sábado, fevereiro 09, 2008

Tudo o que sonho ou passo,

O que me falha ou finda,

É como que um TERRAÇO

Sobre outra coisa ainda.

Essa coisa é que é linda.

Fernando Pessoa


Todas as mulheres vão para o céu.
È o meu lema depois de me meterem enfiado uma agulha na mama esquerda, sem anestesia, para aspiração e biópsia de um nódulo suspeito.
Todas as mulheres vão para o céu.
Mesmo as mais putas, as mais desbragadas, as mais maledicentes, esquivas ou as mais pérfidas, todas, só pelo facto de terem um útero, de viverem as leis da biologia, de parirem em dor e sofrerem na carne o preço da criação, todas as mulheres só podem ter um paraíso de fulgores à sua espera.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Bon petit

Bonpetit

Foi assim que a vida de rodrigo conheceu a sua maior revelação. Foi precisamente nesse dia.
Bonpetit levou-o ao colo até à última escada do avião, entre malas e bagagens, onde o entregou ao colo da mãe.
Na altura rodrigo não percebeu muito bem porque é que Bonpetit não entrava e se sentava ao seu lado, como fazia todos os dias, desde que se lembrava de existir. Sentiu-o hesitar com um tremor, uma ligeira crispação do corpo, antes de o entregar, como se fosse mais uma bagagem ou um objecto frágil que se pensa duas vezes antes de pôr nas nãos de outro alguém.
Não percebeu muito bem as palavras com que Bonpetit enrolava uma última saudação (ou seria bênção de despedida?) em lingala e aquele sussurro acompanhou-o durante todo o voo. Bonpetit era sentinela- chamavam-lhe assim porque a tarefa era guardar a casa ou as lojas ou os meninos, consoante a disposição do patrão, e ali ficava horas, às vezes durante a noite, catana ao lado, a fumar, à espera que nada acontecesse. Rodrigo lembrava-se sempre das suas gargalhadas ruidosas, que enchiam a tarde, um riso a cair em cascata do alto do seu metro e noventa – e os miúdos a apanhá-lo cá em baixo, como contas de vidro - porque Bon-Petit era um gigante negro, enorme, com dois traços verticais tatuados na cara, a alcunha jocosa provinha precisamente daí, ou talvez fosse porque os brancos lhe confiavam a guarda dos filhos, já que ele era bom para as crianças, paciente, aturava-lhes as birras e as manias de meninos mimados, fiel como um cão, dizia o patrão.
- Não me lembro de mais nada dessa longa viagem para Portugal – disse Rodrigo. Nada, a não ser o olhar de Bonpetit, as palavras confusas da sua bênção de despedida - era uma bênção, sei-o hoje – e de adormecer sossegado ao colo da minha mãe, por perceber, na imensa sabedoria dos meus cinco anos, que, apesar de não ter entrado no avião, a sombra protectora de bonpetit estava algures por ali, a fumar o seu cigarro enrolado de fim do dia.

Anjos


- Tinha uma doente, uma mulher de quarenta anos, em fase terminal, um processo longo, doloroso, cheia de metástases, sabíamos que ia morrer a todo o momento, ela também sabia, um dia tínhamos acabado de fazer lhe a higiene, estava fresca, penteei-a com cuidado, estava um mimo, (é preciso conhecer bem a Enfermeira R para termos mesmo a certeza que a doente estava um mimo, higiene perfeita, bem posicionada, com aquele toque que ela tem, a Rosário anda sempre impecável, maquilhada, adora brincos e adereços, usa perfumes sofisticados que nos fazem adivinhar quando passou pelo gabinete), e de repente a doente olha-me e diz-me:
- Dá-me água, preciso de água...
Ela já não conseguia deglutir, mas fui-lhe buscar a água, a ideia era molhar-lhe os lábios com uma compressa,
- Não é isso, preciso de água, disse a doente numa angústia tal, como se a morte lhe estivesse a sorver os restos de água da pele, num desespero tal, que de repente olhei para ela e percebi, em vez de ver o corpo mirrado, corroído pelo cancro, vi uma espécie de flor murcha, sequiosa, a consumir-se em sede, conto-te isto porque és da psiquiatria e entendes, deu-me uma coisa, fui buscar uma garrafa de soro fisiológico, afastei os lençóis e puz-me literalmente a regar a doente dos pés à cabeça com o soro, como se fosse uma planta e eu fosse chuva, as minhas colegas vieram a correr, achavam que estava maluca, que estás a fazer, R, deixem, a doente é minha, e a doente sorria, um sorriso de alívio que ainda hoje guardo, como se estivesse a apanhar chuva, suspirou ligeiramente e parou de respirar, as colegas tiraram-me o soro da mão, e só me lembro que a mulher morreu a sorrir.

Da vida

" A sua cabeça descaiu um pouco na minha direcção. Soergui-a ligeiramente e aconcheguei-a a mim.
Teve, então uma pausa respiratória. Uma vez mais, surpreendi-me a querer fazer alguma coisa, instalar os tubos de oxigénio. De seguida mudei de ideia.
Ela estava a morrer, tinha-mo anunciado. Por que iria eu perturbar esse momento, tão singelo, tão intimo? Inspirou uma golfada de ar e, a seguir, deixou outra vez de respirar durante uns minutos. Sussurrei-lhe ao ouvido algumas palavras de ternura que me invadiam por elas próprias, sei lá de onde. Podia ser minha filha, e as minhas eram palavras de mãe, que pertenciam sem dúvida à alma de todas as mães, palavras vindas da eternidade. Pela segunda vez, recuperou o fôlego. Cruzou-se em mim a imagem de um pobre peixe caído na areia. Gostaria de o lançar de novo á agua. Gostaria de lhe voltar a dar vida. Vinham-me as lágrimas aos olhos. Nunca vivera um momento de tal intensidade. Ela parou, pela terceira vez, de respirar, e a tensão do seu corpo esvaziou-se subitamente. Percebi que acabava de morrer."

