segunda-feira, maio 28, 2007

Amores possíveis


Foi mais ou menos assim: á saída das urgências , depois de um turno embrutecedor, o joão comentou que nessa manhã a água faltara no meio do duche e ele ficara atordoado, olhos a lutarem contra a espuma do Shampoo, a apalpar ás cegas o caminho para a toalha, como uma barata tonta, no meio da neblina do vapor.
Entre risos, inesperadamente, Inês imaginou-o nu, o dorso moreno ensaboado, as pernas musculosas, o pénis semierecto de um prazer interrompido, viu os gestos entontecidos da vulnerabilidade cega, e amou-o logo ali, para sempre, sem que ele sequer sonhasse.

domingo, maio 27, 2007

O amor possível


Quando edite se apaixonou por thomas estava gravidíssima do luís. ~
Não se pense que edite era um galdéria qualquer, nada disso. De boas famílias, atinadinha, metódica, casou mais por inevitabilidade que por convicção com o eterno namoradinho de faculdade.
Morena, de um sorriso translúcido a desfazer-se em covinhas, edite é e sempre foi , a ditinha para os amigos. Calma, serena tranquila, sem um rasgo de paixão ou dolorosa inquietação, inteligente, suave, nunca vi estremecer a ditinha num sussurro de uma discussão durante os anos que partilhamos .
Atravessou a faculdade sempre na sombra do luís e o casamento pareceu-nos a todos um percurso normal.
Ditinha apaixonou-se pelo thomas numa reviragem de filme, desses momentos que merecem uma banda sonora especial. Um verdadeiro amor é sempre um amor á primeira vista , contou-me, e assim foi quando viu Thomas pela primeira vez, loiro, altíssimo, com longas mãos de artesão perdido, e ele a descobriu deslumbrado, morena, de olhos fulvos, sorriso a desfazer-se em covinhas e uma enorme barriga de virgem grávida.

Foi há nove anos. Estão juntos até hoje.

As relações laborais são muitas vezes marcadas pela competição, hipocrisia, pequenas intrigas e frustração. Mas mais grave que isso é observar as relações entre pessoas próximas baseadas no egoísmo e na autogratificação.
O outro só interessa na medida em que satisfaz pulsões narcísicas…
E chamam a isso amor.
E família. E laços sagrados…E discursos éticos e religiosos e bla bla bla.

sábado, maio 26, 2007


O segredo da felicidade é nada esperar.

Mestiço, na terminologia francesa é um tecido, o que supõe criação, assimilação, elaboração a partir de fios ou materiais diferentes. E, todavia, não é um tecido plenamente conseguido: a cunhagem da palavra francesa métissage acaba por incorporar no prefixo mé a mesma incompletude e o mesmo sentido de insuficiência que esse prefixo empresta à palava méconnaissance que, não sendo integralmente traduzível pela palavra ignorância ou não conhecimento, remete no entanto para uma certa desadequação ou incumprimento do conhecimento.
Assim, mestiçagem não é a fusão total dos fios com que se tece, nem é a sua separação total: está a meio-caminho entre o ser e o não ser.

Laplantine

AS MULHERES EM PORTUGAL Direito ao Voto

1911 A médica Carolina Beatriz Ângelo, viúva e mãe, vota nas eleições para a Assembleia Constituinte, invocando a sua qualidade de chefe de família.
A lei é posteriormente alterada, reconhecendo apenas o direito de voto a homens.

1913 Primeira mulher licenciada em Direito - Regina Quintanilha.

Lei n.º 3, de 3 de Julho de 1913, que atribui o direito de voto aos cidadãos do sexo masculino que saibam ler e escrever.
1931 Expresso reconhecimento do direito de voto às mulheres diplomadas com cursos superiores ou secundários (Decreto com força de lei n.º 19694, de 5 de Maio de 1931) - aos homens continua a exigir-se apenas que saibam ler e escrever.
1933 Nova Constituição Política do Estado Novo que estabelece a igualdade dos cidadãos perante a lei, "salvas, quanto à mulher, as diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família" (Art.º 5.º).

1946 Nova lei eleitoral, mais alargada que a de 1931, continuando, porém, a exigir ainda requisitos diferentes para os homens e para as mulheres eleitores da Assembleia Nacional (Lei n.º 2 015, de 28 de Maio de 1946).

1967 Entrada em vigor do novo Código Civil. Segundo este, a família é chefiada pelo marido, a quem compete decidir em relação à vida conjugal comum e aos filhos.

1968 Lei n.º 2 137, de 26 de Dezembro de 1968, que proclama a igualdade de direitos políticos do homem e da mulher, seja qual for o seu estado civil. Em relação às eleições locais, permanecem, contudo, as desigualdades, sendo apenas eleitores das Juntas de Freguesia os chefes de família.

