segunda-feira, outubro 09, 2006

Momento Zen do dia

Hoje foi o Dia Mundial dos Correios e as crianças tiveram direito á visita de um técnico dos CTT e a explicações várias sobre o seu funcionamento.

Conclusão:

Mãe, gostava de ser uma carta. Andava sempre a passear de um lado para ao outro, com autocolantes na bochecha.”
( Os selos, presumo).

O Limbo fechou

"A ideia de Limbo, concebida para salvaguardar a necessidade do baptismo para a salvação eterna, nunca chegou a ser considerada pela Igreja como verdade de fé, e o novo Catecismo da Igreja Católica nem sequer se lhe refere. Aliás, já Bento XVI, em 1984 - na altura Joseph Ratzinger, enquanto presidente da Congregação para a Doutrina da Fé -, tinha dito que o Limbo era apenas uma hipótese teológica. Ou seja, a sua existência não era oficial."
No entanto, o Limbo fez parte da doutrina tradicional da Igreja durante largos séculos.
Um bom exemplo de que nem sempre a Tradição doutrinária corresponde à Verdade e pode não passar de mera hipótese teológica historicamente situada e portanto mutável.

Os terroristas

É vulgar certas correntes de opinião usarem o terrorismo verbal ou a propaganda violenta para impor a sua ideologia. Por exemplo, certos movimentos radicais ditos pró-vida não hesitam em recorrer ao homicídio ou aos atentados bombistas para fazer prevalecer o seu "amor pela vida humana".
Os cartazes com imagens falsas, os bonecos falsos, as falácias fáceis , são também utilizados com frequência.
Tão chocantes como isso são os pretensos filmes (provavelmente falsos) que circulam na net em que se visualizam abortos. De duvidosa credibilidade , estes filmes situam-se, no plano ético , ao mesmo nível dos filmes que que circulam na net com material de pornografia infantil ou de violações "ao vivo" de mulheres.
É o mesmo tipo de material, foi obtido provavelmente da mesma forma - brutalizando as vítimas e sem a sua autorização.
Quem divulga estes filmes e os coloca on line nos seus blogues pessoais ou sites institucionais coloca-se no mesmo plano dos que divulgam material pedófilo on-line - revela desta forma tudo o que há a revelar sobre sobre os seus próprios valores éticos.

domingo, outubro 08, 2006

Cartoon 4 - Os vendedores de banha da cobra



Depois há um outro grupo de intelectuais, políticos e jovens estudantes de esquerda, que um pouco ingenuamente entram nesta discussão com estratégias agitando a bandeira dos direitos humanos. Igualmente com as tias Babás, afirmam defender os direitos das mulheres, com slogans como a barriga é minha e o corpo é meu.
Sendo eu mulher, considero claramente que ninguém, mas absolutamente ninguém tem direito ao meu corpo, ao meu útero ou à limitação da minha liberdade de determinação sexual ou das minhas decisões sobre maternidade. Ninguém pode impor a ninguém a violência de uma gravidez forçada. Ninguém. Nem a igreja, nem o Papa, nem os ideólogos políticos de qualquer quadrante.
Ninguém tem direito a dispor do corpo de outrem. Ninguém tem o direito de coisificar, manipular ou destruir outrém. E isso não se aplica apenas às mulheres mas a todas as pessoas humanas, incluindo os nascituros, que, não sendo ainda pessoas, podem vir a sê-lo, num continuum desenvolvimental. Ou seja, um embrião de cinco semanas , não é ainda uma Pessoa, mas não é um mioma uterino que possa ser extirpado sem qualquer ponderação ética, ou valorização cuidadosa. È por isso merecedor de tutela jurídica.
Interromper uma gravidez nunca é um bem em si mesmo, que possa ser apresentado como um Direito da Mulher, e acarreta riscos para a saúde física e emocional das gestantes. Riscos que podem ser reduzidos drasticamente em ambientes clínicos controlados é verdade, mas que existem, tal como existem riscos para qualquer gravidez e parto.Além disso, o Direito à Escolha tem para mim um sentido abrangente. Escolher significa ter liberdade pra discernir livremente e condições materiais concretas para optar livremente. Uma mulher que aborta porque não tem condições materiais para aceitar mais um filho ou porque está pressionada pelo marido ou porque sabe que a gravidez significa ficar no desemprego, não está a escolher. Em boa verdade, não tem Escolha.
O direito á escolha passa sobretudo e antes de mais por afirmar o direito à contracepção eficaz e à maternidade segura, o direito a ter infra-estruturas de acolhimento para idosos e crianças, o controle da vergonhosa especulação imobiliária, a melhoria das condições económicas globais e a questão do desemprego, uma efectiva protecção jurídica e social à maternidade e paternidade, por combater a violência contra as mulheres, e sobretudo por fomentar a efectiva paridade de papeis no que respeita à conciliação da vida profissional com a vida familiar.

