O que distingue a civilização da barbárie é a estreita linha que separa o Estado de normas e crenças religiosas.
O que distingue a civilização da barbárie é o respeito pelas mulheres.
Foto – Sharia: jovem mulher iraniana prestes a ser apedrejada
Dª Elvirinha morreu a semana passada. Deixou de passear pelos corredores em longas marchas intermináveis, rosto esguio, olhar impenetrável, um tom de voz imponente, lencinho cuidadosamente enrolado á volta do pescoço, e as bijouterias compradas na feira que ela exibia como jóias. Mais do que o penteado irrepreensível , Dona Elvirinha exibia uma pose de aristocrata embevecida, nunca se soube ao certo se fruto de algum delírio de grandeza se resquícios de um passado obscuro. Nada de sorrisos fáceis, de convívios excessivos ou demasiadas futilidades com as outras internadas com quem partilhava o espaço de confinamento existencial do manicómio… Vinte, trinta, quarenta anos de internamento numa instituição psiquiátrica transformam o internado num produto da instituição, normativizando as condutas e a identidade. Mas Dºa Elvirinha evitava a normalidade, as provocações ou as pequemas maledicências institucionais com uma frase única : Eu sou uma senhora. E estava tudo dito.
O corpo não espera. Não. Por nós ou pelo amor. Este pousar de mãos, tão reticente e que interroga a sós a tépida secura acetinada, a que palpita por adivinhada em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós, mas uma sede, uma memória, tudo o que sabemos de tocar desnudo o corpo que não espera; este pousar que não conhece, nada vê, nem nada ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou, quando um de nós ou quando o amor chegou.
Estas condicionantes históricas mais óbvias, somadas a outras ainda anteriores, foram formando uma representação do feminino que lhe tira dignidade e o respeito do outro. Assim se constroem estereótipos, que só eles explicam a continuada atitude da crença na irresponsabilidade das mulheres. Sendo fúteis, incapazes de decidir com racionalidade, inseguras, frágeis, emocionais e medrosas, a sua decisão não é credível, alguém deverá decidir por elas: por isso se criaram as comissões de ética em vários estabelecimentos de saúde que decidiam se as mulheres podiam ou não abortar, mesmo que a sua interrupção de gravidez fosse legal. [...]
Foi Adão e Silva que muito recentemente disse que, quando o Homem não decide, deixa de ser um cidadão e passa a ser um servo. Será que isso se aplica às mulheres? Quem deverá decidir então? »
Madalena Barbosa, Público, 04-01-2007
SE eu morrer antes do dia 11, não quero missinhas, tá?