sexta-feira, maio 25, 2007

Somos todos mestiços


Mestiçagem é, em primeiro lugar, uma experiência – da desapropriação, da ausência e da incerteza que pode brotar de um encontro, o que traduz uma condição muitas vezes dolorosa de “afastamento do que se é” para mergulhar no futuro imprevisível do mistério do outro e dos outros. A noção de mestiçagem, seja aplicada a pessoas, ou pensamentos, cultura ou arte, é sempre uma condição de algo em movimento, sendo o nomadismo e a metamorfose os seus símbolos privilegiados e a desapropriação, como mediação entre a familiaridade e o estranhamento, o seu estado natural.

Laplantine

quarta-feira, maio 23, 2007

Legado de Chernobyl

Por uma questão de pesquisa , dispus-me nos últimos dias a estudar a relação entre viver perto de Chernobyl e uma maior incidência de perturbações psiquiátricas ou maior vulnerabilidade ao stress.
Encontrei, de entre os milhares de textos e investigações disponíveis, este extraordinário documento.

Para digerir em silêncio, com um nó na garganta.
Vale mais que mil correlações estatisticamente significativas, mas infelizmente, não posso usar nem imagens digitais, nem documentos electrónicos na minha investigação.

domingo, maio 20, 2007

Aguarela




Na praça, á volta do tocador de guitarra, amontoa-se uma pequena multidão policromada. Os mais novos de rastas, roupas étnicas, tatuagens, piercings, as marcas codificadas da tribo, mistura de subculturas alternativas em que padrões seventies se misturam com padrões futuristas, num revivalismo juvenil de colagem de mosaicos, mesmo ao lado, uma velhíssima senhora, com um penteado impecável anos cinquenta procura um espaço para se sentar. O que há de mais encantador na figura escorrida é o desenho das sobrancelhas, um finíssimo traço a lápis preto define o enquadramento do olhar, estilo Marlene Dietrich, a saia de pregas, impecável, que ela alisa mesmo assim em gestos lentos enquanto ouve a balada, e ao lado os turistas, os casais improváveis, mendigos árabes a fingirem estátuas, uma puta velha de meias de rede, a cobiçar umas brincos de quinquilharia e uma dourada luz mediterrânica a embalar tudo.

Lassie, a cadela da avó da Francisca morreu. Não houve nenhum acidente, nenhuma doença grave. A cadela estava velhota e só o amor e o conforto da família lhe permitia uma vida longa e funcional.
Mas a Francisca e a Lassie tinham um amor muito forte. Quando a Francisca nasceu a Lassie já era uma bela cachorra e desde que se lembra do mundo, e ao longo de dez anos, Francisca contou com as brincadeiras, os mimos, a força e a cumplicidade da Lassie. Nas últimas férias da Páscoa, quando Francisca esteve doente, com febre, a lassie passou o tempo todo deitada ao lado dela, com um ar preocupado e protector.
Por isso a Francisca durante esta semana chorou várias vezes na escola, em silêncio e meio envergonhada de demonstrar a sua dor. Só um grupinho pequenino (as amigas da turma, expressão pequena para classificar a deliciosa teia de relações entre cinco meninas de dez anos) sabia do segredo. Sim, porque a dor do luto é um segredo.
Num intervalo lá estavam todas – a Francisca a chorar, inconsolável, a esconder as lágrimas para que nenhum miúdo parvo da turma se apercebesse e ainda gozasse, a contar que sempre que via um cão na rua sentia uma tristeza tão grande que não conseguia conter as lágrimas. As outras meninas confortavam-na e partilhavam as suas perdas – um cãozito, a tartaruga de estimação - abraçavam-na davam-lhe beijinhos. Até que a maria luís, do alto dos seus dez anos, encontrou estas palavras mágicas – Mas ó Francisca, a Lassie vai ficar sempre contigo no teu coração. Enquanto lá estiver, não morreu.

Abismada com a profundidade da frase, reflecti que não ensinamos as nossas crianças a viver as dores, o luto e a perda. Não lhes falamos sequer da inevitabilidade da morte, evitamos que vão a funerais ou que contactem com pessoas em fase terminal.

