domingo, setembro 30, 2012

Revelação particular

Agora começo aperceber porque é que algumas pessoas sem razão aparente se suicidam. O suicídio é nada mais nada menos que um momento de excessiva lucidez.

Sinfonia nº40 de Mozart

Estado de guerra

Este meu post foi escrito em Março de 2011. Teve qualquer coisa de profètico.
Estamos em guerra.

O machismo dos eunucos

Para certos  eunucos,  a  contracepção eficaz (contracepção hormonal) é intrinsecamente má. 
Um video publicitado por um deles ( Nuno Serras perreira) explica porquê. Fui ver.
Dizem que as fêmeas tornadas "hormonalmente grávidas" mediante a contracepção eficaz, deixam de ter o cio e  tornam-se pouco apetecíveis aos machos alfa. Ora toda a gente sabe que as fêmeas devem agradar aos machos alfa e que é sua função estar sexualmente disponíveis para os satisfazer. Portanto, segundo o vídeo, as actuais taxas de divórcio e as infidelidades masculinas estão explicadas - coitados dos machos alfa - 99% das suas potenciais parceiras em idade fértil tomam a pílula. Mais ainda, o facto das mulheres tomarem a pílula faz com que os homens se tornem todos potencialmente gays.  Está por explicar as taxas elevadíssimas de infidelidades masculina antes do aparecimento da pílula, mas de certo outras explicações igualmente animalescas haverá.
O Vídeo também justifica e abençoa os homens que se divorciam das mulheres grávidas ou pós menopáusicas - não têm cio, as pobrezinhas. Tornam os homnes confusos. Bem merecem ser deixadas sós. De resto, de acordo com o vídeo, todas as mulheres grávidas correm o risco dos seus homnes correrem para os braços do primeiro efebo que aparecer. É isso que acontece com os chimpamzés quando as suas fêmeas estão carregadinhas de progesterona.
Um segundo tipo de "argumentos científicos" é ainda mais hilariante . Fala-se de riscos para a saúde,  quando todos os  estudos indicam o efeito inverso. Fala-se de efeitos abortivos imaginários quando a pílula se destina a impedir a ovulação e há uma relação directa entre a utilização da pílula e a redução do aborto.
Por último, o elemento mais estrombólico - devido ao xixi das mulheres que usam contracepção, todos os machos do planeta se irão tonar estéreis e o mundo vai acabar a curto prazo.
Confesso que não consegui ver o video até ao fim. Como estou grávida no início do tempo tenho enjoos frequentes e tive de ir vomitar. De caminho espreitei o meu marido, não estivesse ele a rapar as barbas e a vestir-se de drag queen, porque eu tenho taxas elevadas de progesterona e isso se vai manter nas próximas vinte e oito semanas. Também  fiquei aflita porque a minha urina de grávida, carregadinha de hormonas, vai contaminar o planeta inteiro e tornar estéreis um número não identificado de machos alfas.

Por fim decidi comer uma barra inteira de um chocolate com nozes. Uma grávida pode ter desejos.
Já agora, de todo o tipo.

quinta-feira, setembro 20, 2012

Contra os monstros

Hoje tropecei neste graffiti numa da ruas da minha cidade. Ganhei o dia.

"Pertenço a uma geração de homens que acorda de noite para sonhar".

Contra os monstros

"Jamais as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de esperança. Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria escrito um verso de amor. Sobre toda a beleza do mundo, sobre a farinha e o pão, sobre a pura água da fonte e sobre o mar, sobre teus olhos também, se debruçaria a desonra que é o nazifascismo, se eles tivessem conseguido dominar o mundo. Não restaria nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã saberei de novo palavras doces e frases cariciosas. Hoje só sei palavras de ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil, encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a liberdade!"


Jorge Amado

O texto acima , de Jorge Amado, foi publicado no jornal "Folha da Manhã", edição de 22/04/1945
"Figuras do Brasil: 80 autores em 80 anos de Folha", PubliFolha - São Paulo, 2001, pág. 79,  Arthur Nestrovski.





Dura Lex

"Fica decretado por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo,muito mais belo que a estrela da manhã."

Tiago de Melo

quarta-feira, setembro 19, 2012

A nau dos loucos

Estou a ver a entrevista de Alberto João Jardim e a concordar com ele. Tempos estranhos.