1974 Revolução de 25 de Abril. Instauração da Democracia.

Três diplomas abrem o acesso das mulheres, respectivamente, a todos os cargos da carreira administrativa local (Decreto-Lei n.º 251/74, de 12 de Junho), à carreira diplomática (Decreto-Lei n.º 308/74, de 6 de Julho) e à magistratura (Decreto-Lei n.º 492/74, de 27 de Setembro).

Abolidas todas as restrições baseadas no sexo quanto à capacidade eleitoral dos cidadãos (Decreto-Lei n.º 621/A/74, de 15 de Novembro).

Primeira mulher ministra: Eng. Maria de Lourdes Pintasilgo, na pasta dos Assuntos Sociais.

sexta-feira, maio 25, 2007

Somos todos mestiços


Mestiçagem é, em primeiro lugar, uma experiência – da desapropriação, da ausência e da incerteza que pode brotar de um encontro, o que traduz uma condição muitas vezes dolorosa de “afastamento do que se é” para mergulhar no futuro imprevisível do mistério do outro e dos outros. A noção de mestiçagem, seja aplicada a pessoas, ou pensamentos, cultura ou arte, é sempre uma condição de algo em movimento, sendo o nomadismo e a metamorfose os seus símbolos privilegiados e a desapropriação, como mediação entre a familiaridade e o estranhamento, o seu estado natural.

Laplantine

quarta-feira, maio 23, 2007

Legado de Chernobyl

Por uma questão de pesquisa , dispus-me nos últimos dias a estudar a relação entre viver perto de Chernobyl e uma maior incidência de perturbações psiquiátricas ou maior vulnerabilidade ao stress.
Encontrei, de entre os milhares de textos e investigações disponíveis, este extraordinário documento.

Para digerir em silêncio, com um nó na garganta.
Vale mais que mil correlações estatisticamente significativas, mas infelizmente, não posso usar nem imagens digitais, nem documentos electrónicos na minha investigação.

domingo, maio 20, 2007

Aguarela




Na praça, á volta do tocador de guitarra, amontoa-se uma pequena multidão policromada. Os mais novos de rastas, roupas étnicas, tatuagens, piercings, as marcas codificadas da tribo, mistura de subculturas alternativas em que padrões seventies se misturam com padrões futuristas, num revivalismo juvenil de colagem de mosaicos, mesmo ao lado, uma velhíssima senhora, com um penteado impecável anos cinquenta procura um espaço para se sentar. O que há de mais encantador na figura escorrida é o desenho das sobrancelhas, um finíssimo traço a lápis preto define o enquadramento do olhar, estilo Marlene Dietrich, a saia de pregas, impecável, que ela alisa mesmo assim em gestos lentos enquanto ouve a balada, e ao lado os turistas, os casais improváveis, mendigos árabes a fingirem estátuas, uma puta velha de meias de rede, a cobiçar umas brincos de quinquilharia e uma dourada luz mediterrânica a embalar tudo.

Lassie, a cadela da avó da Francisca morreu. Não houve nenhum acidente, nenhuma doença grave. A cadela estava velhota e só o amor e o conforto da família lhe permitia uma vida longa e funcional.
Mas a Francisca e a Lassie tinham um amor muito forte. Quando a Francisca nasceu a Lassie já era uma bela cachorra e desde que se lembra do mundo, e ao longo de dez anos, Francisca contou com as brincadeiras, os mimos, a força e a cumplicidade da Lassie. Nas últimas férias da Páscoa, quando Francisca esteve doente, com febre, a lassie passou o tempo todo deitada ao lado dela, com um ar preocupado e protector.
Por isso a Francisca durante esta semana chorou várias vezes na escola, em silêncio e meio envergonhada de demonstrar a sua dor. Só um grupinho pequenino (as amigas da turma, expressão pequena para classificar a deliciosa teia de relações entre cinco meninas de dez anos) sabia do segredo. Sim, porque a dor do luto é um segredo.
Num intervalo lá estavam todas – a Francisca a chorar, inconsolável, a esconder as lágrimas para que nenhum miúdo parvo da turma se apercebesse e ainda gozasse, a contar que sempre que via um cão na rua sentia uma tristeza tão grande que não conseguia conter as lágrimas. As outras meninas confortavam-na e partilhavam as suas perdas – um cãozito, a tartaruga de estimação - abraçavam-na davam-lhe beijinhos. Até que a maria luís, do alto dos seus dez anos, encontrou estas palavras mágicas – Mas ó Francisca, a Lassie vai ficar sempre contigo no teu coração. Enquanto lá estiver, não morreu.

Abismada com a profundidade da frase, reflecti que não ensinamos as nossas crianças a viver as dores, o luto e a perda. Não lhes falamos sequer da inevitabilidade da morte, evitamos que vão a funerais ou que contactem com pessoas em fase terminal.

E, num mundo esvaziado de crenças religiosas e do conceito de continuidade, numa sociedade onde a morte é tabu e em que começa a ser socialmente desajustado a expressão do luto emocional, pergunto-me como podemos ensinar ás nossas crianças a lidar com a morte e a inevitabilidade das perdas.
Ou como podemos nós mesmos aprender a arte de morrer?