segunda-feira, abril 30, 2012

Os valores monárquicos

Uma pequenina frase exprime, em todo o seu esplendor, o cerne dos ditos valores monárquicos - marialvismo bacoco, a excitação da caça, o adultério masculino como norma desejável ,a total indiferença pelo "povo" ou pelas suas necessidades.
Eu colocaria a pergunta ao contrário - como pode alguém ser monárquico?

Domingo

A chuva abate-se sobre o rio em pedradas de água. O verde escuro corrói a escassa luminosidade do café de fim de mundo. Dois clientes perdidos na tarde bebem cervejas, a humidade penetra nas cores das mesas e cadeiras rosa-verde pálido, o plasma - atacado talvez pela levedura pardacenta da chuva  - deixou de funcionar. A mulher aflige-se com a falta do futebol domingueiro da sport TV e a solidão do café quase vazio. O sol 'inda não se pôs, mas há um tom de fim de acabamento nas coisas todas, o plasma avariado, o jogo do porto que ninguém vai ver, a manta do frio a embrulhar o rio, uma espécie de beijo molhado a humedecer a pele.
A mulher abana o comando, já conformada.

quinta-feira, abril 19, 2012

Memórias de um Portugal salazarento

Uma tarde, no bordel de Dª Libânia, estoirou a bomba. Sua excelência, o professor salazar ia mandar fechar os bordéis , tudo em nome da moral e os bons costumes, a bem da nação.
 As raparigas choravam de aflição - que iria ser delas, entregues a chulos desalmados, sem o desvelo maternal da Dª Libânia e a protecção do bordel? Dª Libânia achava que aquilo não podia ficar assim e nessa noite pediu ajuda e conselho aos clientes mais ilustres  - o doutor, o advogado,  o professor o engenheiro,  o dono da mercado e até o senhor prior fizeram-lhe  chegar o seus doutos conselhos. Nem pensar em despedir as meninas, coitadinhas.
Que seria delas. Nem pensar em fechar portas, que despautério. Afinal o bordel tinha uma importante função social, protegendo os sacrossantos lares e os matrimónios católicos da luxúria desmedida e dos pecados da carne. Não, decidadamente, havia que achar uma solução.
A ideia veio do senhor governador  que ele, está visto, não poderia,  mas a Dª Libânia  devia escrever uma carta ao senhor professor salazar. Homem piedoso e de coração mole, havia de condoer-se da situação das suas meninas, da paz da vilória, da pureza dos casamentos, dos homens da terra. Afinal, as putas eram um bem essencial ao equilíbrio da nação.
E, nas noites seguintes, Dª Libânia escreveu uma fervorosa missiva. Parágrafo ditado por um, alvitre sugerido por outro, correcção gramatical garantida por um terceiro,  a carta concluída e lida em voz alta ao serão,  aos clientes habituais, suscitou aplausos, pateadas de apoio e uma ou outra lágrima furtiva. Estava perfeita. 
Um pequeno pormenor, no entanto, gerou a maior confusão -  como devia começar a carta?
Senhor Presidente do Conselho, diziam uns. Senhor Professor Salazar, exigiam outros. Que nada, seus ignorantes,  Doutor António de Oliveira Salazar, assim é que era. Nada disso, Excelentíssimo Senhor chegava. Embriagados pelo whisky rasco e pelo cheiro a perfume barato das meninas, a exaltação foi subindo de tom,  a pontos da Dª Libânia temer pelo estado do seu estabelecimento, não fosse encerrar portas por  uma cena de pancadaria em vez do decreto ministerial.
Levantou-se do cadeirão, pesada como uma vaca no cio e bateu as palmas com ar solene, até o silêncio imperar. Que não se preocupassem, que ela, mulher da vida, sabia perfeitamente como dirigir uma carta ao alto representante da nação.
E com a caneta de tinta permanente endereçou assim a carta, com a autoridade suprema da linguagem do prostíbulo:

"Meu  filho: "

