quinta-feira, abril 10, 2008

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos.
O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida.
Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras.
Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.

Nuno Júdice

sábado, abril 05, 2008

Uma religião militantemente proselitista?


"Um governo militantemente ateu?04.04.2008, Vasco Pulido Valente
Com o risco de repetir Constança Cunha e Sá, insisto no tema. D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, disse esta semana que “o Estado não pode ser militantemente ateu” e “deixar de reconhecer” e “respeitar” a religião de cada um. O que estaria muito bem se D. Jorge não acrescentasse que o Estado deve também “proporcionar” a cada um “as condições necessárias” para “viver” essa “religião”. Evidentemente, quando D. Jorge pede ao Estado um papel activo, não pensa, por exemplo, nos vários ramos do protestantismo, no judaísmo ou no islamismo. Pensa na Igreja Católica Apostólica Romana e o que lhe custa é a progressiva perda de influência da Igreja na sociedade portuguesa, por iniciativa ou perante a indiferença de um Estado que, historicamente, a tinha promovido e sustentado. O arcebispo protesta com veemência contra “a incrível exclusão da presença católica” do “ambiente público” e do “ambiente político”. Mas nenhuma liberdade de nenhuma espécie foi tirada à Igreja. Nem a liberdade de se exprimir, nem a de se reunir, nem a de se manifestar. Se a sua “presença” no “ambiente” público e político não é maior, só se pode queixar de si própria e de uma cultura, a cultura do Ocidente “liberal”, que não a favorece. O Papa Ratzinger avisou que a Igreja se iria inevitavelmente tornar numa pequena minoria ignorada e fraca; e que o tempo triunfante da aliança com o Estado acabara para sempre. Só que a realidade não dói menos por ser prevista e até esperada. O episcopado e os católicos não se resignam ao lugar que é neste momento o seu e tomam por um “ataque” o que não passa, no fundo, do curso “natural” das coisas.
O resultado do referendo sobre o aborto, o “facilitismo” do divórcio, a união de facto e o casamento de homossexuais (que não tardará) não são um “ataque” do Estado à Igreja Católica. São a consequência - em Portugal, como em Espanha ou em Inglaterra - dos valores que a maioria adoptou e pratica.
É compreensível e legítimo que a Igreja se insurja contra tudo isto. Já não é compreensível e legítimo que declare o pobre governo do PS “militantemente ateu” e, ainda por cima, por obra e graça de “forças” que Sócrates não “vigia”.

Criminalidade Violenta 2

Enquanto o PGR perde tempo com birras de miúdos mal comportados, os jornais de hoje estão cheios das principais causas de morte violenta em Portugal - acidentes de viação e violência de género.
Claro que sobre casos taão violentos, não há Youtube nem prós e contras nem exploração jornalísta nem indignação pública, nem intervenções das principais figuras do Estado.

Padre Vieira

Manuel Vieira, foi afastado e exilado por críticas públicas a um documento de Ratzinger e por defender uma perspectiva diferente da serôdia “moral sexual da Igreja”.
Tanto bastou para o Padre Manuel perder uma série de cargos e funções onde tinha alguma visibilidade e por ser remetido a um violento silêncio. O que significa que a Inquisição continua bem viva e embora não queime os corpos das pessoas em autos públicos de fé, queima almas, corações, futuros e continua na sua tentacular e soturna obra de esmagamento da humanidade.
A este propósito, as palavras de um outro Padre Vieira, António, continuam acutilantes e lúcidas, de uma actualidade extraordinária. Ele, um dos génios portugueses vítima inevitável da Santa Inquisição, explicou de uma forma brilhante, o porquê da palavra de deus aparentemente não ser mais escutada e seguida.
E isto aplica-se integralmente àquelas questões de moral sexual ( como a proibição da contracepção ou do uso do preservativo, ou a proibição da ordenação de mulheres ou a homofobia ou a legislação sobre o divórcio) que alguns acham essenciais para manter , nem que seja à força, a “integridade católica” , mas que são absolutamente risíveis pela forma como são doutrinariamente fundamentadas
E são tão risíveis que , basicamente, ninguém as cumpre.
Dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo indignos verdadeiramente de tão sagrado nome), dizei-me: esses assuntos inúteis que tantas vezes levantais, essas empresas ao vosso parecer agudas que prosseguis, achaste-las alguma vez nos Profetas do Testamento Velho, ou nos Apóstolos e Evangelistas do Testamento Novo, ou no autor de ambos os Testamentos, Cristo? É certo que não, porque desde a primeira palavra do Génesis até à última do Apocalipse, não há tal coisa em todas as Escrituras. Pois se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de Deus?
Mais: nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que Deus os disse? É esse o sentido em que os entendem os padres da Igreja? É esse o sentido da mesma gramática das palavras? Não, por certo; porque muitas vezes as tomais pelo que toam e não pelo que significam, e talvez nem pelo que toam. Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus, segue-se que não são palavras de Deus. E se não são palavras de Deus, que nos queixamos que não façam fruto as pregações? Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem?! E então ver cabecear o auditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! Verdadeiramente não sei de que mais me espante, se dos nossos conceitos, se dos vossos aplausos?

A voz de António Vieira levanta-se hoje inteira e viva. Apesar da santa Inquisição.

quinta-feira, abril 03, 2008


A amiga de longa data pergunta-me como vai o doutoramento.
Enquanto me preparo para responder outra amiga do grupo boceja ruidosa e ostensivamente… e fala da carteira que vai comprar.
Encolho os ombros, sem entrar em detalhes, anoto mentalmente a mensagem não verbal (inconsciente) e deixo passar uns minutos até a amiga bocejante revelar – ando há que tempos para me inscrever no doutoramento mas não tenho tempo.
O bocejo da amiga prolonga-se mais. È médica e isto dos outros andarem a tirar doutoramentos e ela não, provoca-lhe qualquer coisita mais aguda que um bocejo.
Sorrio para dentro e ponho-me a falar de sapatos .

quarta-feira, abril 02, 2008