GETSEMANI

Na maca do bloco operatório, a caminho do matadouro, o ritmo cardíaco a 140 como se estivesse numa aula de step, pensou atirar-se da maca abaixo, agarrar no soro e pirar-se dali. Em vez disso ficou a ouvir a conversa parva dos médicos e dos enfermeiros sobre o jantar de ontem à noite enquanto lhe atavam os braços, lhe  estendiam panos verdes sobre a barriga gelada e montavam a guarda de metal que separa o campo operatório do anestesista. No bloco está sempre um frio gélido, atrás das máscaras,  os olhos de gueixas árabes aparecem mais cansados, e todo o ritual préoperatório é igualzinhos aos filmes de sacrifícios humanos. O ritmo cardíaco acelerou de tal modo que o anestesista franziu as sobrancelhas:
-Então, que ansiedade é essa?

O que é a liberdade?

terça-feira, setembro 18, 2012

Francelina

Hoje encontrei Francelina. Não mudou nada. É espantoso como aos 66 anos tem o mesmo corpo e a mesma cara que tinha aos 36. Pelo menos assim parece nas fotografias antigas dos anos oitenta - o mesmo penteado, o mesmo corpo escanzelado, o mesmo tom de cabelo, as mesmas rugas. Há quem diga que a maldade conserva e é capaz de ser assim. Porque Francelina foi sempre uma daquelas pessoas de uma inteligência venenosa e com um objectivo maior - dinheiro, dinheiro, dinheiro.Trocava sempre os turnos das urgências para trabalhar aos fins de semana e feriados. Assim ganhava mais uns trocos em horas de qualidade. Chegava a fazer 24 horas seguidas de serviço, com umas sonecas de permeio nas marquesas dos gabinetes médicos. De caminho ainda fazia umas consultas na privada. Foi assim que conseguiu o primeiro carro, depois os apartamentos,  a seguir a vivenda no campo  e por aí fora. Francelina  tinha uma língua tão venenosa que corria a  anedota no serviço que se algum dia  a mordesse acidentalmente morreria intoxicada. E assim controlava chefes, jovens estagiários, médicos maçaricos a meio da especialidade, e a todos  aterrorizava com a perspectiva de lhe caírem nas garras, ou seja, na boca. Uma tarde soube-se que o marido de Francelina estava com gonorréia. As vítimas do costume sorriram e preparam-se para uma vendetta de cusquices e piadolas intermináveis sobre o assunto. Em vão. Nesse dia Francelina contou o episódio em altos berros, entre gargalhadas divertidas, a todo o staff. Descreveu até pormenores da genitália conjugal, o recurso a divertimento extra enquanto ela moirejava para pagar o Range Rover, a quarentena decretada no leito conjugal. Partilhou as dúvidas sobre o antibiótico de largo espectro que escolheu  para o tratar. E, com requintes de sadismo, explicou que ela própria fazia questão de o administrar por via intramuscular.Escolheu as oito  agulhas de maior calibre para levar para casa. O antibiótico era muito espesso, explicou.
Os colegas engoliram em seco. Não houve mais piadolas sobre gonorreias conjugais.

CANTIGA PARA QUEM SONHA - LUIZ GOES

segunda-feira, setembro 17, 2012

Uma morte santa

O funeral de Francisco foi modesto. Meteram o caixão de madeira acolchoado de cetim branco do meio da sala. Não foi difícil encontrar espaço. As escassas mobílias – um aparador  e uma mesa - foram recambiadas para a loja do porco. A um canto, quatro cadeiras de espaldar castanho acolhiam as visitas, depois de terem sido limpas com uma mistura de azeite e vinagre. Numa delas, a um canto, o Chico-polícia dormitava, mãos espessas, cheias de cortes, dedos toscos. Amigo de carteira da escola, guardião da vida toda, estava ali para o velar, como um cachorro. Outros entravam e saíam, na desobriga. Aspergiam o morto de água benta, murmuravam um pai-nosso, davam uma palavrinha de sentimentos à viúva e filhos que quase não cabiam na salinha amontoada. Os homens entravam e saíam direitos ao varandim onde o falecido era exposto todos os domingos. E aí acendiam cigarros como velas. As mulheres enrolavam os xailes e ficavam mais um bocado, numa cantilena de rosário, interrompida aqui e ali pelos gritos da viúva. O negrume de mulheres sós, lenços pretos, a confraria da viuvez definitiva, mesmo as que tinham trinta anos.

A esperança dos desesperados

A esperança dos desesperados move o mundo, como uma vaga.
Tremam os facínoras, tremam os tribunos do dinheiro.
Tremam do silêncio daqueles que não têm voz.
A esperança dos desesperados é tão sombria .