Memórias de um portugal salazarento

Dona Libânia geria o bordel com desvelos de maternal malícia. Conhecia as dezoito raparigas como a palma das sua mãos, sabia-lhes as histórias, os queixumes, os desmanchos, os noivados desfeitos e os abandonos. Chamava-as a todas pelo nome mas,   a mais nova, a rosinha, enrolava a língua de doçuras quando a exibia aos clientes. Ainda virgem, a menina tinha-lhe sido confiada pela própria mãe a troco de uns vinténs e logo a tinha vendido para estrear, ao senhor doutor. Homem possante e dado às artes médicas da fornicação, não a deixou muito massacrada da primeira vez. Bem instruída pela dona Libãnia,  a pequena là aguentou o serviço, na pequenez dos seus quinze anos.
À tarde, antes dos senhores endinheirados chegarem, o bordel enchia-se de pequenos grupos de estudantes de boas famílias mas sem tostão. Magros, de fato puído e gravatinhas pretas, sentavam-se ao lado das meninas desocupadas momentaneamente,  a beber cachaça, sorvendo cigarros à volta das mesas aquecidas por braseiras de carvão. Elas sorriam e davam-lhes as mãos húmidas debaixo da mantilha, eles sofregavam por aquilo que não tinham dinheiro para comprar. 
Perto da meia noite, os clientes servidos nos quartos, a Dª Libânia condescendia aos olhares famintos dos pobretanas.  Levantava-se do cadeirão, pesada como uma vaca no cio, arrastava-se até à telefonia, sintonizava a Emissora Nacional e batia as palmas com ar solene. Era o sinal ansiado - as meninas que tinham ficado sem cliente nessa noite podiam dançar com os estudantes de ar aparvalhado, ao som da telefonia. Eles aproximavam-se,  cavalheirescos, como se estivessem no baile da paróquia, elas condescendiam em enlaces mais ou menos atrevidos, refegos de seios expostos ao encosto, nádegas bamboleantes, e um cheiro a fêmea  e perfume barato que os punha sem fôlego. Dançavam assim agarrados, em longos minutos da maior folia, mais concupiscentes que  o restolhar animal do andar de cima. E, à meia-noite em ponto, o hino nacional pontuava o fim da emissão radiofónica. Mas como parar a dança, refegos de seios expostos ao encosto, nádegas bamboleantes, um cheiro a fêmea  e perfume barato , quem conseguia???
E assim, todas as noites, no bordel de Dona Libânia, dançava-se o hino nacional até à última estrofe, num roça-roça que faria corar sua excelência o presidente do conselho   caso soubesse de tal blasfémia.

E no entanto move-se


In an interview with daily newspaper De Standard, The Bishop of Antwerp, Johan Bonny, said he was ready to ordain married men. He thinks that non-celibate priests might be an asset in Church pastoral work. The bishop said he appreciates celibacy because it can be a powerful attitude to have in “a consumerist society like ours, where sex is sometimes trivialised”: He reminded that the rule of celibacy does not pose essential doctrinal problems. It differs from the issue of women’s ordination in this respect. Bonny said that probably most of the Belgian bishops would welcome a change of direction with regards to the ordination of married men. Belgian Catholics might accept the ordination of women, but "this is a difficult issue worldwide."
Vaican insider

domingo, abril 15, 2012

A Superstição do catolicismo.

Sabemos que os transtornos  de personalidade e manifestações psicopatológicas são expressas de uma forma culturalmente demarcada. Dai à crença nas possessões  demoníacas vai um passo.

È certo que  pessoas frágeis e vulneráveis, com perturbação psiquiátrica delirante ( como na esquizofrenia paranóide) ou quadros de histeria, são mais sujeitas  a estas explicações de conteúdo místico.

A esquizofrenia tem destas coisas. Mas a esquizofrenia não se trata com exorcismos, terços , jejuns, litura bíblicas ou rezas.

Já os quadros de histeria a  "cura mística" é facilmente explicável.  Um "exorcista" teatral pode ter um efeito placebo verdadeiramente milagroso.


Pobres mentes.




sábado, abril 14, 2012

sexta-feira, abril 13, 2012

Graças a Deus.

Ainda há homens inteligentes.

Em casa

Regresso a casa.
Lisboa parece-me o que sempre foi nestes regressos sincopados - uma pequenina cidade provinciana dividida por bairros, estirpes, grupos sociais que não se tocam. Há uma grande beleza nesta lisboa tão pequenina  que já foi o centro do mundo e tem saudades desse tempo.
No Starbucks do Rossio, onde escrevo a esta hora, empilham-se estudantes, malabaristas, viajantes e pintores. Na mesa do canto uma mulher velhíssima com uma boina branca à anos trinta, folheia um livro numa língua nórdica.
Gosto do ambiente e do cheiro a café, gosto desta cacafonia multilingue, gosto das cores das caras das pessoas em manta-de-retalhos, gosto do Tejo ali perto, hoje mareado de um vento gelado, gosto de misturar a baunilha e a canela no capuccino e ficar a cheirá- lo longamente antes do primeiro golo.

terça-feira, abril 10, 2012

E hoje já é dia 10 de Abril....

