sábado, janeiro 13, 2007
“Com a penalização do aborto, não se pretende agravar os problemas das mulheres. Pelo contrário, deseja-se evitar-lhes problemas futuros de que elas não têm consciência.”
Coitadinhas das mulheres, essas criaturinhas indefesas e inconscientes, que precisam antes de mais de ser protegidas delas próprias e das decisões que possam tomar, se preciso for com penas de prisão preventivas para evitar eventuais síndromes pós-aborto.
Agora com licença que vou ali vomitar. Ler destas coisas deixa-me nauseada.
Devo estar grávida.
Coitadinhas das mulheres, essas criaturinhas indefesas e inconscientes, que precisam antes de mais de ser protegidas delas próprias e das decisões que possam tomar, se preciso for com penas de prisão preventivas para evitar eventuais síndromes pós-aborto.
Agora com licença que vou ali vomitar. Ler destas coisas deixa-me nauseada.
Devo estar grávida.
quarta-feira, janeiro 10, 2007
sábado, janeiro 06, 2007
Desvarios
Até os díaconos remédios que vão usar os púlpitos das Igrejas a fazer campanha pelo Não à despenalização afirmam despudoradamente que
“Nós não queremos que as mulheres sejam penalizadas”
E um bocadinho da mais elementar vergonha na cara, não há?
“Nós não queremos que as mulheres sejam penalizadas”
E um bocadinho da mais elementar vergonha na cara, não há?
quinta-feira, janeiro 04, 2007
Outro a favor da despenalização
O João Gonçalves, no blogue do não, defende a legislação espanhola sobre o aborto e a equiparação da actual lei portuguesa á lei espanhola nestas matérias – ou seja, defende
a despenalização da IVG até ás doze semanas, sem necessidade de referendo!
“Depois, a alínea a) do número 1 do art.º 142º é o que se pode chamar uma "claúsula aberta", tão aberta que serve perfeitamente em Espanha, não se entendendo - eu não entendo - por que é que não serve cá(…). Dar-se-á o caso de as mulheres espanholas serem mais "oprimidas" do que as mulheres portuguesas nesta matéria? Não consta que, em Espanha, se queixem. Pelo contrário.
As prioridades do SNS passam por coisas bem diferentes do que o aborto, nomeadamente por criar as condições para que as normas que registei acima sejam aplicadas, sem complexos, sempre que seja necessário. Não é preciso mais nada”
Ao que parece, nem os do blogue do Não vão votar Não.
a despenalização da IVG até ás doze semanas, sem necessidade de referendo!
“Depois, a alínea a) do número 1 do art.º 142º é o que se pode chamar uma "claúsula aberta", tão aberta que serve perfeitamente em Espanha, não se entendendo - eu não entendo - por que é que não serve cá(…). Dar-se-á o caso de as mulheres espanholas serem mais "oprimidas" do que as mulheres portuguesas nesta matéria? Não consta que, em Espanha, se queixem. Pelo contrário.
As prioridades do SNS passam por coisas bem diferentes do que o aborto, nomeadamente por criar as condições para que as normas que registei acima sejam aplicadas, sem complexos, sempre que seja necessário. Não é preciso mais nada”
Ao que parece, nem os do blogue do Não vão votar Não.
terça-feira, janeiro 02, 2007
Os Pobrezinhos
"Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros
- O que é que o menino quer, esta gente é assim
e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.
Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis"
António Lobo Antunes, Crónicaspágs. 119 a 121 (1ªedição)
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros
- O que é que o menino quer, esta gente é assim
e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.
Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis"
António Lobo Antunes, Crónicaspágs. 119 a 121 (1ªedição)
È oficial – a campanha do não assentou arraiais nas igrejas e sacristias.
Vai ser um ver se te avias nas 10 semanas mais próximas…(como aliás foi nestas últimas, na aflitiva tentativa de conseguir assinaturas á saída das missas ou nos corredores de sacristias...)
Nem falo de financiamentos bancários de cariz religioso.
Toda esta Cruzada em tom excessivo e um pouco histérico é interessante. Um pequeno senão… nem todos os comungantes serão indefectíveis defensores da prisão de mulheres… E, os convencidos á partida da bondade da penalização, esses não precisam de missa pra irem votar…
Não é por acaso que o paulo portas ( esse católicíssimo animal político) vai discutir a presidência do PP só depois do referendo… Sinais.
Vai ser um ver se te avias nas 10 semanas mais próximas…(como aliás foi nestas últimas, na aflitiva tentativa de conseguir assinaturas á saída das missas ou nos corredores de sacristias...)
Nem falo de financiamentos bancários de cariz religioso.
