A Mafalda, continua nervosíssima com a citação do Juíz do Tribunal Constitucional Dr.Paulo Mota Pinto que coloquei ( linkei) neste meu singelo blogue.
E, com a coerência a que já nos habituou, a Mafalda resolveu assumir que:
“O que o Dr. Paulo Mota Pinto diz no que transcreve já nós dissemos neste blogue (...) ” .
Ou seja, a Mafalda concorda com o Dr Paulo Mota Pinto relativamente a esta consideração muito específica, por mim citada.
Acontece que também eu.
Afinal há mesmo consensos.
quinta-feira, novembro 30, 2006
quarta-feira, novembro 29, 2006
Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Mário de Sá-Carneiro
Pueril
Os intocáveis

A propósito da sua investigação antropológica sobre as castas de intocáveis, na índia, Rosa Maria Perez alertava para a nossas próprias categorias antropológicas de castas e intocáveis, nas sociedades ocidentais.
Dito de outras forma, quando estamos imersos num determinado referente cultural aceitamos como “natural” e definitivo, como algo de evidente e inquestionável um conjunto de representações sociais, modelos comportamentais e papéis prédefinidos que são interiorizados e incorporados como uma segunda pele sem que um juízo crítico de autoreflexividade permita destrinçar o que é verdadeiramente o EU e o que é circunstância cultural ou contingência.
Cada vez mais vivemos numa sociedade rigidamente estratificada, aglutinada em pequenas tribos impermeáveis, com pouquíssima interpenetração ou diálogo fusional com outras realidades ou outros grupos de pessoas.
O Outro é cada vez mais o estranho, o alien, percepcionado como alienado da realidade que nos é oferecida e que fazemos nossa, e julgamos única, última, verdadeira, sem que uma ponte ou uma ligeira interrogação nos faça intuir que o outro também é pessoa.. Há cada vez mais intocáveis, numa lógica de distanciamento do outro e de manutenção de territórios físicos, ideológicos, estéticos, políticos.
Cada grupo social elege a sua própria casta de intocáveis.
terça-feira, novembro 28, 2006
Felizmente há consensos
Extractos De um voto de vencido No Acórdão do Tribunal Constitucional :
(...)“aceito, porém, “a tese de que esta protecção "( da vida intrauterina) "não tem que assumir as mesmas formas nem o mesmo grau de densificação da exigida para o direito à vida subjectivado em cada pessoa, bem como a tese de que tal protecção se pode e deve ir adensando ao longo do período de gestação.
Aceito, ainda, que, quando se verifique estarem outros direitos constitucionalmente protegidos em conflito com a vida intra-uterina, se possa e deva proceder a uma tentativa de optimização, não sendo esta possibilidade vedada por qualquer escala hierárquica de valores constitucionais ...."
(...)“aceito, porém, “a tese de que esta protecção "( da vida intrauterina) "não tem que assumir as mesmas formas nem o mesmo grau de densificação da exigida para o direito à vida subjectivado em cada pessoa, bem como a tese de que tal protecção se pode e deve ir adensando ao longo do período de gestação.
Aceito, ainda, que, quando se verifique estarem outros direitos constitucionalmente protegidos em conflito com a vida intra-uterina, se possa e deva proceder a uma tentativa de optimização, não sendo esta possibilidade vedada por qualquer escala hierárquica de valores constitucionais ...."
segunda-feira, novembro 27, 2006
Os eunucos e as mulheres
A Mulher não pode dispor do seu corpo. grávido . apregoam.
E se em vez de uma mulher fosse um homem?
Se lhe crescesse um feto no escroto contra a sua vontade?
Como seriam os discursos sociais e religiosos sobre o aborto se os homens engravidassem?
E se em vez de uma mulher fosse um homem?
Se lhe crescesse um feto no escroto contra a sua vontade?
Como seriam os discursos sociais e religiosos sobre o aborto se os homens engravidassem?
Os Eunucos e as mulheres
A deliciosa vanda escreveu brilhantemente sobre os eunucos. E bem:
“O eunuco reprimido, na sua retracção maligna, apenas concebe o feminino sob dois prismas : a puta ou a virgem. Não se pense, por contaminação das técnicas de propaganda inauguradas pelo Concílio Vaticano II, que tal prisma foi recolocado nalguma benignidade revitalizadora. Basta ler os hediondos textos de João Paulo II sobre o assunto, para perceber-se que a maquilhagem e linguagem dúbia do sedutor desvitalizado apenas se modernizou. É aliás para isso que têm servido os concílios, e pouco mais.
(...) Contrapor a morte à vida, e afirmar-se como a favor de uma em detrimento de outra – é mutilação da própria vida, ou melhor, da consciência que cada qual pode ir desenvolvendo acerca de si enquanto ser vivo. Para a morte, pois claro, e a ressurreição, como sabeis ou devieis saber, não a anula, antes a implica, e o resto são cantigas de maus berços.”
“O eunuco reprimido, na sua retracção maligna, apenas concebe o feminino sob dois prismas : a puta ou a virgem. Não se pense, por contaminação das técnicas de propaganda inauguradas pelo Concílio Vaticano II, que tal prisma foi recolocado nalguma benignidade revitalizadora. Basta ler os hediondos textos de João Paulo II sobre o assunto, para perceber-se que a maquilhagem e linguagem dúbia do sedutor desvitalizado apenas se modernizou. É aliás para isso que têm servido os concílios, e pouco mais.
(...) Contrapor a morte à vida, e afirmar-se como a favor de uma em detrimento de outra – é mutilação da própria vida, ou melhor, da consciência que cada qual pode ir desenvolvendo acerca de si enquanto ser vivo. Para a morte, pois claro, e a ressurreição, como sabeis ou devieis saber, não a anula, antes a implica, e o resto são cantigas de maus berços.”
domingo, novembro 26, 2006
Da morte e da vida