Dura Lex

Mariana aguarda um pouco antes de entrar na sala de audiências. Está cansada. O médico ontem foi peremptório, com trinta e duas semanas, o colo dilatado e contrações esporádicas, o melhor mesmo era estar enfiada na cama a tomar magnésio em catadupa. Mariana arranja a toga que agora está prestes a rebentar sobre as mamas gravidíssimas. Tem o julgamento agendado há meses, depois de estrombólicos adiamentos, prazos dilatórios e manobras processuais inventadas pela defesa, as testemunhas esperam nos corredores labirínticos e o arguido, sorridente e de fato novo voluteia com a alcateia dos seus advogados.

Talvez seja imprudente sujeitar-se a este desgaste e correr o risco de um parto prematuro. Mas tem que fazer este julgamento. Só este e depois pode descansar.

O arguido ri com desprezo quando a vê entrar com aquele passo de ganso das grávidas de fim de tempo. O advogado pigarreia a disfarçar a maçada e pensa para si mesmo que vai ser pera doce.
Mariana iça-se no estrado.
A vítima de violação chama-se Carolina. O mesmo nome da menina que traz no ventre.
Não vai ser pera doce.

domingo, setembro 16, 2012

São Francisco - IV

Foi mais ou menos por essa altura, em meadas dos anos sessenta, que Francisco começou a fazer os seus subtis milagres. Milagres comezinhos e completamente invisíveis, longe da espectacularidade das missas, desses que não originam espantos ou romarias.
O primeiro e mais assombroso ainda hoje deixa perplexo o padre da freguesia, na altura um jovem cura recém-saído do seminário. O cura sabia que, quando alguém tem o brilho estranho da santidade ou a cruz da bondade extrema, mais cedo ou mais tarde a pequena matilha da maldade comezinha começa a ser-lhe atiçada. Começam a dúvidas, os dichotes, as pequeniníssimas insinuações que se vão avolumando, as reticências, os "cala-te boca", as interrogações tácticas, os rumores sobre vidas passadas, as filhas ou as mulheres, as inevitáveis histórias de dívidas ao jogo ou visitas a bordéis - o encarniçamento da mediocridade contra tudo o que é excepcional. O cura viu muito boa gente ser lapidada com a violência da suspeita ou do medo ou daquele ódio á luz que as trevas sempre têm.

Mas não com Francisco. Isso foi o seu milagre. Nunca ninguém da aldeia ousou sequer levantar uma dúvida, uma sombra, uma maledicência, uma suspeita, um trocadilho brejeiro sobre Francisco ou a sua família. Nunca ninguém no burgo duvidou um instante sequer da extraordinária bondade de Francisco.
E todos os Domingos, quando o sentavam na varanda, no seu altar de cego exposto ao sol e ao mundo, as pessoas faziam por passar pela rua, paravam na berma dos degraus da escada, olhavam para cima, benziam-se apressadas e só descansavam quando a voz de Francisco lhes dava a salvação.

15 de Setembro

"Em todas as épocas, surgiram cristãos que não pactuaram com o esquecimento do Evangelho, a decadência e a corrupção na Igreja. Foram essas pessoas e grupos que levaram à prática a ideia de uma Igreja sempre a reformar. Os que souberam assumir os novos desafios culturais e sociais constituem a verdadeira herança da Igreja e a possibilidade de tornar o futuro diferente. O século XX, marcado por duas guerras mundiais, não foi apenas, nem sobretudo, o das traições das Igrejas. Poderíamos nomear pessoas, grupos e movimentos proféticos que fizeram do século XX uma grande viragem do catolicismo. O acontecimento que o aprofundou, alargou e relançou foi o Vaticano II. Costuma-se dizer que é o fruto de uma decisão do Papa João XXIII. É verdade, mas o que há de novo nessa decisão é a vontade de envolver todas as pessoas de boa vontade, cristãos e não cristãos, num processo de reconciliação mundial, num momento de confronto nuclear. É evidente que o papa, directamente, só podia envolver os católicos. Criou um clima espiritual que os membros de outras igrejas cristãs, de outras religiões e dos sem qualquer religião sentiram que aquele momento era de todos e para todos. Hoje, muitos se perguntam como foi possível e, também, por que razão se deixou cair o maior momento de lucidez humana e cristão. O que João XXIII tentou fazer redescobrir é que o autoritarismo não serve para nada, nem na sociedade, nem na Igreja. Sem liberdade não há humanidade nem religiosidade autênticas."
Frei Bento Domingues

