Naquela manhã os miúdos foram às escondidas espreitar a moribunda. Nunca tinham visto uma quase morta e a casa estava assim, numa agitação, a porta entreaberta, a família, visitas e amigos que entravam e saíam em compungido silencio, á espera de qualquer coisa. Antigamente, as mortes dos velhos eram assim, em velhas casas de família, com todo um ritual de luto antecipado e uma espécie de liturgia comunitária.
As crianças tinham apanhado aqui e ali a conversa dos adultos e uma coisa era certa – a velhota agonizava.
Com o coração aos pulos subi a escada movida por uma curiosidade que nunca sentira. O que era morrer? Como eram as pessoas quase mortas?
De mansinho empurrei a porta entreaberta e entrei no quarto sem que ninguém reparasse. Lá dentro, uma agitação silenciosa. Várias mulheres moviam-se na sombra. E então, de peito cheio de ar enfrentei o rosto da moribunda. De boca entreaberta, um tom de pele inerte, feia, feíssima na repulsão da agonia, fitava-me com uns olhos baços cobertos de uma película esbranquiçada que me nauseou. Respirava ainda, num estertor sussurrante, que se misturou com o cheiro do quarto (o cheiro a morte colado ás paredes) e o grito súbito de uma das mulheres a enxotar-me para que não visse aquilo. Mas vi, desci as escadas em turbilhão com um vómito retido e a imagem da película baça a escorrer dos olhos da quase morta revolvia-me o estômago.
Então a morte era isto, um vómito, uma película repugnante no olhar.
E de repente, misturada com a náusea, senti uma alegria animal, uma exaltação inebriante completamente nova. Larguei a correr até me faltar o ar e o coração explodir na garganta só para sentir os pulmões cheios de vento, as pernas e os braços a mexerem-se em liberdade. Quando parei, exausta, transpirada e inebriada de sensações luminosas dos meus seis anos, percebi de súbito a causa da euforia.
Ainda bem, és tu velha que estás morta, eu estou viva, estou viva, estou viva.
segunda-feira, setembro 17, 2007
sexta-feira, setembro 14, 2007
Santos ateus
"Onde está minha fé, inclusive aqui no mais profundo não há nada, meu Deus, que dolorosa é esta pena desconhecida. Não tenho fé”
"Trabalho para quê? Se Deus não existir, não pode existir alma. Se não existir alma, então, Jesus, Tu também não és verdade".
Teresa
Nota - para alguns, cinquenta anos de aterrador vazio , dúvidas sobre a existência de deus e silêncio, não é uma crise de fé. mas a prova da existência da divindade.
Um completo absurdo.
quinta-feira, setembro 13, 2007
Fundamentalistas

O que é comum nos crentes fundamentalistas de qualquer religião é a incapacidade de ler com distanciamento a mais simples análise crítica às suas crenças ou simbologias religiosas.
Basta lembrar o caso das caricaturas sobre maomé (em versão lusa tivemos a questão da caricatura do papa com um preservativo no nariz, que fez correr tanta tinta e até apelos à "censura"...).
A diferença entre os fundamentalistas cristãos e islãmicos não é assim tanta - em boa verdade os argumentos de uns e outros sobre questões essenciais, como o laicismo do Estado, os direitos humanos, as questões de género, a bioética ou o discurso sobre a ciência são rigorosamente iguais.
Os discursos centrais do fundamentalismo pretendem impedir a separação da religião e do Estado, a interpretação crítica dos "livros sagrados" ou da teologia oficial, ou "o respeito pela liberdade de consciência, de pensamento, de expressão, de reunião, de associação, "o direito à crítica da religião", à mudança de religião e à não crença, a igualdade dos sexos e dos seus direitos, "a distinção entre ética civil e ética religiosa".
De igual forma, o "fundamentalismo religioso" impede qualquer leitura mais reflexiva sobre dados históricos relativos aos seus ícones, ou a questões relacionadas com os seus percursos de fé. A fabricação de mitos e de ícones sagrados ( os santos, os profetas e os mártires) corresponde uma lógica delirante de fabricação de sinais que sustentam o sistema de crenças, que podem ser completamente desligados da realidade cognoscível.
E é este exercício permanente de "defesa agressiva" que caracteriza os deentores das verdades absolutas em matéria de fé.
Verdades absolutas até sobre as radicais dúvidas dos outros.
terça-feira, setembro 11, 2007
Inocência
Deve haver profissões em que se perde a inocência, sobretudo aquelas em que mais se lida com a sordidez humana nas suas mais variadas formas. Suponho que a investigação criminal seja uma delas. Lidar com factos destes deve deixar em qualquer investigador judicial uma ausência absoluta de crença no ser humano e uma secreta convicção que todo a gente é capaz de tudo – basta ter os contextos, as motivações e as oportunidades.