Este belíssimo texto foi escrito por uma bela mulher. Porque a morte existe, mas a respiração do nosso sentir não morre , aqui fica a minha homenagem:
“Nunca quis um vestido a sério, pareciam-lhe sempre esbranquiçados pela força do uso e costume social. Em vez de alvura virgem via neles trapos desenhados para conter as infiltrações do amor. As infiltrações são sempre exteriores, pensava, a guerra bacteriológica que é passear um amor pelas ruas, avenidas, países, horas e anos sem que este seja contaminado. O cansaço. Depois ele oferecia-lhe um pirilampo cortado rente na erva que o segurava, uma luz trémula e assustada, à beira do ataque cardíaco, repousava-lhe nas mãos durante uns minutos e apagava os candeeiros, a lua, a chuva, os relâmpagos. Amar é estar no palco, pensava, o foco sempre dirigido aos nossos passos, a insegurança de falhar perante uma plateia onde todos têm a nossa cara. Quando é que é ensaio e quando é que o espectáculo já começou? Quanto dura a temporada? Será itinerante?”
Cláudia
sábado, novembro 25, 2006
As dores das mulheres

As dores de parto e ao acto de parir , foram até há pouco tempo as experiências mais trágicas porque passavam as mulheres. SEM contracepçã0o eficaz e sem assistência médica , o risco de mortalidade mulheres era tão elevado ( e ainda continua a ser e países em que as mulheres não têm cuidados médicos) que a esperança média de vida das mulheres não ultrapassava os quarenta anos.
Para além do risco de vida, das mutilações provocadas por partos violentos, ( como fístulas e lesões permanentes), havia o próprio processo de parto em si, prolongado ( ás vezes durante dias) no meio de dores excruciantes. Não havia qualquer tipo de anestesia e todas das manobras obstétricas eram realizadas assim, mesmo as cesarianas .
A experiência e dor das mulheres foi objecto de muitos discursos ideológicos e sobretudo religiosos. Quando surgiram as primeiras tentativas mais ou menos eficazes de controlar a dor do parto , as reacções não se fizeram esperar.
Em 1847, James Young Simpson, um professor de obstetrícia de Glasgow, ao verificar as suas propriedades analgésicas e anestésicas começou a usar o clorofórmio para aliviar as dores de parto.
O clero e a autoridades religiosas opuseram-se afincadamente.
Uma imposição bíblica e a própria vontade de deus estavam a ser postas em causa quando se diminuía a dor as mulheres. Em última análises para além de violação de princípios éticos, a degradação da sociedade era uma consequência evidente...
“O clorofórmio é uma armadilha de Satanás, oferecendo-se aparentemente para glorificar as mulheres; quando , isso vai embrutecer a sociedade e roubar de Deus os mais profundos e ardentes clamores que surgirão em momentos de dificuldades, pedindo ajuda.”
Outra “suspeita “sobre o uso do clorofórmio foi imediatamente avançada – a ideia de que teria propriedades afrodisíacas nas parturientes.
Ao ler o que actualmente se escreve sobre as mulheres e o seu corpo grávido, não posso deixar de pensar que muito pouco mudou.
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