sexta-feira, setembro 14, 2012

São Francisco III

Um dia, o Chico-polícia, amigo de jornas e bancos de escola, veio visitá-lo com um embrulho de jornal debaixo do braço. Queria falar com ele, com urgência. Atarantadas, as raparigas lá o arranjaram para a visita, aflitas com o prenúncio de alguma má notícia. A mais nova correu a chamar a mãe, na labuta do campo. Eram  nove da manhã.
Chico-polícia chegou ao pé do amigo, no quarto escuro. Os lençóis brancos passados a rigor com o ferro com brasas dentro; um suave cheiro a criolina misturado com o perfume barato dos acamados. Uma réstea de luz passava pela porta entreaberta e deixava adivinhar o vulto de Francisco, um pouco embatucado com a exuberância do outro.
- Aguenta-te homem, que te trago uma prenda!
E debaixo do braço arrancou um transistor a pilhas.
E quando a mulher, esbaforida e descalça , mais morta que viva,  entrou em casa, uma névoa de música saía do quarto. Com o transístor colado ao ouvido, Francisco chorava. Foi a primeira vez que viu o seu homem chorar.

São Francisco II

Todos o achavam irremediavelmente velho muito antes dos cinquenta anos.
A cegueira e paralisia tinham chegado tão insidiosamente que as pessoas se habituaram a elas. Nada havia a fazer, nem dinheiro para médicos ou hospitais da cidade.
A culpa, achava Francisco, eram aos gazes que apanhara  em cheio na cara nas trincheiras da Flandres. Dois anos de gélidas condições,  atolado em lama e sangue que corroía os ossos. Francisco falava muito dos gazes das trincheiras mas nunca falou das atrocidades pútreas de corpos mutilados à granada. Aguentou a batalha Batalha de La Lys e recebeu duas medalhas de bravura, que a família vendeu em horas de aflição.
Ficara estabelecido desde cedo que a cegueira e parilisia progressivas  foram causados pela guerra. A primeira, a terrível. O grande horror que arrancou todos os jornaleiros da aldeia. Carne para canhão.
Francisco sentia-se permanentemente grato.  Regressara.
Foi então que a santidade de Francisco começou. Á medida que o seu corpo se desfazia aos bocados, descobriram nele uma estranha e rara qualidade: Francisco era um homem bom. Não dava uma imprecação, um gemido maledicente, um queixume, não alevantava a voz , tratava o mulherio da casa com doçura e reconhecimento. Nas décadas que passou no seu esconso tugúrio onde não entrava o sol, Francisco rezava terços, apalpava as paredes e os rebordos da colcha para se orientar no espaço, decifrava os sons da rua e os solilóquios da mulher que vinha para o pé dele ao fim do dia contar-lhe a vida. Era assim que se dizia. Contar a vida. E era ele que a confortava e lhe dava esperança.
Podia ter acontecido   - e a mulher sabia isso - que a incapacidade física num homem na flor da idade, habituado a viver da força dos seus braços, o tornassem amargo, quezilento, ou, pior que isso, violento. Com aquela violência destrutiva dos fracos. Nada disso.

São Francisco I

Francisco passou o últimos anos da sua vida encafuado num cubículo ao lado da cozinha, numa cama de madeira.
O quarto era de uma escuridão absoluta, sem janelas nem luz eléctrica. E isso era absolutamente normal. Francisco era a única pessoa da casa que não precisa de luz. A cegueira surgira lentamente, insidiosa, até o envolver no manto definitivo.
Aos domingos, quando havia sol, as mulheres da família lavavam-no, vestiam-no dos pés à cabeça com as melhores calças e camisas, penteavam-lhe cuidadosamente o cabelo com risco ao lado e faziam-lhe a barba com água morna e espuma de barbear palmolive. No cabelo molhado a filha mais nova fazia ondinhas com o pente, a imitar o estilo das estrelas de Hollywood.  Por fim, luzidio e brilhante, encharcado em after shave barato, carregavam-no numa cadeirinha para a varanda da casa, como num andor. E lá ficava francisco, beatífico e sereno, de uma palidez fantasmagórica, olhos glaucos fixos no nada. Até ao entardecer.

quarta-feira, setembro 12, 2012

João Galamba acusa Vítor Gaspar de "selvajaria social" - Política - Notícias - RTP

João Galamba acusa Vítor Gaspar de "selvajaria social" - Política - Notícias - RTP