Toda esta Cruzada em tom excessivo e um pouco histérico é interessante. Um pequeno senão… nem todos os comungantes serão indefectíveis defensores da prisão de mulheres… E, os convencidos á partida da bondade da penalização, esses não precisam de missa pra irem votar…
Não é por acaso que o paulo portas ( esse católicíssimo animal político) vai discutir a presidência do PP só depois do referendo… Sinais.
domingo, dezembro 31, 2006
ùteros tranparentes
Os úteros grávidos são violados com máquinas imagiográficas e aparelhos tecnológicos (incluindo sondas com máquinas de filmar)que os reduzem a um aquário, a corpos esventrados numa trasnparêancia de entranhas dissecadas, retiradas do contextto de uma PESSOA - corpo vivo e habitado de sentir - reduzidos a fragmentos de sentidos do vivido, reduzido á condição de objecto - o aquário, o receptáculo, a incubadora - violadas até que apenas prevaleça a imagem fabricada em Photoshop de um embrião de dois milímetros e só essa - o seu dono, o seu inquilino, o ser sagrado que detem os direitos todos e perante o qual elas, pessoas, deixam de o ser.
sábado, dezembro 23, 2006
Natal
Menina de nove anos é mãe mais jovem do Peru
02/12/2006
19h12-Uma menina de nove anos deu à luz um menino neste sábado, num hospital público de Lima. A gravidez foi fruto de um estupro. A informação foi divulgada pelo ministro peruano de Saúde, Carlos Vallejos.
O bebê nasceu com 2,520 kg e 47 cm e apresenta dificuldades respiratórias. Ele permanecerá na UTI até alcançar saúde adequada para idade. A mãe precoce receberá ajuda psicológica e seu filho terá toda assistência de que precisar', ressaltou o ministro Vallejos, após visitá-la. "Ela permanecerá no hospital todo o tempo que for necessário até que seu filho e ela estejam em perfeitas condições", declarou.
A garota foi vítima de abuso sexual de um primo de 29 anos. O caso comoveu o Peru, quando sua gestação foi revelada em setembro passado, tornando-a a mãe mais jovem do país. A menina tinha apenas oito anos de idade, media 1,20 cm quendo foi alvo de violação e abusos sexuais repetidos por jovens de 26 anos, seus familiares.
Nesa zona do peru extremamente pobre , as violações e gravidezes de meninas são frequentes - as meninas ficam mais expostas á violência por causa da pobreza absoluta das funções que são obrigadas a cumprir desde muito novinhas: nas plantações ou no pasto, com os animais. Em geral, elas estão sozinhas ou, quando muito, acompanhadas por outras meninas iguais a elas.
No caso de NVT, a gravidez foi confirmada depois de confessado a violação e depois da menina se queixar de dores intensas.. Num país extremamente católico e conservador como o Peru, ninguém considerou a hipótese de um aborto, ainda que a gestação não estivesse num estado tão avançado.
Na nicarágua, um caso semelhante originou reacções radicais.
02/12/2006
19h12-Uma menina de nove anos deu à luz um menino neste sábado, num hospital público de Lima. A gravidez foi fruto de um estupro. A informação foi divulgada pelo ministro peruano de Saúde, Carlos Vallejos.
O bebê nasceu com 2,520 kg e 47 cm e apresenta dificuldades respiratórias. Ele permanecerá na UTI até alcançar saúde adequada para idade. A mãe precoce receberá ajuda psicológica e seu filho terá toda assistência de que precisar', ressaltou o ministro Vallejos, após visitá-la. "Ela permanecerá no hospital todo o tempo que for necessário até que seu filho e ela estejam em perfeitas condições", declarou.
A garota foi vítima de abuso sexual de um primo de 29 anos. O caso comoveu o Peru, quando sua gestação foi revelada em setembro passado, tornando-a a mãe mais jovem do país. A menina tinha apenas oito anos de idade, media 1,20 cm quendo foi alvo de violação e abusos sexuais repetidos por jovens de 26 anos, seus familiares.
Nesa zona do peru extremamente pobre , as violações e gravidezes de meninas são frequentes - as meninas ficam mais expostas á violência por causa da pobreza absoluta das funções que são obrigadas a cumprir desde muito novinhas: nas plantações ou no pasto, com os animais. Em geral, elas estão sozinhas ou, quando muito, acompanhadas por outras meninas iguais a elas.
No caso de NVT, a gravidez foi confirmada depois de confessado a violação e depois da menina se queixar de dores intensas.. Num país extremamente católico e conservador como o Peru, ninguém considerou a hipótese de um aborto, ainda que a gestação não estivesse num estado tão avançado.
Na nicarágua, um caso semelhante originou reacções radicais.
sexta-feira, dezembro 22, 2006
De passagem
O que me irrita é estes opinion makers da moral a metro, que nada sabem do medo, nem da dor dos outros...
Mas pra condenar e julgar, lá estão, hirtos, na primeiríssima fila.
Amén.
Mas pra condenar e julgar, lá estão, hirtos, na primeiríssima fila.
Amén.
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