no seu mutismo, realiza a sua missão expiatória de remissão dos pecados da humanidade. Benamos fala da acabrunhante banalidade do mal, a limpadora de latrinas conhece a acabrunhante banalidade da dejecção, sempre a mesma por detrás de disparidades repugnantes. O seu silêncio exprime a sua consternação.
Ela é a carmelita das latrinas".

Amelie Nothombe (2004) Temor e tremor