Ofélia a porteira III

Dona Ofélia, vermelha de excitação, bateu com a porta do rés-do-chão. Despiu a bata no quarto  esconso da casa, virado para o pátio das traseiras, um  triângulo de cimento onde as vizinhas de cima, negligentes, deixavam caír cuecas do estendal da roupa ou se amontavam piriscas.
Dona Ofélia suspirou, um carrerinho de suor a escorrer-lhe pelo sulco intermamário. Estava calor. O filho Dionísio tinha deixado aberto o computador numa página do facebook com fotografias eróticas. Dona Ofélia estava cansada, indolente,  não conseguia explicar aquela opressão no peito. Por mais que se esforçasse, a vida íntima dos habitantes do prédio estava a escapar-lhe por entre os dedos, que é como quem diz, por entre os olhos. Por outras palavras - passavam-se coisas naquele pequeno mundo que ela não sabia. Ora isso era completamente inconcebível. Pois ela era a porteira. A Dona do prédio. A única capaz de garantir a ordem,  os bons costumes, aquela complacente hierarquia que faz o universo funcionar. Se alguma coisa escapasse ao controlo da porteira o delicado equilíbrio entrava em ruptura. Uma qualquer desgraça ia acontecer - um incêndio, um homicídio, uma explosão de gaz, uma ruína.
Dona Ofélia ergueu os olhos para as esquinas simétricas do mamarracho em frente.
O céu de fim de dia, listrado de azul e rosa fez-lhe uma grande impressão e deu por si com os olhos maraejados de lágrimas a espreitar para as mamas gigantescas de uma rapariga qualquer no écran do computador. As pessoas já não escreviam cartas de amor, os envelopes de condolências com uma barrinha preta no canto direito tinham deixado de existir, ninguém mandava postais de férias do algarve ou de outros sítios mais exóticos. E as casas de penhores já não mandavam cartas de avisos aos devedores. Agora o carteiro só entregava cartas de bancos, publicidade enganosa, cartões de crédito fluorescentes, nada que se pudesse entreler às escondidas. E o entrar e sair no prédio era um corropio de tal ordem entre os rapazinhos de entrega de pizzas, os clientes das meninas brasileiras do quarto andar, os amantes da Rosinha do segundo,   a estudantada que tinha arrendado o terceiro esquerdo,  que Dona Ofélia nada mais sabia. Das suas histórias, vanglórias, acidentes e incidentes, desesperos e euforias, festanças e enterros.
Já ninguém tinha medo da língua da Dona Ofélia ou do cabelo onde a maldade e coscuvilhice se cimentavam com laca.

Pobretes mas alegretes

O discurso salazarento sobre a "bondade intrínseca" da pobreza regressou em força.
 Não só a pobreza é um bem de per si, como um objectivo nacional a alcançar, como qualquer coisa de salvífico ou sacramental.
A sombra do salazar, o velho eunuco que aperfilhava meninas púberes em S.Bento e criava galinhas nas traseiras do palácio, aparece agora nas caras luzidias dos pregadores do miserabilismo. 
Como se ser pobre fosse uma questão de dignidade ou de competência política.
Entendamo-nos - Salazar morreu pobre mas roubou muito.
 Roubou os sonhos, a vida e o futuro a milhares de portugueses.

Mais um Pro-Life

Um dos argumentos a favor da criminalização do aborto até às 10 semanas por opção das mulheres , é a ideia de que o presumível progenitor do embrião deve ter o mesmo direito que a mulher a decidir sobre a sua gravidez. Ou seja, caso o putativo "pai" seja contra o aborto, a mulher deveria ser forçada a prosseguir a gestação e eventualmente a parir. Há mesmo quem fale disto como de um "direito de posse", com possibilidade de recurso à violência para fazer valer este "direito".Um caso exemplar é relatado aqui. A rapariga pretendia abortar. O assassino discordou.