Cartoon 3 - Os hipócritas



O debate sobre a despenalização do aborto ainda não começou e já se agitam algumas tendências.
Os que defendem a manutenção da pena de prisão até três anos para mulheres que voluntariamente abortam em fases muito iniciais da gravidez, usam agora uma roupa mais fresca, mais clean, mistura de morangos com açúcar e jovem devota do bloco de esquerda convertida recentemente ao movimento comunhão e libertação, com um toque de tia dondoca da linha em versão soft.
Tudo para a populaça, coitados, uns incultos, ou melhor, uns pobrezinhos, compreenderem a importância do não. As Bibis,as XaXás, as Pittás e outras que tais, aparecem organizadamente a defender os pretensos direitos das mulheres, sobretudo o direito inalienável de lhes ser reconhecido definitivamente a supremacia moral do estatuto de parideiras oficiais. Isso lhes basta. Falam do direito à maternidade e até , deliciosamente, do direito à escolha e de coisas igualmente fashion-clinic como o Homeschooling, o regresso ao papel da fada do lar por amor às lides domésticas, o dever de parir dez ou vinte rebentos - de preferência um em cada ano, que isto da taxa de natalidade E DA CRISE DA SEGURANÇA SOCIAL é o que se sabe, e defendem com afinco as piquenas das pobezinhas das empregadas e assim... que coitadinhas sofrem horrores com essa coisa do aborto, sobretudo o famoso síndrome pós-aborto. Claro que muitas dessas pobezinhas também sofrem gravíssimos síndromes post–parto, depressões durante a gravidez, depressões post- parto e até psicoses puerperais Não lhes ocorre sequer pensar que as vulnerabilidades sociais associadas a oscilações biológicas e hormonais expliquem mais certos síndromes do que o castigo pelo pecado ou a culpa induzida a posteriori por movimentos religiosos.
Esquecem-se ainda que os traumas psicológicos e emocionais (além dos risco para a saúde e vida da mulher) relacionados com o aborto podem ter várias explicações, uma das quais são as condições obscenas em que se pratica, na clandestinidade e da violência que isso representa para as mulheres mais desprotegidas, "que experimentam no seu corpo um procedimento cruel e degradante".

Claro que as Babás, as Lilis, as XaXás , as Bebés e as Xuxus, também já abortaram. Ou pelo menos conhecem de certezinha uma amiga intima, uma filha ou uma irmã ou uma tia que abortaram e que elas acompanharem discretamente às clínicas in, seguríssimas e assépticas onde foram realizar uma piquena intervenção, sob anestesia e sem trauma, hemorragias ou perfurações intrauterinas. Se houvesse estatísticas fidedignas, sobre a distribuição de IVG por grupos sociais em Portugal a surpresa seria imensa.
Mas as Babás, as Lilis, as XaXás , as Bebés e as Xuxus só recorrem ao aborto por motivos nobres e cleans, que nada têm a ver com essas porcas dessas abortadeiras * que andam por aí a gritar que a barriga é delas e que, se não houver uma lei com pena de prisão, hão de pôr-se em filas ás portas dos hospitais para abortar.

* - linguagem comunmente utilizada pelos defensores da pena de prisão.

