Os doentes morrem sózinhos em quartos do IPO. Antes, a morte era coisa pública, um evento social, com rituais sociais de passagem que incluiam a família, religiosidade ou a magia. Não me refiro aos rituais de enterramento, mas á morte em si, ao acto de agonizar.
Agora os doentes morrem sem esta rede comunitária, em situações de angústia extrema. Não há mortes fáceis nos quartos do IPO.
E se não morrem sózinhos é porque os enfermeiros estão lá.
São equipas de uma dedicação extrema e de um desgaste extremo.
40 horas semanais a lidar com a dor e a morte, a fazer lutos todos os dias.
Turnos de noite infindáveis, nem sempre a disponibilidade efectiva do recurso a cuidados paliativos.
São eles que lá estão, até ao fim. Ouvem-lhes as últimas palavras, os últimos segredos, os últimos pedidos, fazem-lhes os últimos mimos, choram às vezes no silêncio da noite quando um doente lhes morre literalmente nos braços.
- Morreu-me uma senhora este turno.Uma mulher tão corajosa!Disse-nos, a mim e à ana, quando chegámos, com um sorriso - ai meninas, isto hoje está a correr mal...
E morreu depois de uma noite toda à volta dela, a fazermos tudo, mas mesmo tudo para que estivesse sem dor e confortável... Parecia que estava à nossa espera para morrer. Mas ao mesmo tempo estou tranquila,sei que morreu serena, fizemos tudo.
Parecia que estava à nossa espera, não foi ana?
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
Para a APFN, “devem terminar de vez todos os escandalosos e crescentes privilégios dados às famílias "monoparentais", ou seja, devem acabar os apoios estatais a mães solteiras e em situação economicamente desfavorecida.
Assim de repente lembra-me aqueles argumentos caritativos recentemente esgrimidos a propósito da luta da mesma associação a favor da manutenção de penas de prisão de mulheres… Tanto egoísmo e incongruência chegam a ser chocantes.
Assim de repente lembra-me aqueles argumentos caritativos recentemente esgrimidos a propósito da luta da mesma associação a favor da manutenção de penas de prisão de mulheres… Tanto egoísmo e incongruência chegam a ser chocantes.
domingo, janeiro 13, 2008
o meu menino é de oiro, é de oiro o meu menino...
quem não tem um menino, de olhar doirado, não pode entender o fluir da cantiga, a penugem das bochechas, as mãos pequenas que tocamos maravilhados, a respiração do menino quando adormece, a sombra tão suave das pestanas, o cheiro, nada de mais doce e doirado que os nossos meninos quando os adormecemos em doirados cansaços.
quem não tem um menino, de olhar doirado, não pode entender o fluir da cantiga, a penugem das bochechas, as mãos pequenas que tocamos maravilhados, a respiração do menino quando adormece, a sombra tão suave das pestanas, o cheiro, nada de mais doce e doirado que os nossos meninos quando os adormecemos em doirados cansaços.
da escrita
Por vezes, basta um olhar, explicou-me o escritor. Alguém que se desencontra da multidão e fica absorto, numa vertigem da espera, a olhar para um lado improvável.
Às vezes a crispação e um rosto na paragem de autocarro ou umas mãos apodrecidas sobre um colo vazio. Às vezes é só a marca das olheiras de noites mal dormidas e no azulado das órbitas saltam estórias à espera de serem contadas.
Às vezes a crispação e um rosto na paragem de autocarro ou umas mãos apodrecidas sobre um colo vazio. Às vezes é só a marca das olheiras de noites mal dormidas e no azulado das órbitas saltam estórias à espera de serem contadas.
sábado, janeiro 12, 2008
Imigração, Stress intenso e prolongado , surto psicótico
Em a 13 de Dezembro de 2001, Makarov, imigrante ucraniano, deu entrada no serviço de Urgências do H Curry Cabral , com dores abdominais. No mesmo dia, devido à gravidade do quadro clínico, uma úlcera do estômago perfurada, foi sujeito a uma intervenção cirúrgica. Seis dias depois, teve alta .
Makarov começou a sentir-se mal, com dores, vómitos e ansiedade. E, em Agosto de 2002vomitou uma compressa pequena, dois ganchos e fio de sutura.
Apesar de se sentir bastante mal e não conseguir ingerir quase nenhuns alimentos sólidos, Makarov aguentou estoicamente e apenas voltou a recorrer a apoio médico em Novembro de 2002.
A razão desta atitude não é enunciada pelo MP, mas é provável que ela decorresse do facto de ser imigrante estar em situação ilegal e evitar o contacto com as instituições de saúde. A trabalhar nas obras, como operador de máquinas, Makarov só obteve autorização de permanência a 23 de Setembro de 2002.
Só depois de recorrer a serviços privados e fazer um raio X, o imigrante foi canalizado para as Urgências do HCC, onde foi de novo operado, para lhe retirarem uma tesoura, fechada, do estômago.
Recuperou das lesões abdominais, mas, em Maio de 2004, seria "encontrado na via pública com comportamentos psicóticos". Foi transportado para o HCC e transferido para o Hospital Júlio de Matos, onde lhe diagnosticaram uma "psicose delirante não especificada". Nota - Makarov foi operado por uma equipa incompleta, uma vez que não integrava um enfermeiro instrumentista - a quem compete contar o material no início e no fim das cirurgias. Contudo, conclui que, nesse caso, os médicos deveriam ter delegado as contagens no "pessoal circulante", ou feito, eles próprios, esse trabalho.
Makarov começou a sentir-se mal, com dores, vómitos e ansiedade. E, em Agosto de 2002vomitou uma compressa pequena, dois ganchos e fio de sutura.