(Marie de Hennezel; Jean Yves Leloup-A Arte de Morrer)

Anjos

Os doentes morrem sózinhos em quartos do IPO. Antes, a morte era coisa pública, um evento social, com rituais sociais de passagem que incluiam a família, religiosidade ou a magia. Não me refiro aos rituais de enterramento, mas á morte em si, ao acto de agonizar.
Agora os doentes morrem sem esta rede comunitária, em situações de angústia extrema. Não há mortes fáceis nos quartos do IPO.
E se não morrem sózinhos é porque os enfermeiros estão lá.
São equipas de uma dedicação extrema e de um desgaste extremo.
40 horas semanais a lidar com a dor e a morte, a fazer lutos todos os dias.
Turnos de noite infindáveis, nem sempre a disponibilidade efectiva do recurso a cuidados paliativos.
São eles que lá estão, até ao fim. Ouvem-lhes as últimas palavras, os últimos segredos, os últimos pedidos, fazem-lhes os últimos mimos, choram às vezes no silêncio da noite quando um doente lhes morre literalmente nos braços.

- Morreu-me uma senhora este turno.Uma mulher tão corajosa!Disse-nos, a mim e à ana, quando chegámos, com um sorriso - ai meninas, isto hoje está a correr mal...
E morreu depois de uma noite toda à volta dela, a fazermos tudo, mas mesmo tudo para que estivesse sem dor e confortável... Parecia que estava à nossa espera para morrer. Mas ao mesmo tempo estou tranquila,sei que morreu serena, fizemos tudo.

Parecia que estava à nossa espera, não foi ana?
Para a APFN, “devem terminar de vez todos os escandalosos e crescentes privilégios dados às famílias "monoparentais", ou seja, devem acabar os apoios estatais a mães solteiras e em situação economicamente desfavorecida.
Assim de repente lembra-me aqueles argumentos caritativos recentemente esgrimidos a propósito da luta da mesma associação a favor da manutenção de penas de prisão de mulheres… Tanto egoísmo e incongruência chegam a ser chocantes.

domingo, janeiro 13, 2008

o meu menino é de oiro, é de oiro o meu menino...
quem não tem um menino, de olhar doirado, não pode entender o fluir da cantiga, a penugem das bochechas, as mãos pequenas que tocamos maravilhados, a respiração do menino quando adormece, a sombra tão suave das pestanas, o cheiro, nada de mais doce e doirado que os nossos meninos quando os adormecemos em doirados cansaços.

da escrita

Por vezes, basta um olhar, explicou-me o escritor. Alguém que se desencontra da multidão e fica absorto, numa vertigem da espera, a olhar para um lado improvável.
Às vezes a crispação e um rosto na paragem de autocarro ou umas mãos apodrecidas sobre um colo vazio. Às vezes é só a marca das olheiras de noites mal dormidas e no azulado das órbitas saltam estórias à espera de serem contadas.

sábado, janeiro 12, 2008

Imigração, Stress intenso e prolongado , surto psicótico

Em a 13 de Dezembro de 2001, Makarov, imigrante ucraniano, deu entrada no serviço de Urgências do H Curry Cabral , com dores abdominais. No mesmo dia, devido à gravidade do quadro clínico, uma úlcera do estômago perfurada, foi sujeito a uma intervenção cirúrgica. Seis dias depois, teve alta .

Makarov começou a sentir-se mal, com dores, vómitos e ansiedade. E, em Agosto de 2002vomitou uma compressa pequena, dois ganchos e fio de sutura.

Apesar de se sentir bastante mal e não conseguir ingerir quase nenhuns alimentos sólidos, Makarov aguentou estoicamente e apenas voltou a recorrer a apoio médico em Novembro de 2002.
A razão desta atitude não é enunciada pelo MP, mas é provável que ela decorresse do facto de ser imigrante estar em situação ilegal e evitar o contacto com as instituições de saúde. A trabalhar nas obras, como operador de máquinas, Makarov só obteve autorização de permanência a 23 de Setembro de 2002.

Só depois de recorrer a serviços privados e fazer um raio X, o imigrante foi canalizado para as Urgências do HCC, onde foi de novo operado, para lhe retirarem uma tesoura, fechada, do estômago.

Recuperou das lesões abdominais, mas, em Maio de 2004, seria "encontrado na via pública com comportamentos psicóticos". Foi transportado para o HCC e transferido para o Hospital Júlio de Matos, onde lhe diagnosticaram uma "psicose delirante não especificada".
Nota - Makarov foi operado por uma equipa incompleta, uma vez que não integrava um enfermeiro instrumentista - a quem compete contar o material no início e no fim das cirurgias. Contudo, conclui que, nesse caso, os médicos deveriam ter delegado as contagens no "pessoal circulante", ou feito, eles próprios, esse trabalho.