Leitura do Dia

"Pela tarde, em vez de trabalhar, pus-me a ler a bíblia online, aprendo muitas palavras, lembro-me de outras, depois utilizo-as em textozinhos como se fossem minhas, nadas e criadas na minha inspiração literária, como se me descessem por obra do espírito santo. Hoje deparei com palavras fantásticas: fressura, ranço, primícias, leprosos, sarna, tabernáculo, impingem, testículo mutilado. Gosto de ler a bíblia, é divertimento puro, gosto do absurdo delírio que lá encontro sobretudo no velho testamento. Mas, por vezes, aborreço-me, com certas e determinadas coisas que por lá se dizem; hoje, no levítico, encontrei o senhor Deus falando a Moisés e dizia-lhe assim Não tomarás mulher prostituta ou desonrada, nem tomarás mulher repudiada de seu marido, pois santo é a seu Deus. Puta que os pariu. Mais à frente, continua o Senhor Deus falando a Moisés, ainda de voz grave, trovões a ribombar, ondas gigantes, apoteose total, e explica Quando a filha de um sacerdote começar a prostituir-se, profana a seu pai, com fogo será queimada. Sei que uma pessoa, ao ler a bíblia, tem de dar um desconto, aquilo foi escrito há muito tempo e por homens, porém, é mais forte do que eu, a permanente secundarização da fêmea, o achincalhamento da mulher, a objectificação do ser menor, dão-me náuseas, chegam-me uns repentes misândricos, acho que Hipólita, chefa das amazonas, encarna em mim, fico capaz de mutilar, nem que seja à dentada, todos os testículos do mundo"

Anna de Amsterdam

Relampejar

Ao ver-se no espelho da loja de sapatos, mariana estremeceu.

segunda-feira, abril 09, 2012

Aborto de anencéfalos - Deus não faz os milagres que devia



Enquanto  no Chile, infelizmente, ainda não foi possível mudar a legislação e as mulheres continuam a não poder fazer abortos para salvar as suas vidas, no Brasil, finalmente, vai ser descriminalizado o aborto  de fetos anencéfalos.
Tal legislação, que só  peca por tardia, fez espumar os habituais odiosos defensores da tortura de mulheres.
Eu acho que deus nosso senhor devia fazer mais milagres.
E um deles, era que alguns bispos brasileiros  ( assim como alguns leigos alucinados, padres e o próprio papa)  pudessem,  por umas longas e prolongadas horas, parir um nado morto sem cérebro.
Fico ás vezes um pouco zangada com este deus que não faz milagres úteis, como este das questões parideiras não poderem   acontecer a machos. Mesmo a machos eunucos, como é o caso de padres e seus acólitos, ter prolongadas contracções uterinas até uma criatura  de quatro kilos de carne lhes  rasgar o ventre ou  sair-lhe das entranhas como no filme do Alien, mudaria para sempre  os belos conceitos sobre as delícias de maternidade.
Mas deus faz orelhas moucas a esta possibilidade, tal como estes eunucos fazem orelhas moucas às dores das mulheres.

Era uma graça divina extraordinária que estas criaturas obscenas  passassem pela agonia de gerar e parir um monstro morto para perceberem do que falam  quando querem condenar mulheres a essa aberração.

Tenho a certeza que no dia seguinte o aborto terapêutico de anencéfalos deixava de ser um pecado e se transformava num acto de santidade.

Mas como deus não faz milagres destes, resta-nos a nós, humanos, elaborar e aprovar leis mais justas e humanas. Não vale a pena zangarmo-nos com deus - afinal ele fez-nos pro-criadores, ou seja, capazes de mudar a realidade. E de lutar, sem desfalecer, pelos direitos das mulheres.




quinta-feira, abril 05, 2012

Muito pouco católico

Parece que o ultra tradicionalista  Michael Voris é afinal muito pouco católico. Michael Voris  tem construído um pequeno império mediático com saborosos lucros usando a pretensa "marca registada" do catolicismo radical , com fins comerciais.

Apesar da admiração que suscita nos nazis tridentinos (incluindo nos portugueses), o seu radicalismo bacoco está a provocar um profundo desconforto na Igreja dos EUA (bastante conservadora aliás).