Cartoon 2 - Os psicóticos

Para lá deste bando de tias esvoaçantes, algumas com conversas meta-intelectuais sobre conceitos clínicos ou jurídicos, há um outro grupo.
Os homens. Aqui a imagem é diferente – falam como pretensos peritos em questões metafísicas vedadas ao mulherio – princípios jurídicos, Bioética, filosofia dos valores, ideário político, epistemologia do conhecimento científico.
Quando abordam a questão da despenalização do aborto, o rosto é sempre o mesmo, a voz desce pelo menos duas tonalidades, os olhos oscilam entre a dureza macha e a perplexidade estudada, o tom é sempre sério e sombrio, cheio de lugares comuns. Alguns adoptam a postura sorumbática de julgadores eméritos e condescendem a esclarecer-nos sobre os limites éticos dessas coisas do mulherio.
Afirmam despudoradamente que a actual lei se deve manter, até porque ela não se aplica na prática. Ou seja, invocam o efeito dissuasor da lei para convictamente defender que, não só ela não é aplicada, porque ninguém se sente vinculado por ela, como não é desejável que o seja. E por isso não deve ser alterada.
E dizem este raciocínio alarve com um ar seriíssimo, sem o menor pestanejar de ridicularia, do pedestal do seu saber jurídico. Enfim, sem pudor.

strong>Cartoon 1 - Os aldrabões


Cartoon 1 - Os aldrabões
Neste grupo vislumbram-se algumas batinas mais radicais e jovens imberbes com ar de bloquistas de esquerda desiludidos, beatas sinceras e domésticas .Uma mistura interessante do Diácono Remédios com teocratas de gravata que dão aulas em universidades.
Declamam sem hesitações que a interrupção da gravidez, mesmo que realizada nas primeiras semanas é “o homicídio de um ser humano inocente e indefeso.”
Ou seja, partem da afirmação definitiva, sem qualquer base científica, de que o embrião, nas primeiras fases do seu desenvolvimento, é uma Pessoa humana, e que por isso merece uma tutela jurídica plena.
A ser assim, é para mim completamente inexplicável que defendam a manutenção da actual legislação, em que a moldura penal para o crime de aborto é de três anos de prisão efectiva. Se estes ideólogos religiosos fossem coerentes, ou se acreditassem mesmo que se tratava do homicídio de um ser humano inocente e indefeso , naturalmente que só poderiam exigir um agravamento da moldura penal : a equiparação da sanção penal do aborto á sanção penal do homicídio, com uma pena de prisão efectiva até aos 25 anos.Nenhum o faz.
Concluindo:
OU estes ideólogos prisionais são completamente incongruentes relativamente aos valores que apregoam ( incluindo os princípios ético jurídios mais essenciais)

Ou defendem que a destruição de um embrião, embora seja um ser humano, é menos digna de juízo de censura e de sanção penal do que a morte de uma criança – esse sim, um ser humano. Estabelecem pois uma hierarquia entre vários tipos de seres humanos, em que uns mereceriam uma tutela mais restrita do que outros. Esta posição é completamente insustentável do ponto de vista jurídico-penal.
Pelo que a razão é outra:

Ao não colocarem am causa a questão do agravamento da moldura penal para o crime de aborto revelam a sua convição mais íntima – bem lá no fundo da sua consciência ético jurídica, eles sabem perfeitamente que meia dúzia de células indiferenciadas não são uma pessoa humana.
posted by BLUESMILE at 30.9.06 | 0 comments links to this post

quarta-feira, outubro 06, 2004

Duas das minhas irmãs, pequeninas e lustrosas morreram nem sei bem porquê. Ainda tropeçámos algum tempo nos seus corpos mornos, a minha mãe lambeu-as longamente na esperança de lhes devolver o morno bafo da vida, para logo se desinteressar por aquelas coisas inertes. Depois um gelo estranho empurrou-nos os corpos para outro lado e mãos humanas levaram-nas em silêncio para o outro lado do quintal... Dizem que é a selecção natural. Só as crias mais fortes sobrevivem á competição da mama , do aconchego ou dos animais da noite que de vez em quando rondam o ninho. A minha mãe emagreceu nestes dias. O seu olhar está ainda mais doirado e quente, enquanto se oferece pachorrenta a sete bocas ávidas. Tenho fome. Hoje vai haver mais leite.Ainda bem.
Nasci . Sou completamente preto, da mesma cor que a minha robusta mãe, uma cadela labrador de meia idade e olhos doces. Nasci num pequeno ninho que ela arranjou e nas primeiras noites debati-me com os meus oito irmãos para encontrar a melhor mama. Devo dizer, que na madrugada em que nasci uma maravilhosa lua cheia enchia o mundo de uma luz aquosa e plácida... Eu, claro, insensível a estes pormenores galácticos, limitei-me a ganir docemente protestando contra o frio húmido da madrugada, enquanto a minha mãe lambia as as entranhas no lento processo de parir ninhadas.