quarta-feira, dezembro 13, 2006

Úteros transparentes



Durante milénios o útero foi um lugar obscuro e enigmático, cerne das mais bizarras patologias, explicadas por uma misteriosa conexão entre um útero instável ou faminto e os comportamentos / estados emocionais que se diziam ser estritamente femininos.
Apesar de sempre ter havido homens histéricos ( com transtornos conversivos e dissociativos) a histeria foi relacionada pela medicina clássica como uma doença de mulheres, uma doença do útero ( a raiz etimológica do termo indicia o conceito).
Esta imagética da mulher de entranhas ávidas e obscuras, regida pela lua ( e por isso aluada ou mesmo alumbrada), com ciclos de fertilidade animais e capacidade insaciável de desejo erótico, foi parcialmente sublimada pela construção de uma mitologia e iconografia da maternidade redentora.
A maternidade – e só ela – redime amulher desta animalidade atávica e misteriosa que germina no seu útero doentio – assim purificado e reduzido à sua função essencial que é também a função essencial identificadora de qualquer mulher – a reprodução.
Ou virgem e puta, ou mãe redimida e redentora.

domingo, dezembro 10, 2006

As vozes que só a alma escuta

Imagem de MRI do cérebro de uma pessoa sofrendo alucinações auditivas e visuais. As áreas em laranja e vermelho representam as partes do cérebro mais activadas.
As alucinações auditivas, particularmente sob a forma de “vozes” são um sintoma muito característico de perturbação psiquiátrica grave (nomeadamente quadros de esquizofrenia). Excluindo-se outras hipóteses de diagnóstico diferencial, a presença deste tipo de “percepção sem objecto” está relacionada com este quadro psiquiátrico.
Por definição, uma alucinação deste tipo é percepcionada pelo sujeito como sendo exterior a si mesmo e constitui, para o sujeito, uma realidade indesmentível, completamente indistinta de outras realidades sensoriais.
Durante milénios as alucinações auditivas (ouvir uma voz ou várias vozes que comentam, dão ordens , insultam ou fazem revelações proféticas) era em primeiro lugar um fenómeno estritamente subjectivo, sem hipótese de verificação física ou biológica por parte do observador, que originava depois uma infinitude de interpretações sociais.
Hoje, as bases biológicas da alucinação ainda estão por explicar, mas são reveladas em imagens .

quinta-feira, dezembro 07, 2006

O medo


O país mudou. Os portugueses mudaram. Felizmente já não somos um povo vestido de escuro porque os lutos eram eternos e porque o escuro, sobretudo aquele maldito cinzento, BI da nossa pobreza, ficava bem com tudo, servia para todas as estações e não dava nas vistas. Tudo - ou quase - mudou mas o retrato das mulheres não. É certo que podemos exercer todas as profissões e cargos. Quanto às profissões exercêmo-las. Quanto aos cargos vamos indo. Claro que podemos estudar o que quisermos. E não só estudamos como estudamos mais do que os homens. Mas lá no fundo, debaixo do verniz sobre a igualdade e as questões de género, mantém-se vivo aquele medo profundo e ancestral perante esse corpo excessivamente poderoso que é o das mulheres.A gravidez é o reverso positivo e exterior duma moeda onde constam matérias mais inquietantes como a menstruação ou a menopausa. Expressões modernas como «tratamentos de compensação» - aplicadas à menopausa - ou o popular «limparam-na», usado como sinónimo da histerectomia, confirmam como se mantém latente essa concepção das mulheres como um corpo não só desequilibrado mas também conspícuo e imprevisível.
Se a maternidade é aquilo que redime as mulheres dessa espécie de poder biológico excessivo, o aborto é aquilo que o reforça.Nestas coisas não mudámos muito.
Sobre a feiticeira estendemos o perfil doce da Virgem grávida. Mas a feiticeira continua lá. Sobre os corpos domesticados a regimes e ginásticas continua subjacente o espectro da megera.
E ao menor pretexto esses fantasmas de sempre voltam a assombrar-nos os dias. Se se reparar a discussão sobre a interrupção voluntária da gravidez é, em Portugal, uma discussão sobre o poder das mulheres. O debate em torno do aborto é exclusivamente sobre se o aborto pode ser feito 'a pedido da mulher'. ..

Helena Matos PÚBLICO, 2 de Dezembro

terça-feira, dezembro 05, 2006

Cérebro e palavras - a alma visível




As palavras mudam o cérebro.
Porque uma coisa é escutar palavras
(imagem A) .
Outra coisa é pensar( silenciosamente ) sobre as palavras ( Imagem B).
As imagens de PET e RM permitem-nos vêr a alma, ou seja, o cérebro em funcionamento no acto de pensar.