Neonazis

Depois dos recentes crimes tenebrosos que têm ocorrido na Europa relacionados com o fundamentalismo religioso  - islâmico (em França) e cristão ( na Noruega) - os serviços de segurança europeus estão especialmente atentos a sites religiosos radicais  na internet, que promovam a xenofobia e a violência baseada em preconceitos contra pessoas ou religiões.
 Na Alemanha, acaba de ser proposto o encerramento um site deste tipo conotado com católicos tradicionalistas defensores da missa tridentina  - Kreuz.net   Apesar de ser escrito em alemão o web portal usado era localizado nas  Bahamas e segundo os serviços secretos alemães o site e os seus autores estão relacionados com associações neonazis. O bloge lefebvrista ataca sistematicamente o ConCilio Vaticano II , insulta padres e bispos e defende o retorno à missa tridentina e o Bispo Richard Williamson, ao mesmo que divulga ideologia antisemita, contra o Islão e contra os direitos humanos
A conferência episcopal alemã já veio a publico afirmar que a denominação "católica" para caracterizar o site ou os seus conteúdos é abusiva e considerou o site  como divulgador de um  "ódio sectário", apelando ao seu encerramento.
Não tardou muito que os simpatizantes dos neonazis tridentinos exprimissem a sua defesa do site, como no blogue Fratres e Unum.

Senilidade

Ao encontrar-se com o papa em Cuba, Fidel Catro  dirigiu ao Papa uma série de perguntas. A primeira foi inesperada: mas por que motivo a liturgia mudou tanto? A sua recordação estava fixa no período precedente ao Concílio.....

E no entanto move-se


Palavra do Bispo

Não consigo entender como, em pleno século XXI, existam pessoas que querem a volta da Missa em latim, com o padre celebrando “de costas para o povo”, usando os pesados paramentos “romanos”. Estamos celebrando, neste ano, os cinqüenta anos da abertura do Concílio Vaticano II, quando já sentimos a necessidade da realização de um Vaticano III e encontramos gente que quer retornar ao passado. E, o que é mais preocupante, são pessoas que freqüentaram a universidade, que entraram na universidade, mas a universidade não entrou neles. Penso que é hora de os nossos cientistas inventarem um aparelho para “abrir cabeças”. O “desconfiômetro” já está ultrapassado, mesmo porque estas pessoas não desconfiam que estão “fora de linha”, “fora de época”. Querem, a todo custo, a volta ao passado. Vivem de milagres e aparições, de devoções e pieguismo já, felizmente, ultrapassados. Imaginemos um padre celebrando em latim numa capelinha rural. “Dominus vobiscum”. “Et cum spiritu tuo”. O nosso povo simples vai pensar que o padre está maluco ou, pelo menos, que o está xingando. Lembro-me de meu tempo de criança, quando a missa era em latim. As senhoras piedosas, não entendendo nada, rezavam o terço. Não tenho nada contra o terço -aliás eu rezo o rosário todos os dias- mas terço é reza, não é celebração. Só falta defenderem a volta às famosas “mantilhas” que cobriam as cabeças das mulheres. E eu pergunto: por que não a dos homens? Seria até bonito ver os homens de “mantilhas rendadas”. Difícil seria encontrar quem as quisesse usar. A não ser alguns “cabeças de vento” que andam por aí querendo ensinar o pai posso ao vigário. Mas, persiste a pergunta, o que está por detrás disso? Um saudosismo? Penso que não. É mais do que isso: é um desejo mórbido, um medo do novo. Uma aversão à mudança. É o que poderíamos chamar de -para usar uma expressão francesaum “laissez faire, laissez passer”, um “deixa estar para ver como é que fica”. É uma tentativa de manter o “status quo”, mesmo que esse “status quo” beneficie a uma meia dúzia. E os outros é que se danem. Para esses puritanos o inferno está cheio de gente; quando na verdade, cheio está o céu, porque Deus quer salvação de todos. E não apenas de uma minoria moralista que vê pecado em tudo e para quem o capeta é mais poderoso do que Deus. “Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes”, diz o profeta. Gente que se preocupa em lavar os copos, as taças, e não as mentes e os corações. É a velha posição dos fariseus - que ainda hoje são muitos- que criticavam Jesus por curar no dia de sábado. Lembro-me da história de uma pessoa que, ouvindo a notícia de que o João havia assassinado Pedro na sexta feira santa, disse: “por que ele não deixou para matar no sábado?“ Para esta pessoa o dia era o mais importante. Termino citando dois pensamentos que fazem pensar: “O passado é uma lição para se meditar, não para se reproduzir” (Mário de Andrade — autor de Macunaíma); “Leve do altar do passado o fogo, não as cinzas” (Jean Jures — líder socialista
 francês)
+ Dom Paulo Sérgio Machado Bispo de São Carlos

quarta-feira, abril 04, 2012

Tão Pro Vida e Pro familia que eles são

Ainda me lembro quando os senhoritos e as senhoritas do CDS-PP  e do PSD se arvoravam em defensores da vida e da familia tradicional. Com rezas de terço e tudo. Mas  agora, que estão no poleiro, não só acabaram com quase todos os subsidios de apoio a crianças e famílias carenciadas como vão cortar forte e feio no apoio à gravidez e parto.
È  bem feito para as alminhas pietistas que elegeram esta cambada.