Ofélia, a porteira II

A entrada do prédio tem mármore rosado no chão.
Três degraus de mármore escondem as caixas de correio, mesmo em frente à porta da casa-da-porteira. O  teto trabalhado, em estuque, tem uma filigrana doirada quase ingénua a toda a volta e a porta de entrada, de ferro forjado, desenhos de arte nova.
Dona Ofélia gosta especialmente do elevador de madeira, com porta de correr, cheiros muito antigos impregnados no tapete, botões doirados a indicar cada andar. O elevador tem um cheiro envernizado que a entontece, um barulho de roldanas lentas que a faz estremecer quando tem de subir ao sexto andar para buscar a esfregona nas arrumações do sótão. Já pensaram  em substituír o elevador por um mais moderno mas Dona Ofélia opôs-se violentamente. Alegou questões de economia, saudosismo e até estéticas - o elevador é de facto belíssimo. Mas omitiu o mais importante. Do rés-do-chão, do umbral da sua porta de casa-de-porteira, consegue perceber, pelo chilrear das roldanas e pelo barulho das portas metálicas a abrir e a fechar, em que andar o elevador pára, quantas pessoas sobem e descem (mesmo de madrugada) os pesos dos sacos que carregam, se estão calmos ou impacientes com a subida. Foi assim que apanhou o senhor Vicente, altas horas de madrugada a trazer a amante para o terceiro esquerdo, enquanto a sua esposa, acamada com uma trombose, dormia no quarto conjugal. Ou o senhor João a carregar mobílias clandestinas para os arrumos do sexto andar. Ou a Dona Paula, do quinto esquerdo, com um saco de lixo suspeito às três da manhã,  dizendo que ia pôr o cadáver do gato num contentor do lixo.
Dona Ofélia regista de memória estes pequenos pormenores histriónicos sem que um só cabelo se mova de compaixão. Quando muito, enfia as mãos nos bolsos da bata-de-porteira, aos quadradinhos azuis e brancos com um cabeção branco debruado.

Ofélia, a porteira I

Se o cabelo define uma mulher, o cabelo de Dona Ofélia , numa aridez grisalha pintalgada de louro, era o espelho da sua alma.
Dona Ofélia, sabia de tudo o que se passava no prédio, punha-se no hall das escadas, durante a noite,  para melhor escutar. Os sussurros, os passos,  ou mesmo os berros das discussões azedadas, eram a sua telenovela da noite.Vigiava o carteiro,  a quem abria a porta todos os dias, e, de soslaio, espreitava a  correspondência de  toda a gente, as cartas de amor, as cartas do banco, os convites de casamento dos parentes, as cartas de condolência pelos defuntos.
 Dona  Ofélia tinha um cabelo arisco, tão sujo como a língua estreita e vigiava com complacência excitada, a vidinha dos moradores dos seis andares, multiplicados por dois. Doze apartamentos  ao seu dispor, sem segredos, sem intimidades, sem nenhuma aflição, por mais impúdica, que ela não soubesse.
Doenças, infidelidades, nascimentos e abortos, dívidas ao banco e visitas a bordéis, tudo passava pelo olhar e pela língua esponjosa de Dona Ofélia e se fixava no seu cabelo infame,  como laca.

segunda-feira, setembro 10, 2012

Enforcamento II

O silêncio da morte é a obscuridade mais íntima. Se há alguma definição da morte, não é a ausência, é o silêncio. Não nos vergarmos ao silêncio, ou seja, à desesperança da morte, é o maior combate. Não nos vergarmos ao medo, ao narcisismo, às saídas fáceis, à violência fugaz que parece tudo resolver.
Ter a coragem do quotidiano, feita de perenes fidelidades, de pequenos perdões, é o desafio dos homens e das mulheres de agora.
Por isso há tantos heróis. As ruas do meu país estão cheias de heróis, desses que não andam em manifestações nem escrevem em blogues, nem usam o Facebook. Heróis que dão o corpo às balas e que, na fila do supermercado, fazem contas mentais para ver se podem comprar mais um litro de leite. Mulheres que esfregam o chão da casa de joelhos, de madrugada, para que a cozinha fique a brilhar antes de sairem para o emprego no autocarros das seis da manhã. Homens solitários que choram junto a falésias porque lhes anunciaram o fim dos sonhos por SMS. Ou o desemprego, que é a mesma coisa.
A morte, ou a desesperança, nunca é só de um, é de todos. 
Por isso, por causa destes heróis, há que confiar, há que resistir.  Estar disponíveis para os outros, para a alegria , para o mistério. Saber que nunca estamos sós, mesmo quando a nossa escuridão mais funda nos cega. Mesmo quando nos morremos.

Uma voz no deserto

"Estou em discordância total com o sistema governativo que existe neste momento em Portugal. Oiço desde o início que contínuo com coragem, vou em frente, mas a estrada fica juncada de cadáveres, isso é um vilania, uma insensibilidade, uma insensatez".

