A coisa mais divertida destes últimos dias foi ver um "congresso"' de tias e tios supé-bem, com fatiotas respeitáveis e assim transformado num mercado do bolhão.
Uma delícia.
Todos conhecemos o discurso radical e hipocritamente moralistóide de uma certa direita, a apregoar os valores perenes da família ( de certas famílias, melhor dizendo), da vida, do marialvismo trauliteiro, da piquena canalhice brejeira disfarçada de astúcia política.
quarta-feira, março 21, 2007
terça-feira, março 13, 2007
Utopia
Da confiança no outro

Numa sociedade de competição extrema, onde está a banal confiança nos outros seres humanos? Podemos confiar nos amigos, nos amantes, nos colegas de trabalho, nos pais, nos filhos?
Pode-se confiar nos familiares, nas pessoas de quem depende a nossa segurança diária, nos estranhos, nos prestadores de cuidados?
E pode-se confiar até que ponto?
Pode–se confiar naqueles de quem a nossa vida depende, sabendo que numa sociedade globalizada e de alta complexidade a nossa vida está cada vez mais dependente de estranhos?
Onde estão os limites das pequenas traições, desconfianças e maledicências que, de tão expectáveis e comuns, fazem parte das rotinas do quotidiano, sem que sobrem pudores?
Pode-se confiar nos familiares, nas pessoas de quem depende a nossa segurança diária, nos estranhos, nos prestadores de cuidados?
E pode-se confiar até que ponto?
Pode–se confiar naqueles de quem a nossa vida depende, sabendo que numa sociedade globalizada e de alta complexidade a nossa vida está cada vez mais dependente de estranhos?
Onde estão os limites das pequenas traições, desconfianças e maledicências que, de tão expectáveis e comuns, fazem parte das rotinas do quotidiano, sem que sobrem pudores?
quinta-feira, março 08, 2007
segunda-feira, março 05, 2007
Crónica de uma morte anunciada.

Os corpos foram removidos ao fim da noite de ontem pelos bombeiros para a morgue.
Marisa RodriguesManuel Santana, 75 anos, esteve sempre ao lado da mulher, portadora de Alzheimer. Mas a doença agravou-se e as noites sem dormir deixaram-no à beira do desespero. Pediu ajuda para interná-la, mas o apelo não surtiu efeito. Ontem decidiu acabar com o sofrimento. Matou a companheira a tiros de caçadeira, na casa de ambos, em Loulé, e suicidou-se. A triste história do casal, que depois de uma vida de trabalho em França escolheu viver a reforma no sítio de Soalheira, freguesia de São Sebastião (Loulé), deixou todos em estado de choque. A doença de Olívia Nunes, de 72 anos, era conhecida, mas ninguém esperava este desfecho.Manuel era conhecido pela dedicação à companheira. "Fazia-lhe todas as vontades, ia a Loulé passeá-la, davam-se muito bem", comentavam os vizinhos. A aparente calma que se sentia à porta da moradia do casal, palco da tragédia, quebrou-se quando os corpos foram removidos pelos bombeiros. Deu lugar a muito choro e lamentos. "Ainda estou meio zonzo. Como é que o meu primo foi capaz de fazer uma coisa destas?", questionava-se Artur Mendes. "Ela de há uns tempos para cá não o deixava dormir. Passava a noite a conversar como se fosse uma criança. Ele era um santo e tinha muita paciência, mas com certeza que perdeu o tino, depois de passar muitas noites de seguida sem dormir", acredita. Olívia sofria de Alzheimer há cerca de sete anos. A doença foi piorando e as noites sem dormir levaram Manuel a pedir ajuda. Na passada sexta-feira, foi à junta de freguesia de São Sebastião. Chorava muito e os funcionários decidiram telefonar ao presidente, Horácio Piedade. "Estava desesperado que até metia dó. Disse que não aguentava mais. Queria interná-la", contou. "Contactei a acção social da câmara de Loulé e pedimos uma ambulância, que os levou ao hospital de Faro", acrescentou o autarca. No dia seguinte, ao cruzar-se com Manuel, soube que Olívia "teve alta horas depois de chegado ao hospital. Disse-me que foi medicado e já tinha conseguido dormir melhor". Ontem Manuel telefonou ao filho (o único do casal) que reside em França. Contou-lhe que ia pôr termo ao sofrimento. O filho telefonou de imediato a uma vizinha, que se deslocou à moradia do casal. Encontrou Olívia morta, deitada no sofá, e Manuel, também já sem vida, tombado entre a porta das traseiras e o quintal. A GNR recebeu o alerta às 16.30 horas, mas os militares, ao constatarem ter sido utilizada uma arma de fogo, informaram a Polícia Judiciária (PJ) de Faro, com competência para investigar este tipo de crimes. Mal os inspectores da PJ deixaram a casa, com sacos com indícios recolhidos na moradia, um familiar, um vizinho e o presidente da junta, apressaram-se a limpar o sangue com vassouras, detergentes e baldes de água. "É para evitar que o filho que vem de França sofra ainda mais ao ver isto", diziam.
sábado, março 03, 2007

"No fim deste século o planeta pode estar mais quente entre 1,5ºC e 5,8ºC. Um tal aquecimento do clima ameaça muitas partes do mundo e é passível de causar mais desastres, desde a proliferação de tempestades tropicais até ao afundamento de ilhas inteiras e regiões costeiras.A seguir vem a desertificação, a qual afecta já um terço do território mundial. No fim do séc. XX, quase mil milhões de pessoas em 110 países estavam ameaçadas pelos desertos invasores: o número pode muito bem duplicar até 2050, quando dois mil milhões podem ser afectados. A desflorestação continua também. Toda a biosfera está ameaçada pela poluição: poluição do ar e da água, oceanos e solos, poluição química e poluição invisível. Só na Ásia, o Banco Mundial calcula que o custo em vidas humanas da poluição atmosférica é de 1,56 milhões de mortes por ano."
Koïchiro MatsuuraDirector-geral da UNESCO
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
No meu país não.

Dª Elvirinha morreu a semana passada. Deixou de passear pelos corredores em longas marchas intermináveis, rosto esguio, olhar impenetrável, um tom de voz imponente, lencinho cuidadosamente enrolado á volta do pescoço, e as bijouterias compradas na feira que ela exibia como jóias.
Mais do que o penteado irrepreensível , Dona Elvirinha exibia uma pose de aristocrata embevecida, nunca se soube ao certo se fruto de algum delírio de grandeza se resquícios de um passado obscuro.
Nada de sorrisos fáceis, de convívios excessivos ou demasiadas futilidades com as outras internadas com quem partilhava o espaço de confinamento existencial do manicómio… Vinte, trinta, quarenta anos de internamento numa instituição psiquiátrica transformam o internado num produto da instituição, normativizando as condutas e a identidade. Mas Dºa Elvirinha evitava a normalidade, as provocações ou as pequemas maledicências institucionais com uma frase única : Eu sou uma senhora. E estava tudo dito.
O corpo

O corpo não espera. Não.
Por nós ou pelo amor.
Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória,
tudo o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera;
este pousar que não conhece,
nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
Jorge de Sena
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