E, num mundo esvaziado de crenças religiosas e do conceito de continuidade, numa sociedade onde a morte é tabu e em que começa a ser socialmente desajustado a expressão do luto emocional, pergunto-me como podemos ensinar ás nossas crianças a lidar com a morte e a inevitabilidade das perdas.
Ou como podemos nós mesmos aprender a arte de morrer?

sábado, maio 19, 2007

A religião e as mulheres


A net tem destas coisas. Podemos escrever um milhão de páginas contra o fundamentalismo religioso ou contra a violência sobre as mulheres. Mas nada, mesmo nada tem o impacto das imagens em directo e on line da lapidação brutal (e tenebrosamente lenta) de uma menina de 17 anos.
As imagens horrendas, gravaads num telemóvel, estão disponíveis há alguns dias.

Eu, sou sincera, não consegui ver. Não consegui.

Dua podia ser qualquer uma de nós, as nossas filhas, a nossa irmã mais velha.

Para quem acha que o laicismo e o feminismo devem estar fora das agendas civilizacionais, a morte de Dua faz sentido.

domingo, maio 13, 2007

Ciência e Fé

Poema para Galileo
(….)
Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
(…)
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
(…)
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
A.Gedeão

sábado, maio 12, 2007

Quando focamos a nossa atenção num único elemento concreto da realidade, é absolutamente provável que nos escapem completamente ( em termos de percepção sensorial) outras mudanças drásticas do contexto que estamos a percepcionar.

Esta limitação fisiológica do nosso sistema nervoso central, que não é propriamente uma limitação pois implica uma vantagem evolutiva, é o ponto de partida das técnicas de ilusão dos mágicos, manipuladores, burlões, ilusionistas e alguns indivíduos das “ciências ocultas”, espiritualidades alternativas, seitas e misticismos exacerbados.

Mas é também o ponto de partida para os manipuladores ideológicos ou de opinião.

quarta-feira, maio 09, 2007



António Gedeão.

Alguém viu esta menina?


Nunca em Portugal o desaparecimento de uma criança activou tantos meios policiais, suscitou tanto interesse mediático e provocou uma onda de solidariedade tão intensa, meso na internet.
Só é pena que tal não se repita de cada vez que desaparece uma criança portuguesa.
Sabe-se que se uma criança raptada não for encontrada nas primeiras vinte e quatro horas, as possibilidades de aparecer viva são reduzidas.
Apesar dos “visionamentos” fruto da sugestão, Madeleine , neste momento já não deve estar viva. O que as autoridades buscam é um cadáver e um potencial homicida, provavelmente um pedófilo e provavelmente de nacionalidade inglesa, e provavelmente muito próximo dos hábitos daquela família.
Os contornos deste “rapto” enchem de terror qualquer pai e mãe. Um momento de algum facilitismo e um intruso rouba uma filha. Aliado ao terror da perda, está o horror da pedofilia ou do tráfico de crianças. Dos actos isolados ás redes transnacionais, os crimes contra as crianças são hoje uma ameaça global, que afecta sobretudo os meninos e as meninas de países subdesenvolvidos.
Há milhões e milhões de Madeleines por esse mundo fora e estes crimes horrendos devem ser denunciados e combatidos.
Mas, o mais importante de tudo é sermos capazes de proteger os nosso filhos de predadores e de os educar para a segurança e responsabilidade. Sem entrarmos em paranóias de insegurança. Confesso que não é um equilíbrio fácil.

sábado, maio 05, 2007

A mãe


"A Bíblia põe na boca de Deus estas palavras: "Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, eu nunca te esqueceria. Juro pela minha vida."
Segundo E. Fromm, o psicanalista heterodoxo, é na mãe que encontramos o modelo ideal do amor.

De facto, o que é que procuramos senão o amor incondicional? Ora, a mãe ama o filho/filha não porque ele ou ela têm estas ou aquelas qualidades, não pelo que são, mas pura e simplesmente porque são.Também deste modo encontramos uma boa imagem para Deus.
O espantoso na mãe é que ela continua ela, mas, grávida, há nela, sem deixar de ser ela, lugar para o outro dela - o filho ou a filha -, e, ao longo da vida, ao mesmo tempo que eles podem sempre contar com ela o que ela quer é que eles sejam eles. São Paulo foi a Atenas dizer que "é em Deus que vivemos, nos movemos e existimos". É em Deus que somos, tudo é em Deus, mas, como a mãe, Deus quer ao mesmo tempo a autonomia das criaturas, dos homens e das mulheres."
Anselmo Borges