D. Januário Torgal Ferreira

Gabriel

Gabriel, tem trejeitos de arcanjo. Abre os braços como quem vai planar com a fatiota do supermercado. Tem cinquenta e tal anos, mais coisa, menos coisa, com aquela indefinição da idade que a pobreza, o cansaço e a solidão escalavram nas caras .
O trabalho é simples, metódico repetitivo até à exaustão - preencher as rodas do supermercado de xupa-xupas. São mais de vinte cilindros ao lado das caixas, cilindros com círculos de buraquinhos intermináveis que é preciso prencher um a um com os pauzinhos de xupa-xupa, ver os que faltam,  voltar para  atrás a confirmar se todos os sabores estão disponíveis.
Gabriel é pragmático - se estivesse  a limpar casas de banho era bem pior, o senhor passos coelho é que tem razão, não podemos ser piegas. Viver com menos de quinhentos euros por mês não é para qualquer um.

sexta-feira, setembro 07, 2012

Enforcamento

Sento-me no chão da sala. A brisa é artificial mas definitiva. O verniz salmão começa a estalar na unha do dedo anelar. È salmão, o verniz, tão óbvio como o peso na traqueia do lado esquerdo do pescoço.  Os momentos de lucidez são às golfadas. Dez  passos para percorrer a sala até aqui , o bafo da brisa artificial a ronronar no ar condicionado.A ligeira poalha sobre o tampo da mesa. A janela rasgada sobre outras janelas.
Sento-me no chão da sala.
O peso sobre a  traqueia, no lado esquerdo do pescoço

quinta-feira, setembro 06, 2012

Discernimento


"C'è da considerare il fiume umano che ha voluto rendere omaggio al cardinal Martini e capire che cosa significa accompagnare l'uomo d'oggi che si interroga o, al contrario, appare fin troppo sicuro davanti a questioni mai presentatesi prima e così urgenti come adesso. Occorre infrangere la tranquillizzante contrapposizione netta tra liberali e conservatori per discernere (verbo caro al cardinale e alla tradizione gesuitica) nella Chiesa che cosa è vitale e che cosa segna una involuzione".

Antonio Spadaro


segunda-feira, setembro 03, 2012

L’Église est fatiguée. Notre culture a vieilli, nos églises sont vastes, nos maisons religieuses sont vides, et l’appareil bureaucratique de l’Église se développe. Nos rites et nos habits sont pompeux (…) Nous nous trouvons dans la situation du jeune homme riche qui s’éloigne, empli de tristesse, alors que Jésus l’appelle à devenir son disciple. Je sais bien qu’il est difficile de tout laisser… Mais au moins pourrions-nous chercher des hommes libres et attentifs au prochain, comme l’ont été Mgr Romero et les martyrs jésuites du Salvador. Où sont les héros qui pourraient nous inspirer ? En aucun cas, nous ne devrions nous en tenir aux limites de l’institution. (…) Dans l’Église aujourd’hui, je vois tant de cendres qui cachent les braises que je me sens souvent pris d’un sentiment d’impuissance. Comment peut-on libérer ces braises pour revigorer la flamme de l’amour ? (…) Je conseille au pape et aux évêques de chercher, pour les postes de direction, douze personnes « hors normes », proches des pauvres, entourées de jeunes, qui expérimentent des choses nouvelles. Nous avons besoin de ce contact avec des hommes qui brûlent, pour que l’Esprit puisse se diffuser partout.




Mon premier conseil est la conversion. L’Église doit reconnaître ses propres erreurs et entreprendre un chemin radical de changement, à commencer par le pape et les évêques. À commencer par les questions posées sur la sexualité et le corps. (…) Nous devons nous demander si les gens écoutent encore les conseils de l’Église en matière sexuelle. L’Église est-elle encore, dans ce domaine, une autorité de référence ou seulement une caricature pour les médias ?



Mon deuxième conseil est l’écoute de la Parole de Dieu. (…) Seul celui qui reçoit cette Parole dans son cœur peut aider au renouvellement de l’Église et saura répondre avec justesse aux demandes personnelles. (…) Ni le clergé ni le droit canonique ne peuvent se substituer à l’intériorité de l’homme. Tous les règlements, les lois, les dogmes ne nous sont donnés que pour clarifier la voix intérieure et aider au discernement de l’Esprit.



