sexta-feira, abril 13, 2007

Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude
.

Eugénio de Andrade
Procura a maravilha.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha
.

Eugénio de Andrade



Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser
que já é
o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O´Neill

segunda-feira, abril 09, 2007

Isto é serviço público.


Numa esplanada á beira mar neste fim de semana:

Avó a babada para o netinho de três anos, :
- Vá Miguel, cumprimenta este senhor , diz lá : Olá senhor doutor ...( nome extenso).
O citado, completamente incomodado com a situação, retorquiu:
- Que disparate, dona ( nome extenso), que frase tão complicada para um miúdo. Olha diz-me olá e pronto!


A recente polémica pretensiosa acerca do título académico do actual primeiro ministro evoca este provincianismo nacional do chapéu na mão e coluna curvada perante os senhores doutores e senhores engenheiros. Não sei se vem da nossa tradição salazarenta, esta ideia de que um que governante que se preze tem de ter um título académico sonante ( veja-se como o título de professor se conjuga bem na linguagem do politiquês)...
Esta “perseguição “ política ao currículo académico de Sócrates é tão ridícula como reveladora deste tipo de mentalidadezinha provinciana.

Páscoa na Sexta-Feira




- Deixem a minha menina, levem-me a mim, terá dito a mulher antes de ser abatida com um tiro na cabeça por um dos assaltantes.
No meio de tanta ideologia balofa, de tanta demagogia sem rosto, de tanto paleio existencialista, vejo esta mulher, de 43 anos, que morreu de chinelos, para proteger a sua filha de vinte e um anos, a sua menina.
Não há maior amor do que dar a vida…
A morte só tem sentido se for para dar vida aos que amamos. (Não por expiação, por troca ou por aniquilamento niilista, como nos ensinaram em pequenos...)
Perante o amor pelo outro, não temos alternativa – tudo fazer para o proteger e lhe dar a vida.
Só uma mãe pode compreender isto.
( E quando digo mãe incluo todos os pais que sabem do que falo) .

A ser verdade, a questão de um professor universitário de Direito , utilizar os materiais didácticos da sua disciplina para, de uma forma totalmente descontextualizada, verter ideologismo religioso ou utilizar as suas aulas para doutrinar os alunos sobre criacionismo, levanta questões graves.
Não apenas do ponto de vista científico e pedagógico, mas até do ponto de vista ético.

Colocando a questão em perspectiva, não é por acaso que este comportamento ideológico criacionista surge numa faculdade de direito. E numa disciplina do curso de direito.Digamos que seria completamente inconcebível tal suceder numa faculdade ligada ás biociências, ás tecnologias, á física ou ás matemáticas.
E seria inconcebível por um razão extraordinariamente simples – o paradigma de conhecimento científico em que se baseiam as ciências exactas é de um rigor metodológico que não permite que se fundamentem em meras abstracções metafísicas ou relatos mitológicos quaisquer alterações a teorias científicas fundamentadas.
Digamos que o rigor do conhecimento científico não passa pelo paradigma da retórica aristotélica mais ou menos elaborada ou por exercícios fantasiosos mascarados de pensamento científico, em que a argumentação não se baseia na factualidade experimental mas na pura arte da oratória.

Um bom exemplo é a negação da evolução do homem pelos criacionistas, colocando de lado radicalmente toda a história fóssil, que documenta sem margem para dúvidas essa mesma evolução do Homem.
Hoje o paradigma das ciências exactas há muito que superou o dualismo natureza/sociedade ou o reducionismo mecanicista que dominou a epistemologia da ciência moderna ocidental, algo que parece ser esquecido ( ou ignorado?) pelos fundamentalistas religiosos.

E uma das implicações directas do conhecimento científico moderno é que sustenta práticas concretas e permite intervir sobre a realidade. A ciência moderna,ao contrário da ideologia religiosa, através da sua capacidade tecnológica permitiu (permite) uma intervenção concreta na realidade.

Em compensação, o diletantismo ideológico de cariz religioso conduz muitas vezes á pura retórica simbólica, desligada da realidade concreta.

Como escreveu D. Murcho, ao contrário do que por vezes se pensa, é precisamente porque na ciência se erra que as suas afirmações merecem mais confiança do que as das tradições sapienciais ou religiosas, que se outorgam falsamente a propriedade sobre-humana da infalibilidade.