Apesar de se sentir bastante mal e não conseguir ingerir quase nenhuns alimentos sólidos, Makarov aguentou estoicamente e apenas voltou a recorrer a apoio médico em Novembro de 2002.
A razão desta atitude não é enunciada pelo MP, mas é provável que ela decorresse do facto de ser imigrante estar em situação ilegal e evitar o contacto com as instituições de saúde. A trabalhar nas obras, como operador de máquinas, Makarov só obteve autorização de permanência a 23 de Setembro de 2002.
Só depois de recorrer a serviços privados e fazer um raio X, o imigrante foi canalizado para as Urgências do HCC, onde foi de novo operado, para lhe retirarem uma tesoura, fechada, do estômago.
Recuperou das lesões abdominais, mas, em Maio de 2004, seria "encontrado na via pública com comportamentos psicóticos". Foi transportado para o HCC e transferido para o Hospital Júlio de Matos, onde lhe diagnosticaram uma "psicose delirante não especificada". Nota - Makarov foi operado por uma equipa incompleta, uma vez que não integrava um enfermeiro instrumentista - a quem compete contar o material no início e no fim das cirurgias. Contudo, conclui que, nesse caso, os médicos deveriam ter delegado as contagens no "pessoal circulante", ou feito, eles próprios, esse trabalho.
Vegetas doentes

Uma reportagem interessante na Visão desta semana sobre um "convertido" ao vegetarianismo. E experiência clínica traz resultados perturbantes - uma dieta vegetariana restritiva conduziu a alterações metabólicas extremamnete negativas - aumento radical dos triglicéridos, e da homocísteína ( factores agravantes de doença cardiovascular); baixa para metade dos níveis de Vitamina B12 e ácido Fólico ( com graves consequências neurológicas e psíquicas a longo prazo), baixa considerável de ferritina e ferro sérico ( risco de anemia). E isto num indivíduo jovem e saudável...
sexta-feira, janeiro 11, 2008
Eles é que sabiam
Este é o mais visto no Youtube nos últimos dias.
As minhas homenagens aos Gatos com a demosntração de que o humor mais nonsense é um indicador seguro das tendências políticas.
As minhas homenagens aos Gatos com a demosntração de que o humor mais nonsense é um indicador seguro das tendências políticas.
quarta-feira, janeiro 09, 2008
De iniciado a perito
As competências técnicas da prática clínica em profissões de saúde só se adquirem com treino. E os “objectos” do treino intensivo são cobaias humanas. AS competências de um enfermeiro, ou de um cirurgião ou de um terapeuta ou de um obstreta depende de algo só aparentemente muito simples – experiência práticas concretas, repetição rotinizada de “boas práticas”, experiências contínuas de padrões de comportamentos técnicos em quantidade considerável, de forma a que os gestos técnicos se tornem rotinizados, seguros, quase automáticos.
Quando falamos em treino de competências, quanto mais, melhor. Um perito é capaz de ultrapassar a segurança da rotina técnica e ter uma visão mais abrangente podendo agir em situações excepcionais ou de emergência. Mas um perito só adquire este patamar de articulação /concepção ou criatividade porque está muito seguro das rotinas técnicas básicas.
O treino de competências clínicas em cobaias humanas levanta questões éticas delicadas.Levanta também questões práticas de oportunidades concretas de aprendizagens significativas e estruturantes de competências técnicas básicas.
Algumas alternativas são práticas em laboratório. A Escola de Ciências da Saúde do pólo de Braga da Universidade do Minho (UM) abriu um Laboratório de Aptidões Clínicas, para formar os seus estudantes, treinando-os na recolha de histórias clínicas.O projecto, permite que os alunos contactem com "doentes estandardizados", actores treinados para simular determinada patologiacom o objectivo de melhorar a comunicação dos médicos com os pacientes.
Ou seja as competências e técnicas comunicacionais são um instrumento de base na prática clínica e devem ser objecto de aprendizagem.
Outras comptências técnicas instrumentais podem também ser treinadas em laboratório.
usando estratégias ou equipamentos elaborados, com recurso a novas tecnologias.
Mas o “saber fazer”, quando se trata de intervenções /cuidados em seres humanos, tem de ultrapassar as fronteiras laboratoriais.
Quando falamos em treino de competências, quanto mais, melhor. Um perito é capaz de ultrapassar a segurança da rotina técnica e ter uma visão mais abrangente podendo agir em situações excepcionais ou de emergência. Mas um perito só adquire este patamar de articulação /concepção ou criatividade porque está muito seguro das rotinas técnicas básicas.
O treino de competências clínicas em cobaias humanas levanta questões éticas delicadas.Levanta também questões práticas de oportunidades concretas de aprendizagens significativas e estruturantes de competências técnicas básicas.
Algumas alternativas são práticas em laboratório. A Escola de Ciências da Saúde do pólo de Braga da Universidade do Minho (UM) abriu um Laboratório de Aptidões Clínicas, para formar os seus estudantes, treinando-os na recolha de histórias clínicas.O projecto, permite que os alunos contactem com "doentes estandardizados", actores treinados para simular determinada patologiacom o objectivo de melhorar a comunicação dos médicos com os pacientes.
Ou seja as competências e técnicas comunicacionais são um instrumento de base na prática clínica e devem ser objecto de aprendizagem.
Outras comptências técnicas instrumentais podem também ser treinadas em laboratório.
usando estratégias ou equipamentos elaborados, com recurso a novas tecnologias.
Mas o “saber fazer”, quando se trata de intervenções /cuidados em seres humanos, tem de ultrapassar as fronteiras laboratoriais.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

