segunda-feira, abril 09, 2007

Isto é serviço público.


Numa esplanada á beira mar neste fim de semana:

Avó a babada para o netinho de três anos, :
- Vá Miguel, cumprimenta este senhor , diz lá : Olá senhor doutor ...( nome extenso).
O citado, completamente incomodado com a situação, retorquiu:
- Que disparate, dona ( nome extenso), que frase tão complicada para um miúdo. Olha diz-me olá e pronto!


A recente polémica pretensiosa acerca do título académico do actual primeiro ministro evoca este provincianismo nacional do chapéu na mão e coluna curvada perante os senhores doutores e senhores engenheiros. Não sei se vem da nossa tradição salazarenta, esta ideia de que um que governante que se preze tem de ter um título académico sonante ( veja-se como o título de professor se conjuga bem na linguagem do politiquês)...
Esta “perseguição “ política ao currículo académico de Sócrates é tão ridícula como reveladora deste tipo de mentalidadezinha provinciana.

Páscoa na Sexta-Feira




- Deixem a minha menina, levem-me a mim, terá dito a mulher antes de ser abatida com um tiro na cabeça por um dos assaltantes.
No meio de tanta ideologia balofa, de tanta demagogia sem rosto, de tanto paleio existencialista, vejo esta mulher, de 43 anos, que morreu de chinelos, para proteger a sua filha de vinte e um anos, a sua menina.
Não há maior amor do que dar a vida…
A morte só tem sentido se for para dar vida aos que amamos. (Não por expiação, por troca ou por aniquilamento niilista, como nos ensinaram em pequenos...)
Perante o amor pelo outro, não temos alternativa – tudo fazer para o proteger e lhe dar a vida.
Só uma mãe pode compreender isto.
( E quando digo mãe incluo todos os pais que sabem do que falo) .

A ser verdade, a questão de um professor universitário de Direito , utilizar os materiais didácticos da sua disciplina para, de uma forma totalmente descontextualizada, verter ideologismo religioso ou utilizar as suas aulas para doutrinar os alunos sobre criacionismo, levanta questões graves.
Não apenas do ponto de vista científico e pedagógico, mas até do ponto de vista ético.

Colocando a questão em perspectiva, não é por acaso que este comportamento ideológico criacionista surge numa faculdade de direito. E numa disciplina do curso de direito.Digamos que seria completamente inconcebível tal suceder numa faculdade ligada ás biociências, ás tecnologias, á física ou ás matemáticas.
E seria inconcebível por um razão extraordinariamente simples – o paradigma de conhecimento científico em que se baseiam as ciências exactas é de um rigor metodológico que não permite que se fundamentem em meras abstracções metafísicas ou relatos mitológicos quaisquer alterações a teorias científicas fundamentadas.
Digamos que o rigor do conhecimento científico não passa pelo paradigma da retórica aristotélica mais ou menos elaborada ou por exercícios fantasiosos mascarados de pensamento científico, em que a argumentação não se baseia na factualidade experimental mas na pura arte da oratória.

Um bom exemplo é a negação da evolução do homem pelos criacionistas, colocando de lado radicalmente toda a história fóssil, que documenta sem margem para dúvidas essa mesma evolução do Homem.
Hoje o paradigma das ciências exactas há muito que superou o dualismo natureza/sociedade ou o reducionismo mecanicista que dominou a epistemologia da ciência moderna ocidental, algo que parece ser esquecido ( ou ignorado?) pelos fundamentalistas religiosos.

E uma das implicações directas do conhecimento científico moderno é que sustenta práticas concretas e permite intervir sobre a realidade. A ciência moderna,ao contrário da ideologia religiosa, através da sua capacidade tecnológica permitiu (permite) uma intervenção concreta na realidade.

Em compensação, o diletantismo ideológico de cariz religioso conduz muitas vezes á pura retórica simbólica, desligada da realidade concreta.

Como escreveu D. Murcho, ao contrário do que por vezes se pensa, é precisamente porque na ciência se erra que as suas afirmações merecem mais confiança do que as das tradições sapienciais ou religiosas, que se outorgam falsamente a propriedade sobre-humana da infalibilidade.

sábado, março 31, 2007

O Sentimento de Si

Os eus não são núcleos isolados de consciência, alojados dentro de cabeças individuais, mas estão integrados num espaço de interpessoalidade.

È este contexto de interpessoalidade relacional que possibilita o EU.