E no entanto move-se

O Cardeal Carlo Maria Martini declarou publicamente que é favorável ao reconhecimento do casamento civil de casais homossexuais. Sendo um Cardeal que por pouco falhou a eleição papal, estas palavras, que até agora não deram azo a nenhuma versão a contrario do Vaticano, são muito importantes e representam uma tendência de mudança na atitude oficial.

Isto numa Igreja católica que há apenas algumas décadas, mandava castrar meninos como cura para a homossexualidade e onde o bafio do ódio teima em persistir.

De resto, para Montini, um bispo é chamado primeiramente a estar "atento aos pobres, aos encarcerados, aos doentes, aos estrangeiros", mas também a quem é obrigado a viver fora da Igreja "como os separados, os divorciados e os homossexuais".

Para Martini, o comportamento homossexual, "No mundo atual, tal comportamento não pode ser, por isso, nem demonizado nem ostracizado. Estou pronto até para admitir o valor de uma amizade duradoura e fiel entre duas pessoas do mesmo sexo. A amizade sempre foi tida em grande honra no mundo antigo, talvez mais do que hoje, embora ela fosse amplamente entendida no âmbito daquela superação da esfera puramente física da qual eu falei antes, para ser uma união de mentes e de corações. Se ela for entendida como doação sexual, então não pode, a meu ver, ser elevada a um modelo de vida, como pode ser uma família bem sucedida. Esta última tem uma grande e incontestável utilidade social. Outros modelos de vida não podem sê-lo da mesma forma e, principalmente, não devem ser exibidos de modo a ofender as convicções de muitos."

E o cardeal acrescenta:

"Eu não entendo por que o Estado encontra dificuldades para reconhecer tais uniões, mesmo respeitando o papel fundamental da família tradicional para a organização da sociedade, e por outro lado custa-me a compreender porque a maiores resistências vêm da Igreja Católica, que, ao menos na Itália, se mostra muito pouco tolerante com relação à ideia de ampliar os direitos a todas as uniões. Porquê tanta contrariedade, a julgar pelo pensamento que é comumente difundido e divulgado?"

Primvera

Um portugal salazarento

Parece que voltou o exame da quarta classe, para grande gáudio das "elites" que nos desgovernam.
Isto e a ideia dos pobrezinhos, muito pobrezinhos, mas honradinhos.
Não tarda estamos todos a vestir as camisas da mocidade portuguesa versão  passos coelho e a marchar ao som de música das doce.

Um Portugal muitíssimo salazarento

Li, por estes dias, as memória de uma das criaditas de salazar e a sua visão infantil de fim de regime. A petite histoire revela  aquele toque de perversidade com sabor a moralismo, tão típica do velho regime.
A imagem do  ditador decrépito rodeado de um bando de ninfetas que o adulam e que ele gosta de ver a tomar banhos de mar às sete da manhã, eriçadas de frio, é uma delas. Outra é o prazer que o velho tem  em ver-se rodeado de miúdas que lhe contam histórias ( apesar dos ciúmes da governanta) , ou a cena de irem todas despedir-se à noite ao quarto do ditador.
Mas o ex-libris desta moral fascistóie é o que o regime fez à sua governanta, Dona Maria, um cão de fila apaixonado que deu a vida por Salazar e nas exéquias se assumiu como única viúva. Marcelo Caetano deu-lhe três dias para saír de S. Bento - como um cão escorraçado - depois de décadas em que a governanta punha e dispunha do palácio ( e, em parte, do país). Este escorraçamento só tem paralelo com o facto de o cadáver de Dª Maria, a governanta de Salazar, ter sido submetida a um exame ginecológico post- mortem para confirmar a virgindade. Em nenhum lugar do mundo se faz isto numa autópsia a um cadáver de uma octogenária (a não ser que haja suspeita de crime sexual). Mas à governanta de Salazar foi feita. E esta quase profanação de cadáver, foi só para saber se Salazar tinha ou não tido coito com a pobre mulher.