Enfin, les sacrements sont pour moi, non pas des instruments de discipline, mais un appui à la guérison des hommes pris dans les faiblesses de la vie. Portons-nous les sacrements à ceux qui ont besoin d’une force nouvelle ? Je pense à tous les divorcés et aux familles recomposées. Ils ont besoins d’une protection spéciale. L’Église soutient l’indissolubilité du mariage. C’est une grâce lorsqu’un mariage et une famille y parviennent. (…) L’attention que nous porterons aux familles recomposées sera déterminante pour la proximité de l’Église avec la génération de leurs enfants. Une femme abandonnée par son mari trouve un nouveau compagnon qui s’occupe d’elle et de ses enfants. Ce second amour réussit. Si cette famille est discriminée, la mère et ses enfants s’éloigneront. Si ces parents se sentent extérieurs à l’Église, ne se sentent pas soutenus par elle, l’Église perdra les générations futures. (...) La demande d’accès des divorcés à la communion doit être prise en compte. Comment l’Église peut-elle venir en aide avec la force des sacrements à ceux qui vivent des situations familiales complexes ? (…)
L’Église est en retard de 200 ans. Aurions-nous peur ? Peur au lieu de courage ? La foi, la confiance, le courage sont les fondements de l’Église. (…) Seul l’amour peut vaincre la fatigue. Je le vois bien avec toutes les personnes qui m’entourent désormais. »
Sur « Humanæ vitæ »
« La hiérarchie de l’Église peut montrer un meilleur chemin que celui tracé par l’encyclique Humanæ vitæ. L’Église y retrouvera sa crédibilité et sa compétence. On sait à quel point le pape Jean-Paul II a aidé à faire revivre la relation entre l’Église et le judaïsme, comme la relation entre l’Église et la science, parce qu’il a prononcé les inoubliables aveux de culpabilité qui exercent un grand effet de nos jours, plusieurs siècles après l’injuste condamnation de Galilée ou de Darwin. Pour les sujets où il s’agit de la vie et de l’amour, nous ne pouvons en aucun cas attendre si longtemps. C’est un signe de grandeur et de confiance en soi lorsque quelqu’un est capable de reconnaître ses fautes et son manque de lucidité d’hier"




Homenagem a Martini

Uma vaga silenciosa de fundo e uma manifestação pública de homenagem dos católicos ao Cardeal Martini não param . Mais de 150.000 pessoas em silêncio já lhe prestaram  a última homenagem  e espera-se uma afluência enorme nas cerimónias fúnebres em Roma.
Parece haver um consenso global sobre a sua visão sobre a Igreja, que considerava atrasada em 200 anos.
"A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes e estão vazias e a burocracia aumenta, os nossos ritos religiosos e as vestes que usamos são pomposos." afirmou,  na sua última entrevista.
Nos últimos dias tem vindo a público  a sua sintonia com Ratzinger  em muitos aspectos doutrinários considerados progressistas e inaceitáveis pelos radicais fundamentalistas católicos que rejubilam com a sua morte.

Cardeal Martini

 O Cardeal Martini morreu . Um homem excepcional, amigo íntimo do actual papa, que lhe teceu aliás rasgados elogios. As suas posições públicas , teologicamente fundamentadas, sobre a aceitação da contracepção, a questão do aborto, a comunhão de recasados e o acolhimento de pessoas homossexuais são conhecidas por todos. Por exemplo, no caso da luta contra a sida a afirmou sempre que utilização do preservativo pode ser um mal menor se, por exemplo, um conjuge for seropositivo.  Posição secundada igualmente por Bento XVI. Também a propósito do aborto, o cardeal Martini considerou positivo que a legalização da interrupção voluntária da gravidez tenha contribuído para reduzir o número de abortos clandestinos. Nunca a estrutura católica o incomodou por isso e, na hora da sua morte, Bento XVI manifestou o seu profundo pesar.
Martini morreu após após doença degenerativa prolongada,  a mesma que afctou João Paulo II. E, tal como aconteceu com este papa, não foram usada medidas inúteis de prolongamento da vida ou de encarniçamento terapêutico. Nem Martini nem JPII foram sujeitos a situações de prolongamento inútil da vida por técnicas mèdicas agressivas. Poucas horas depois da sua morte, nas redes sociais, circularam críticas sobre o assunto.
De resto, já aquando a morte de João Paulo II os mesmos grupos radicais acusaram o Vaticano de eutananásia passiva , por o anterior papa não ter sido ligado a um ventilador e não ter sido sujeito a alimentação artificial, prolongando-lhe artificialmente a longa e penosa agonia. Poderia ter vivido mais tempo, caso tal tivesse sido feito. Precisamente o mesmo caso de Eluana, em que os radicais católicos  e alguns sectores da igreja  que querem que o encarniçamento terapêutico seja obrigatório,  tudo tentaram para manter a sua situação de agonia.
Em causa estão a  dúbia posição do Vaticano sobre o assunto e as contradições insanáveis quando se esquece a compaixão evangélica e se segue o normativismo vazio.