Há outras profissões bem mais insuspeitas em que o cinismo do conhecimento da realidade humana faz com que ao olhar os outros se veja sempre para lá das aparências ditadas pela conveniência social e se adivinhem os desvios ou as fragilidades.
Mesmo assim, até na brutalidade, há sempre qualquer coisa de desconhecido em cada pessoa humana que surpreende os mais cínicos. Para o bem e para o mal.
Há outras profissões bem mais insuspeitas em que o cinismo do conhecimento da realidade humana faz com que ao olhar os outros se veja sempre para lá das aparências ditadas pela conveniência social e se adivinhem os desvios ou as fragilidades.
Mesmo assim, até na brutalidade, há sempre qualquer coisa de desconhecido em cada pessoa humana que surpreende os mais cínicos. Para o bem e para o mal.
Todos os media nos bombardeiam com informações sobre maggie e a presumível culpa dos pais.
Não sei bem onde pára a presunção de inocência e acho tenebrosa esta lapidação pública através dos media.
Posto isto, devo dizer que o rosto daquela mãe nunca me convenceu.
Trata-se de uma questão de puro senso comum - alguém seria capaz de deixar sózinhos e sem qualquer vigilãncia dois bébés pequeninos e uma criança de quatro anos num apartamento de portas abertas e ir tranquilamente jantar fora?
Não sei bem onde pára a presunção de inocência e acho tenebrosa esta lapidação pública através dos media.
Posto isto, devo dizer que o rosto daquela mãe nunca me convenceu.
Trata-se de uma questão de puro senso comum - alguém seria capaz de deixar sózinhos e sem qualquer vigilãncia dois bébés pequeninos e uma criança de quatro anos num apartamento de portas abertas e ir tranquilamente jantar fora?
sexta-feira, agosto 31, 2007
Santos Ateus
Teresa de Calcutá, o maior ícone católico da segunda metade do século XX viveu a maior parte da sua vida sem qualquer fé. E mesmo com sérias dúvidas sobre a existência de deus, o que lhe terá provocado uma terrível angústia existencial, já que proclamava publicamente o contrário do que acreditava e sentia.
Que este facto sirva para provar a existência de deus ( na sua ausência sádica de amante infiel ) ou até a santidade ateia da mesma, é uma contradição que delicia agnósticos e ateus, demonstrando à saciedade que a irracionalidade da religião se alimenta do mais puro absurdo, e que a crença não se baseia am qualquer argumentação lógica.
Que este facto sirva para provar a existência de deus ( na sua ausência sádica de amante infiel ) ou até a santidade ateia da mesma, é uma contradição que delicia agnósticos e ateus, demonstrando à saciedade que a irracionalidade da religião se alimenta do mais puro absurdo, e que a crença não se baseia am qualquer argumentação lógica.
domingo, agosto 12, 2007
sexta-feira, agosto 03, 2007
O calor tem destas coisas. Damos por nós a ouvir como música de fundo o inefável programa da Júlia . Não é julinha, nem senhora julia, nem dona júlia, nem stora julia, com que alguns convidados, prestimosamente a mimam. E de repente, no programa da Júlia, a propósito de fenómenos estranhos, como premonições e contactos com o além.. .chama-se a voz da ciência. E ela parece, inefável, “encarnada” numa senhora que se diz psicóloga clínica e que proclama a sua euforia por poder falar publicamente sobre "fenómenos da espiritualidade".
E que afirma essa senhora, da cátedra da sua ciência? Afirma que há estudos científicos que comprovam a mediuinidade (quais??) e vai mesmo mais longe... Afirma a senhora, sem pestanejar que sim senhor, que até temos uma glândula pineal que capta ondas electromagnéticas que são transmitidas ao córtex e bla bla bla...
A populaça, rendida , aplaude. Teria mais utilidade uma explicação do professor Karamba.
A para-ciência, servida em fatias. Haverá uma ordem dos psicólogos?
E que afirma essa senhora, da cátedra da sua ciência? Afirma que há estudos científicos que comprovam a mediuinidade (quais??) e vai mesmo mais longe... Afirma a senhora, sem pestanejar que sim senhor, que até temos uma glândula pineal que capta ondas electromagnéticas que são transmitidas ao córtex e bla bla bla...
A populaça, rendida , aplaude. Teria mais utilidade uma explicação do professor Karamba.
A para-ciência, servida em fatias. Haverá uma ordem dos psicólogos?
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