Em vez de uma identidade singular e unitária, tem mais sentido falar de um Eu ( um self) emergente, contextual, discursivo, múltiplo e relacional (Wetherell e Maybin, 1996).

sexta-feira, março 30, 2007




O conhecimento moral não tem uma natureza diferente da do conhecimento em geral: “a cognição moral e social, bem como o comportamento moral e social são actividades do cérebro, não menos que qualquer outro género de cognição e comportamento.
Não é aceitável considerar que “a verdade das proposições morais se fundamenta em algo diferente do modo como o universo material está estruturado”... Seria absurdo acreditar que existe alguma forma meta-empírica de conhecimento moral ou de acesso a ele. Por conseguinte, “as verdades morais são basicamente tão fortes e objectivas como quaisquer outros géneros de verdades, mas esta objectividade não se fundamenta na razão pura ou em qualquer outra base não empírica. Ela fundamenta-se de forma muito semelhante ao modo como se fundamenta a objectividade dos factos científicos”. (…)Isto tem como imediata consequência que qualquer alteração na concepção da estrutura da ciência, nomeadamente quanto ao modo como o nosso conhecimento científico emerge dos factos empíricos, implica automaticamente uma modificação semelhante na concepção da génese e natureza do conhecimento ético. Foi precisamente uma tal alteração que aconteceu com o desenvolvimento das ciências cognitivas, as quais proporcionaram, como sublinha Churchland, uma nova maneira de entender como o cérebro humano chega à compreensão e formulação das proposições científicas. Consequentemente, obtivemos também, com a mesma revolução cognitiva, e segundo o mesmo autor, uma nova maneira de entender como o cérebro causa o comportamento ético e chega à formulação de proposições éticas, sem que estas tenham, por si mesmas, qualquer papel causal naquele comportamento. “
Texto de Alfredo Dinis

A ler: Paul Churchland, “Neural representation of the social world”, em L. May, M. Friedman, A. Clark (eds.), Mind and Morals. Essays on Ethics and Cognitive Science, Cambridge, Mass: MIT Press, 1996

Paul Churchland, A Neurocomputational Perspective. The Nature of Mind and the Structure of Science, Cambridge MA: MIT Press, 1989, p. 297.


Direitos Humanos

"(...) o debate sobre universalismo e relativismo cultural, trata-se de um debate intrinsecamente falso, cujos conceitos polares são igualmente prejudiciais para uma concepção emancipatória de direitos humanos. Todas as culturas são relativas, mas o relativismo cultural enquanto atitude filosófica é incorrecto.
Todas as culturas aspiram a preocupações e valores universais, mas o universalismo cultural, enquanto atitude filosófica, é incorrecto.
Contra o universalismo, há que propor diálogos interculturais sobre preocupações isomórficas. Contra o relativismo, há que desenvolver critérios políticos para distinguir política progressista de política conservadora, capacitação de desarme, emancipação de regulação.
A segunda premissa da transformação cosmopolita dos direitos humanos é que todas as culturas possuem concepções de dignidade humana, mas nem todas elas a concebem em termos de direitos humanos. Torna-se, por isso, importante identificar preocupações isomórficas entre diferentes culturas. Designações, conceitos e Weltanschaungen diferentes podem transmitir preocupações ou aspirações semelhantes ou mutuamente inteligíveis.

A terceira premissa é que todas as culturas são incompletas e problemáticas nas suas concepções de dignidade humana. A incompletude provém da própria existência de uma pluralidade de culturas, pois, se cada cultura fosse tão completa como se julga, existiria apenas uma só cultura. A ideia de completude está na origem de um excesso de sentido de que parecem enfermar todas as culturas, e é por isso que a incompletude é mais facilmente perceptível do exterior, a partir da perspectiva de outra cultura. Aumentar a consciência de incompletude cultural até ao seu máximo possível é uma das tarefas mais cruciais para a construção de uma concepção multicultural de direitos humanos.

A quarta premissa é que todas as culturas têm versões diferentes de dignidade humana, algumas mais amplas do que outras, algumas com um círculo de reciprocidade mais largo do que outras, algumas mais abertas a outras culturas do que outras. (...)"
Boaventura de Sousa Santos

Direitos Humanos


Fotografia - Crinças judias em
Birkenau
"Na forma como são agora predominantemente entendidos, os direitos humanos são uma espécie de esperanto que dificilmente se poderá tornar na linguagem quotidiana da dignidade humana nas diferentes regiões do globo. Compete à hermenêutica diatópica (…) transformá-los numa política cosmopolita que ligue em rede línguas nativas de emancipação, tornando-as mutuamente inteligíveis e traduzíveis. Este projecto pode parecer demasiado utópico.
Mas, como disse Sartre, antes de ser concretizada, uma ideia tem uma estranha semelhança com a utopia. Seja como for, o importante é não reduzir o realismo ao que existe, pois, de outro modo, podemos ficar obrigados a justificar o que existe, por mais injusto ou opressivo que seja. "

Boaventura Sousa Santos