terça-feira, abril 22, 2008



A rapariga chora convulsivamente, as mãos a tremer sobre os joelhos esquálidos. Chora em soluços contínuos, numa aflição de carne desfeita e à sua volta as batas brancas agitam-se em palavras protectoras e de reconforto. A palavra, a presença, duas pequenas técnicas de controle de ansiedade, o espaço para exprimir a dor. È uma dor simples e sem outro espaço para desaguar que não aqui. A dor do abandono completo.

quinta-feira, abril 17, 2008


Ao que parece, as alas mais conservadoras e admiradoras do franquismo das cúpulas militares espanholas estão à beira da apoplexia. Estão agora subordinadas a uma mulher, socialista e catalã. Mas, o que mais os incomoda, quase como um insulto obsceno, é que esta mulher, ministra da defesa, estay embarazada de siete meses. Eles bem falam sobre a beleza da maternidade e da obrigação femeeira de parir, mas, a bem dzer , os ideólogos da direita conservadora têm um asco especial às mulheres grávidas.

domingo, abril 13, 2008

É curioso verificar que das centenas de associações que há uns tempos de repente brotaram do nada e aparecerem ao terreiro para proclamar uma hipotética defesa da vida, a esmagadora maioria desapareceu sem deixar rastro. E, das que permanecem, muitas delas são organizações fantasma, sem qualquer intervenção social activa e com uma eficácia nula.

Das duas uma – ou eram associações virtuais, criadas na onda da propaganda política de momento com a finalidade de impor a manutenção da criminalização das mulheres ou eram instituições competentes e com eficácia no apoio a mulheres grávidas com dificuldades. Essas, aonde estão?

A explicação dos pássaros

O novo Governo socialista será composto por 17 ministros, nove dos quais são mulheres, uma das quais - Carme Chacón, estrela ascendente do Partido Socialista da Catalunha e ministra da Habitação no anterior Governo - assumirá a pasta da Defesa, aos 37 anos de idade e grávida de cinco meses.

A explicação dos pássaros

As seitas fundamentalistas cristãs, especialmente as de conteúdo messiânico que anunciam o fim dos tempos, têm, alguns temas em comum. Em primeiro lugar parecem resultar da influência carismática de um fundador doente mental, com delírios paranóides ou messiânicos. Fascinante é o facto desses delírios poderem ser partilhados ou disseminados dentro de um grupo ou uma pequena comunidade circunscrita. O fenómeno não é novo. Fenómenos de folie a deux têm, sido descritos e a contaminação do delírio é explicável por contextos de fechamento e violência sobre os elementos da seita. Em quase todos os casos documentados há uma violência extrema em particular sobre as mulheres do grupo. Pedofilia ( sobre meninas), violações, sequestro, poligamia imposta, torturas físicas, incesto, são os denominadores comum destas seitas religiosas de fundamentalismo cristão.

No fundo levam ao extremo a prática de alguns valores defendidos pelos mais ortodoxos fundamentalistas religiosos sobre o papel das mulheres.

Crianças


Não sei o que é mais triste. Se a forma como a menina se agarra à outra menina acabada de ser parida, em casa, sem apoio nenhum ( é o terceiro filho).

Não sei o que é mais chocante, se esta criança, neste abandono sofrido após um parto solitário, se a outra criança que ela aconchega nos braços, uma menina, para dar continuidade ao ciclo de dor e pobreza.

Foto de Augusto Brázio, vencedor da oitava edição do prémio Fotojornalismo Visão/BES. O fotógrafo freelancer ganhou com a imagem de uma mulher de 19 anos, cujo terceiro filho acabava de nascer, quando foi assistida pelo INEM.

Os velhos


A catedral é esplendorosa sob um sol radioso entremeado de chuva.
Lá dentro, entre plácidos turistas perdidos sob a luz dos vitrais decorre uma celebração. Gente velhíssima segue o culto.
O padre é igualmente velho, tão velho como a velha solista que entoa em voz lamuriosa salmos de esperança. O senhor é meu pastor, derrama-se o salmo pela musicalidade das abóbadas. E no entanto, o velho padre, na homilia, balbucia ferozes tristezas e calamidades, de uma desesperança incongruente e patética.
Eu sou o bom pastor, repete inutilmente Cristo.
Ninguém o escuta, muito menos os padre, que inicia um discurso niilista sobre a comunicação social. Enquanto fotografo um capitel questiono alguém – mas o que se passa? Zapatero toma hoje posse, respondem-me. Estão furiosos!
Pobres almas, que se servem dos salmos mais doces e das palavras mais belas do evangelho para vomitar ódios antigos de velhos púlpitos.
Não admira que as igrejas se esvaziem de fiéis e se encham de turistas.

sexta-feira, abril 11, 2008

Metadona

O mais apaixonante de tudo é construir pontes e encontrar lugares de esperança onde não se encontra nada mais que o vazio. Ultimamente tenho tocado em muitos lugares sem esperança, como o mundo de S., uma jovem toxicodependente que vive na rua com os seus cães. Os cães – uma pequena matilha que a seguem para todo o lado estão lustrosos e bem escovados. S. aparece pálida, a camisola azul esburacada, magríssima, os dentes perdidos sob os piercings, quase sempre sem falar.
Tem uns olhos belíssimos que se passeiam por nós, numa agressão contida enquanto sorve a dose de metadona. Quando passa por mim, eriçada de gestos agudos, só vejo a adolescente perdida, que vive na rua com os seus cães a comer restos. Juro, apetece-me abraçá-la, por um momento penso no que aconteceria àquela criança grande se alguém simplesmente a abraçasse. O gesto agressivo e noção de um comportamento pouco terapêutico, fazem-me recuar. Por instantes – S esboça um sorriso, como se intuísse o meu pensamento. Até àmanhã, diz-me.
Hoje, Alguém a olhou.
No mais intimo da nossa vulnerabilidade humana podemos ser um segredo do absoluto, um mumúrio interior ou a sombra desse devir que habita já em nós.